
O Tribunal Judicial do Distrito de Mecuburi, na província de Nampula, condenou o gerente da empresa Proma Comercial, Sinfree Jemus Simbande, a três meses de prisão, pena convertida em multa diária, por agressão física a dois jovens camponeses, num caso de disputa de terra, que envolve violência, denuncias de actos de intimidação e ameaças.
O Tribunal condenou ainda ao pagamento de valor de 10 000 mts a cada um dos ofendidos a titulo de reparação pelos danos causados. O Tribunal considerou provado que os dois jovens foram agredidos com recurso a chamboco, após terem sido detidos por seguranças a serviço da empresa Proma Comercial.
Os factos ocorreram no dia 06 de Julho de 2025, na comunidade de Namariessa, distrito de Ribaué, quando os dois jovens camponeses se deslocaram a machamba de um familiar para colher mandioca. Após concluírem a actividade, no regresso a casa, mas foram interceptados por dois seguranças da empresa, que efectuaram disparos para o ar antes de os abordar.
Tal como referiram em Tribunal, os jovens explicaram que estavam na machamba de um familiar a colher mandioca, mas os seguranças recusaram-se a ouvir e alegaram que aquela zona pertencia à empresa.
Os jovens camponeses foram conduzidos sob ameaça até às instalações da Proma Comercial, onde permaneceram sob custódia dos seguranças, na presença do gerente e do proprietário da empresa. Durante esse período, foram obrigados a deslocar-se de cócoras desde a machamba até ao interior do recinto da empresa, numa acção descrita como punição.
Já no local, os dois jovens camponeses foram submetidos a agressões físicas, tendo recebido 40 golpes de chamboco nas nádegas, sendo 20 para cada um, conforme descrito no processo.
Após as agressões, o gerente da empresa contactou a polícia com o objectivo de encaminhar os jovens camponeses para a esquadra, alegando invasão de propriedade. No entanto, ao chegar ao local, os agentes da polícia depararam se com as vítimas em estado debilitado, com dificuldades de locomoção devido às agressões sofridas, e perante a situação os agentes da Policia encaminharam nos para uma unidade sanitária daquele ponto da província de Nampula, onde receberam tratamento médico. Os relatórios clínicos confirmaram a existência de traumatismos resultantes das agressões, tendo as vítimas seguido tratamento durante sete dias.
Durante o julgamento, o arguido negou ter participado nas agressões, afirmando que apenas solicitou a intervenção da polícia para lidar com a situação. No entanto, o Tribunal considerou que os elementos de prova, incluindo depoimentos e exames médicos, eram suficientes para estabelecer a responsabilidade do gerente. Com base nesses elementos, o tribunal concluiu pela prática do crime de ofensas corporais e aplicou a pena correspondente.
A Justiça Ambiental acompanha a situação da comunidade de Namariessa desde 2021, a pedido da comunidade inicialmente devido ao processo de acesso a terra, que desde o inicio a comunidade contesta sem qualquer sucesso. A inação e o descaso por parte das autoridades governamentais, e o avanço do processo de aquisição de terra ignorando as queixas e reclamações dos detentores de direitos sobre a terra só tem agravado os conflitos entre a comunidade e a empresa. Enquanto o governo local ignora as queixas e reclamações da comunidade a empresa vai expandindo e estabelecendo a sua infraestrutura, o que agrava os conflitos e a insatisfação.
Para além do presente processo, a empresa Proma Comercial enfrenta actualmente outros dois casos, um relacionado com o processo de aquisição de terra e as queixas da comunidade sobre a usurpação das suas terras, em que mais de 80 famílias afirmam ter sido afastadas das suas terras, apesar de possuírem o Direito de Uso e Aproveitamento de Terra (DUAT) e outro por agressão física a um camponês numa situação bastante similar a dos dois jovens camponeses aqui retratada. É evidente que a péssima relação entre os membros da comunidade e a empresa, e tem sido reportada.
Apos o julgamento, ainda no Tribunal o proprietário da empresa dirigiu-se à equipa da Justiça Ambiental, acusando-a de interferir na relação entre a empresa e a comunidade, agitando a comunidade contra a empresa, tendo inclusive afirmado que poderá tomar medidas contra os membros da equipe da JA! por esta estar a colocar em questão a suposta confiança dos membros da comunidade na sua empresa. O mesmo indicou ainda que poderá inclusive recorrer à contratação de trabalhadores de outras áreas, justificando a decisão com dificuldades de relacionamento com a população local. As declarações do mesmo foram feitas na presença de membros da comunidade, que acompanham o caso e mantêm reivindicações relacionadas com o acesso à terra.
A comunidade de Namariessa continua a exigir a devolução das áreas que considera terem sido ocupadas pela empresa sem o seu consentimento e consenso. A JA! continua a apoiar a comunidade e a seguir a situação independentemente da tentativa de intimidação.
Para mais informações sobre a questão:
https://justica-ambiental.org/?s=Namariessa
https://justica-ambiental.org/?s=Proma


























