Galp tem cair

Os amigos da JA! em Portugal contestam a Assembleia Geral Anual (AGA) da Galp Energia, empresa que faz parte da indústria destrutiva do gás em Cabo Delgado.

Na semana passada, a empresa Portuguesa Galp Energia realizou a sua AGA, e os amigos da JA! em Portugal criaram uma acção directa online que reuniu mais de 400 pessoas. Este é apenas o começo do que claramente será uma luta feroz e poderosa: A Galp Tem de Cair!

Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique, está a ser destruída pela indústria do gás. Empresas como a Galp, que fazem parte da indústria, estão a retirar casas, terras e meios de subsistência às pessoas que lá vivem, cultivam e pescam por gerações. E agora, a indústria do gás trouxe a desastrosa pandemia do COVID-19 para a província de Cabo Delgado, em Moçambique, e são as pessoas e as comunidades vizinhas que irão sofrer.

A JA!, como parte da campanha Não ao Gás! em Moçambique, tem como alvo a Galp por ser uma das empresas envolvidas na devastadora indústria de gás natural líquido em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, onde gigantes multinacionais de combustíveis fósseis como a Eni, a Exxon e a Total estão a cometer violações dos direitos humanos e ambientais, e a causar danos irreversíveis no clima para extraírem gás. A Galp detém 10% do Coral GNL, um destes projectos.

A acção foi criada pela Climaximo, uma organização baseada em Lisboa que trabalha em justiça climática, transição justa e democracia energética; pelo artivismo de 2 graus, um colectivo artivista baseado em Lisboa; e pela Greve Climática Estudantil, sextas-feiras de Portugal para o Futuro. A JA! tem trabalhado em estreita colaboração com a Climaximo, o que conduziu a esta acção.

Como parte da Galp Tem de Cair, três activistas da Climaximo participaram na AGA e fizeram perguntas directamente ao conselho de administração. Enquanto isso acontecia, mais de 400 pessoas assistiam a um espectáculo em directo com concertos em tempo real, palestras e uma demonstração online.

Sinan Eden, activista da Climaximo e organizador da acção, disse: “A Galp Tem de Cair é uma acção que possui vários elementos. Esteve online e offline, dentro e fora da AGA, em ligação com lutas nacionais e internacionais, com elementos activistas e artivistas.

Consideramos a AGA da Galp como uma cena de crime, e a indústria global de combustíveis fósseis como um crime organizado internacional contra a humanidade. Assim, a nossa abordagem é denunciar as injustiças sociais e climáticas da Galp em todos os espaços disponíveis.”

Este ano, como a maioria das AGAs em todo o mundo, o confinamento pandémico do COVID-19 implicou que a AGA fosse virtual e que os accionistas precisassem de pedir permissão para entrar em directo. Isso significou que o CEO ou o Presidente poderia retirar um accionista apenas com o clique de um botão, pelo que os activistas tiveram de fazer perguntas muito sucintas. Os três activistas que se fizeram presentes tiveram que enviar perguntas por escrito, que o conselho de administração examinou antes de estas serem colocadas ao CEO.

Sinan salienta que: “Em Portugal, até à data, a táctica de entrar nas AGAs era inexistente nos movimentos sociais em geral. A teoria da mudança da Climaximo informa-nos que um diálogo com a indústria não produziria soluções reais, pelo que a nossa abordagem dentro da AGA foi mais contestada e denunciada do que debatida.”

Activistas dentro da AGA:

Os activistas da Climaximo fizeram perguntas (deveriam ter sido quatro, mas a Galp bloqueou a quarta no último minuto, alegando alguns problemas administrativos). Apresentaram 15 perguntas, na sua maioria sobre Moçambique, que a JA! tinha trabalhado com eles. Receberam 5 respostas da administração, que foram muito evasivas e vagas, repetindo a retórica usual sobre o compromisso da Galp com o desenvolvimento económico em Moçambique, como afirmam fazer em todos os países do hemisfério Sul onde têm projectos.

Um dos activistas que fez parte da AGA, Manuel Araujo, descreveu a sua experiência na AGA: “Perguntámos sobre a actual crise climática e o seu criminoso modelo de negócios de extrativismo social e de recursos, aos quais eles responderam repetidamente o seu compromisso com o gás natural como combustível de transição, apesar de ser conhecido por ser uma das principais fontes de emissões de GEE. Previsivelmente, não comentaram a compatibilidade do seu aumento planeado de 50% na extracção de combustíveis fósseis nos próximos dez anos com as metas de emissões estabelecidas no acordo de Paris.”

Manuel diz que o CEO, Carlos Gomes da Silva, deu um argumento particularmente absurdo, ao comparar os hipotéticos cortes de emissões obtidas com a substituição de cada automóvel por um eléctrico (3,5%) com as obtidas com a substituição do carvão por gás na produção de electricidade (15%), como se estas fossem as duas únicas alternativas em cima da mesa.

Perguntaram também qual é normalmente a questão mais incómoda para os executivos – Porque é que a administração e outros executivos de topo recebem salários absurdamente altos e porque é que os accionistas recebem ridículos 580 milhões de euros, quando este dinheiro poderia ser melhor gasto num programa de transição justa para os trabalhadores da empresa.

Em 2019, da Silva recebeu uma remuneração de 1,8 milhões de euros. No total, os salários da administração foram de 6,6 milhões de euros, metade dos quais foram bónus.

Manuel diz: “Só obtivemos respostas evasivas, mas valeu a pena ouvir o Presidente do Conselho da AG perguntar ao Secretário da Empresa o que torna legítimo o CEO da Galp ganhar 197 vezes o salário mínimo.”

Inês Teles, que também fez uma pergunta, retirou-a da sua experiência: “Durante a AGA, a administração da Galp revelou mais uma vez a sua profunda desconsideração por questões relacionadas com o clima e a justiça social. Não conseguem ver para além dos lucros que obtêm do mar de destruição que causam, distribuindo orgulhosamente entre si os seus dividendos.”

A Galp Tem de Cair Ao Vivo

Enquanto isto acontecia, “fora” da AGA, 400 pessoas participavam noutra componente da acção directa de A Galp Tem de Cair, que incluiu uma tempestade no twitter, entrevistas em directo com activistas, incluindo da JA!, uma demonstração online e as perguntas dos accionistas também foram transmitidas em directo.

Parte desta acção foi A Galp Tem de Cair Ao Vivo – um espectáculo em directo, via instagram, que reuniu artistas emergentes e activistas de longa data de países que a Galp está a colonizar: Moçambique, Brasil, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

A organização deste evento em directo foi possibilitada pela artivismo de 2 graus e pela Greve Climática Estudantil.

Diogo Silva, um dos organizadores da acção do artivismo de 2 graus, acredita que a arte é crucial para a revolução, e diz: “Este evento marcou muitas estreias em Portugal: a primeira vez que activistas Portugueses invadiram a assembleia accionista da Galp; a primeira acção directa a envolver sobretudo meios online; a primeira acção artivista em directo totalmente online; e a primeira demonstração online.”

A partir de agora, o nosso objectivo como comunidade artivista baseada em Portugal é construir laços mais fortes, dar poder uns aos outros e mobilizar uma nova geração de artivismo pela justiça climática. Outro mundo é possível e não é a nossa revolução se a arte não estiver envolvida”.

Esta acção e a AGA deste ano foi a primeira da Campanha Não ao Gás! e a primeira que a JA! enfrentou a Galp e sensibilizou especificamente sobre esta empresa. A quantidade de atenção e apoio que A Galp Tem de Cair recebeu foi muito inspiradora e o acompanhamento nas redes sociais foi óptimo. Este foi um forte começo para o que claramente será uma poderosa campanha colectiva. E o próximo ano será ainda mais forte.

Iremos certamente actualizar-vos a todos, nossos amigos, sobre o que vem a seguir na campanha A Galp Tem de Cair.

Sinan diz: “Gostaria de esclarecer uma coisa: precisamos de desmantelar a Galp, porque se, em vez disso, ela colapsar, todos nós estaremos debaixo das suas ruínas. A Galp tem de ser desmantelada por um processo democrático, planeado e deliberado. Uma transição rápida e justa, e a justiça climática baseada na solidariedade global só são possíveis através de um sector de energia 100% renovável, de propriedade pública e controlado democraticamente”.

E, por fim, algumas palavras de Daniel Ribeiro, da JA!:

“A Galp está a planear ganhar milhões em Moçambique, às custas de retirar terras das comunidades camponesas e do acesso marítimo dos pescadores, da perda dos seus meios de subsistência, dos abusos dos direitos humanos e dos conflitos. O investimento da Galp está também a servir como um amplificador da corrupção do país, das injustiças e até de assassinatos de activistas e jornalistas. A Galp tem de parar, a Galp tem de cair, se não quiserem o sangue desses crimes nas suas mãos. Eles têm de começar a colocar as pessoas à frente dos lucros.”

Para mais informações sobre a campanha A Galp Tem de Cair:

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