
Comunicado de imprensa da Justiça Ambiental, ReCommon, Friends of the Earth France BankTrack, Urgewald
01 de Abril de 2026 – Os membros da Campanha da Coligação «Say No to Gas! Em Moçambique» partilham as sérias preocupações expressas pelos peritos em direitos humanos nomeados pela ONU relativamente ao empréstimo de 150 milhões de dólares do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) para apoiar o projecto Gás Natural Liquefeito Flutuante Coral Norte (FLNG) [1]. Exigem que todas as instituições financeiras respondam ao apelo destes especialistas, comprometendo-se a não apoiar a expansão do gás no norte de Moçambique e a suspender o financiamento de novos projectos de combustíveis fósseis.
O projecto, liderado pela Empresa italiana Eni, consiste numa plataforma flutuante concebida para a extração e liquefação de gás ao largo da costa de Cabo Delgado, a província mais setentrional de Moçambique. Trata-se, na prática, de uma réplica do projecto Coral South FLNG da Eni, que está em funcionamento e exporta gás liquefeito desde novembro de 2022. Nos últimos oito anos, a região tem sido palco de um conflito violento entre o exército moçambicano e grupos insurgentes.
Na declaração da ONU, os especialistas em direitos humanos afirmam que o projecto Coral North «corre o risco de agravar as violações dos direitos humanos, contribuir para as alterações climáticas e desviar fundos públicos já escassos de investimentos urgentes em energias renováveis». Alertaram também que o projecto poderia agravar as tensões existentes e os desafios em matéria de direitos humanos causados pelo sector do gás na província de Cabo Delgado.
Estão em destaque outros três projectos de extração e processamento de gás no norte de Moçambique: o Mozambique LNG da TotalEnergies, o Rovuma LNG liderado pela ExxonMobil e pela Eni, e o Coral South FLNG liderado pela Eni.
Segundo os especialistas em direitos humanos: «Os projectos de GNL anteriores em Cabo Delgado sofreram de uma consulta inadequada, o que minou a participação local nas decisões-chave do projecto e resultou na perda de meios de subsistência e em perturbações socioeconómicas a longo prazo para as comunidades que dependem fortemente da pesca, da agricultura e dos recursos naturais. Apesar das promessas de criação de emprego, as elevadas taxas de analfabetismo e o acesso limitado à educação significam que as comunidades locais terão, alegadamente, beneficiado pouco das oportunidades de emprego geradas até à data». Salientam que isto ocorreu numa região onde o conflito armado e as alterações climáticas já causaram deslocações em grande escala.
Anteriormente, especialistas alertaram que o projecto Coral North FLNG poderia ter um impacto climático significativo, com emissões excessivas de gases com efeito de estufa, uma questão que foi destacada já em março de 2025. A investigação da ReCommon, «Hidden Flames», analisou os impactos climáticos da instalação Coral South FLNG, com especial enfoque na queima de gás e nas emissões associadas — ambas subestimadas pela Eni [3].
Em correspondência com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), foi garantido aos membros da coligação StopMozGas que o projecto Coral North FLNG «integrou medidas ambientais e climáticas rigorosas, incluindo a minimização da queima de gás e a gestão das emissões, posicionando o Coral North entre os projectos de GNL mais limpos». No entanto, a queima de gás não é uma preocupação invulgar nas instalações de GNL, sendo que uma recente investigação da Data Desk revelou que os terminais de GNL tendem a queimar gás durante um período significativamente mais longo do que a indústria alega, uma vez iniciada a produção, e que a queima de gás persiste durante décadas em muitas instalações [4].
Os especialistas em direitos humanos da ONU afirmam:
«Estamos profundamente preocupados com o facto de um banco multilateral de desenvolvimento de renome financiar um projecto desta natureza numa altura em que as consequências ambientais e climáticas prejudiciais da expansão dos combustíveis fósseis são bem conhecidas… As instituições financeiras e as empresas têm a responsabilidade, ao abrigo dos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, de identificar, prevenir, mitigar e remediar os impactos sobre os direitos humanos associados às suas actividades e relações comerciais.»
O seu aviso refere-se explicitamente ao Coral North FLNG e é dirigido ao Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), mas o público a que se dirige, nas entrelinhas, é muito mais vasto. A TotalEnergies está envolvida em dois processos criminais em França: o primeiro por homicídio involuntário e omissão de socorro a pessoas em perigo [5], o segundo por cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimentos forçados [6]. O local onde está previsto a construção do projecto de GNL da multinacional francesa em Moçambique é partilhado com o Rovuma LNG da ExxonMobil e da Eni. Estes factores – relacionados com o Coral North FLNG e outros projectos de combustíveis fósseis na área – não devem ser ignorados pelos financiadores internacionais da infraestrutura, tanto os confirmados como os potenciais.
De acordo com a declaração da ONU, a decisão do Banco Africano de Desenvolvimento parece contradizer a sua Estratégia para 2021–2030 sobre Alterações Climáticas e Crescimento Verde, com o parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça sobre alterações climáticas e com o imperativo, consagrado no direito internacional dos direitos humanos, de descarbonizar as economias ao longo desta década. Os especialistas instam o banco a suspender todo o financiamento a projetos de combustíveis fósseis.
«Os custos do gás para Moçambique estão a aumentar, as receitas prometidas continuam a diminuir, e a população e as empresas locais estão a ser privadas de oportunidades, num processo de exploração de reservas fósseis que pouco contribuirá para a segurança energética de Moçambique. O Banco Africano de Desenvolvimento — juntamente com todas as instituições financeiras que continuam envolvidas — deve reconsiderar a sua participação tanto no projeto Coral North FLNG como no Mozambique LNG», afirma Anabela Lemos, directora da Justiça Ambiental, em Maputo.
«A declaração dos especialistas em direitos humanos da ONU é muito clara: reconhece que as grandes empresas que assumiram o controlo das reservas de gás de Moçambique são responsáveis por um historial desastroso de violações dos direitos humanos. Esta realidade está claramente documentada no que diz respeito às actividades da Total em Cabo Delgado e ao seu projecto Moçambique LNG. Uma vez estabelecidos estes factos, o curso de acção é igualmente claro para estes especialistas: as instituições financeiras estão sujeitas a obrigações e devem recusar-se a apoiar projectos de combustíveis fósseis em Moçambique e em todo o mundo. Isto aplica-se obviamente aos bancos franceses Crédit Agricole e Société Générale, que teimosamente continuam a financiar a Total num projecto de gás que já fez demasiadas vítimas», afirma Lorette Philippot, activista da campanha de Financiamento Privado da Friends of the Earth France.
«Até mesmo os especialista em direitos humanos da ONU manifestaram se contra os novos projectos de gás em Moçambique, invocando uma longa lista de questões relacionadas com os direitos humanos. O projecto Moçambique LNG da TotalEnergies é um excelente exemplo dos desafios que tais empreendimentos enfrentam. A Siemens Energy deveria seguir o conselho dos peritos da ONU e cancelar os seus planos de fornecer turbinas a gás para este projecto desastroso», afirma Sonja Meister, activista na área da energia da Urgewald.
«A expansão do sector do gás em Moçambique está a violar os direitos humanos, a destruir a natureza intocada e a contribuir para o caos climático, num dos países mais vulneráveis às catástrofes climáticas, como demonstram as recentes e ainda em curso inundações de grandes proporções — com centenas de milhares de pessoas afectadas e deslocamentos generalizados. Os bancos comerciais, como o Standard Chartered, o Rand Merchant Bank, o Nedbank e o Absa Banks, têm o dever de cessar o financiamento de toda a expansão do gás em Moçambique, ou enfrentarão os riscos crescentes de financiar práticas comerciais prejudiciais cada vez mais bem documentadas», afirma Diogo Silva, responsável pela campanha «Bancos e Clima» da BankTrack.
«A SACE e a Cassa Depositi Prestiti decidiram confirmar o seu apoio financeiro ao projecto Mozambique LNG, apesar das graves violações dos direitos humanos associadas ao mesmo. O UBI Banca, agora controlado pelo Intesa Sanpaolo, financiou o Coral South FLNG. Todas estas instituições financeiras estão a competir para apoiar tanto o Coral North FLNG como o Rovuma LNG com capital público e privado. Apelamos a que tenham em conta o aviso dos peritos da ONU e não prestem apoio financeiro a estes projectos. Projectos que, no contexto nacional, agravariam a dependência da Itália dos combustíveis fósseis – uma escolha míope, tendo em conta as repercussões energéticas e económicas resultantes do recente encerramento do Estreito de Ormuz», afirma Simone Ogno, activista da ReCommon.
Contactos
- Daniel Ribeiro, Justiça Ambiental / daniel.ja.mz@gmail.com
- Simone Ogno, ReCommon / simoneogno@recommon.org
- Lorette Philippot, Friends of the Earth France / +33 640188284 / lorette.philippot@amisdelaterre.org
- Sonja Meister, Urgewald, sonja.meister@urgewald.org, 0049 17664608515
- Diogo Silva, BanksTrack, diogo@banktrack.org,+351 912 490 209
[2] Mozambique: Harsh economic warning from Standard Bank and Oxford Economics – By Joseph Hanlon; Poisoned Gift – Moz24h
[3] ENI non ha rivelato la reale portata delle emissioni di gas climalteranti in Mozambico, lo rivela il nuovo rapporto di ReCommon “Fiamme Nascoste”; Hidden flames: flaring at Coral South FLNG – StopMozGas
[4] Revealed: the hidden climate impact of LNG
[5] French prosecutors launch manslaughter probe against TotalEnergies over Mozambique attack[6] TotalEnergies faces criminal complaint for complicity in war crimes, torture and enforced disappearance in Mozambique






















