
Há espaços que são eventos. E há espaços que, com o tempo, se transformam em processos políticos. O Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos, organizado pela Justiça Ambiental JA!, pertence à segunda categoria.
Ao chegar à sua 10.ª edição, o Workshop não celebra apenas uma data. Celebra uma década de resistência, de construção colectiva, de produção de conhecimento e de fortalecimento de um movimento que tem procurado confrontar uma das estruturas mais poderosas do nosso tempo: o poder corporativo e a impunidade que o caracteriza.
Durante dez anos, este espaço tem reunido comunidades afectadas, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, académicos, advogados, jornalistas, artistas e activistas de diferentes partes de África e do mundo. O que nos une não é apenas a preocupação com casos concretos de violações de direitos humanos. É a compreensão de que, por detrás de cada caso, existem estruturas económicas, políticas e jurídicas que permitem que a exploração continue.
Como afirmou Anabela Lemos, Directora da Justiça Ambiental JA!:
“Este ano comemoramos com muito orgulho 10 anos do Workshop sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos. São 10 anos de resistência, no fortalecimento do nosso movimento, para que todos tenhamos os mesmos direitos: o direito a um ambiente saudável, o direito à educação, à saúde, a uma vida digna, aos nossos territórios e culturas e aos nossos bens comuns.
Hoje lutamos contra a usurpação dos nossos territórios, contra as graves violações de direitos humanos por parte das companhias que estão a explorar os nossos recursos, como a ENI, Total, EDF, Portucel e Jindal, para mencionar algumas, mas também por parte do Estado, que tem o dever e a obrigação de proteger e defender o povo Moçambicano.
Lutamos para mudar este modelo chamado de desenvolvimento, que já demonstrou claramente que só está a agravar a pobreza, a desigualdade e a violação de direitos, a violência, a militarização e a destruição ambiental no nosso país.
Lutamos para que todos os moçambicanos e moçambicanas conheçam os seus direitos e se organizem cada vez mais para exigir um país de todos e para todos, onde a vida vale mais que o lucro. Um país em paz, livre de guerras, assassinatos e insurgências.”
Esta declaração sintetiza o percurso e a razão de existência do Workshop de Maputo.
Dez anos depois, o que mudou?
A primeira resposta seria desconfortável: muitas das estruturas contra as quais lutamos continuam presentes. As comunidades continuam a ser deslocadas à força em nome de projectos de “desenvolvimento”. Os recursos naturais continuam a ser apropriados por grandes empresas. O Estado continua, em muitos casos, a apresentar o investimento estrangeiro como solução mágica para problemas que são, em grande medida, produzidos pelo próprio modelo económico. O nosso sistema judiciário continua a vergar-se perante o grande capital – e a recusar-se a responsabilizar as elites políticas que o apadrinham. A exploração de gás, carvão, minerais, florestas e terras continua a ser acompanhada por conflitos, reassentamentos, perda de meios de subsistência, destruição ambiental e militarização.
Em muitos casos, o desenvolvimento continua a ser medido pelo volume de investimento, pelo crescimento económico ou pela entrada de divisas, enquanto as condições concretas de vida das comunidades continuam na mesma – ou até piores.
Mas há algo que mudou. Mudou a capacidade de nomear os problemas, de ligar diferentes lutas. Mudou a compreensão de que o que acontece numa comunidade afectada por uma mina, por uma barragem ou por um projecto de gás não é um acidente isolado, mas parte de um sistema desenhado para isso. E mudou, sobretudo, a capacidade de construir solidariedade e de exigir mudanças sistémicas.
É neste espaço que uma comunidade de Moçambique pode dialogar com uma comunidade do Quénia, do Eswatini, da África do Sul, do Mali ou do Brasil. É neste espaço que uma luta local pode ser compreendida como parte de uma disputa global sobre terra, recursos naturais, energia, clima e poder.
Da denúncia dos casos à compreensão do sistema
Uma das maiores contribuições do Workshop de Maputo tem sido precisamente esta: elevar a discussão da denúncia isolada para a análise das estruturas.
O primeiro dia da 10.ª edição procurou compreender o sistema que produz a impunidade. O capitalismo, o racismo, o patriarcado, a xenofobia e a afrofobia foram analisados não como fenómenos separados, mas como sistemas de opressão que se reforçam mutuamente.
A pergunta deixou de ser apenas: quem violou este direito?
Passou a ser também: que sistema permite que esta violação aconteça, se repita e permaneça impune?
Esta mudança é fundamental. Porque responsabilizar uma empresa transnacional por uma violação concreta é urgente e necessário. Mas não é suficiente se o sistema continua a produzir novas empresas, novos projectos e novas violações.
O “desenvolvimento” que produz dependência
No segundo dia, o debate centrou-se na economia política da dependência.
Dez anos de Workshop demonstraram que não é possível discutir o poder das grandes empresas sem discutir dívida, colonialismo, investimento estrangeiro, tratados internacionais e cadeias globais de produção.
África continua a ser integrada na economia global sobretudo como fornecedora de matérias-primas, energia e mão-de-obra barata. Ao mesmo tempo, permanece dependente da importação de tecnologia, produtos acabados e financiamento. Este modelo é apresentado como desenvolvimento.
Mas um modelo que deixa os países endividados, dependentes e vulneráveis, enquanto os recursos geram lucros lá para fora e pobreza e violência aqui dentro, precisa de ser questionado. O Workshop tem sido um espaço para fazer precisamente essa pergunta: desenvolvimento para quem?
O Estado entre a obrigação e a captura
Outro eixo fundamental do Workshop tem sido a relação entre o Estado e as empresas.
O Estado tem a obrigação de proteger os direitos humanos e o ambiente. Contudo, em muitos contextos, as instituições públicas acabam por proteger os investimentos antes de proteger as pessoas. É neste espaço que surge a captura corporativa.
Quando as empresas influenciam políticas públicas, leis e decisões institucionais; quando tratados de investimento limitam a capacidade legislativa dos Estados; quando comunidades são consultadas apenas depois de as decisões já terem sido tomadas; quando activistas e jornalistas são perseguidos por denunciar violações, torna-se necessário perguntar se o Estado continua a actuar como garante do interesse público.
A frase proferida no quarto painel resume esta realidade:
“O povo não tem que saber do projecto quando o tractor já está lá.”
Não se trata apenas de uma questão de procedimento. Trata-se de poder e auto-determinação.
Quem decide sobre a terra? Quem decide sobre os recursos? Quem define o que é desenvolvimento? Quem paga os custos quando os projectos falham?
Estas são questões centrais para qualquer debate sério sobre soberania.
A crise climática e a necessidade de uma transição justa
A crise climática tornou ainda mais urgente a necessidade de questionar o modelo económico dominante. Existe uma disfunção no sistema climático global – o excesso de gases de efeito de estufa na atmosfera, provocado principalmente pela combustão de combustíveis fósseis. As comunidades costeiras e rurais já enfrentam cheias, secas, ciclones, perda de colheitas e destruição dos seus meios de subsistência. No entanto, são frequentemente as populações que menos contribuíram para a crise climática que suportam os seus impactos mais graves.
Ao mesmo tempo, a chamada transição energética corre o risco de reproduzir os mesmos padrões de exploração.
Se a transição para energias renováveis depender de novas corridas aos minerais, de apropriação de terras e de deslocamentos comunitários, estaremos simplesmente a substituir um modelo extractivista por outro.
Uma transição justa não pode significar apenas trocar combustíveis fósseis por novas fontes de energia. Deve significar democratizar a energia, proteger as comunidades, respeitar os direitos humanos e garantir que as futuras gerações tenham um planeta habitável.
Um espaço que também constrói movimento
O impacto do Workshop não pode ser medido apenas pelo número de painéis realizados ou de participantes presentes. O seu verdadeiro impacto está nas relações que constrói. Está na comunidade que encontra apoio para continuar a sua luta, no activista que percebe que a sua luta não é isolada, no jornalista que encontra solidariedade para continuar a investigar, no advogado que transforma uma denúncia numa estratégia jurídica, no académico que coloca o seu conhecimento ao serviço das comunidades, na organização que encontra parceiros para uma campanha.
É esta rede que torna o Workshop mais do que um evento.
Como foi destacado na sessão de encerramento, ao longo dos últimos dez anos — e construindo sobre muitos outros anos de compromisso da Justiça Ambiental — comunidades afectadas, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, académicos, especialistas, advogados e artistas têm trabalhado em conjunto para fortalecer o movimento contra o poder e a impunidade corporativa no continente.
O Workshop de Maputo tem permitido aprofundar uma análise sistémica das múltiplas crises que atravessam África e compreender também a sua dimensão global. A resposta, por isso, não pode ser apenas nacional, é necessário construir solidariedade regional, continental e internacional.
Uma solidariedade panafricanista, capaz de reconhecer que a luta de uma comunidade contra uma barragem, uma mina ou um projecto de gás está ligada às lutas de outros povos contra o mesmo sistema de exploração.
Dez anos depois, a luta continua
O 10.º Workshop não terminou apenas com palavras, terminou com compromissos.
Os participantes reafirmaram a responsabilidade de levar as discussões para as suas comunidades, organizações e movimentos. Reafirmaram a importância de continuar a denunciar injustiças e crimes corporativos. Reafirmaram a urgência de um tratado vinculativo das Nações Unidas para regular as empresas transnacionais, que seja forte e efectivo. Reafirmaram a centralidade da luta pela autodeterminação dos povos Saharaui e Palestino. Reafirmaram o seu compromisso com a Declaração de Maputo contra Impunidade Corporativa e por Direitos Humanos e Justiça Climática, adoptada em Agosto de 2024.
E reafirmaram algo ainda mais fundamental: a solidariedade activa e radical com todos aqueles que são intimidados, pressionados, presos ou assassinados por resistirem ao poder das grandes empresas transnacionais e do sistema capitalista global.
Dez anos depois, a importância deste espaço está precisamente na sua capacidade de resistir à fragmentação.
Porque, apesar dos muitos anos de resistência, as estruturas contra as quais lutamos continuam fortes. As empresas continuam poderosas, os Estados continuam vulneráveis à captura, as comunidades continuam ameaçadas, os defensores de direitos continuam a ser perseguidos e o modelo económico continua a colocar o lucro acima da vida.
Mas também há várias coisas que continuam a crescer: a capacidade dos povos e comunidades afectadas de se organizarem e mobilizarem por um sistema mais justo. A constatação de que a terra e a dignidade não têm preço. A certeza de que nenhum projecto de desenvolvimento pode ser considerado legítimo quando implica na criação de zonas de sacrifício. E a consciência de que, tal como outros sistemas de opressão já foram desmantelados no passado através da mobilização e reivindicação popular, estes que nos oprimem actualmente também o serão.
O Workshop de Maputo seguirá consolidando-se como um espaço construído colectivamente, por movimentos sociais, organizações e indivíduos comprometidos do continente Africano, rumo a estes objectivos. A luta continua, por justiça, direitos e soberania, até que todos e todas sejamos livres!
















