Pedagogia

Há tempos, com o prato de sopa a meio, um dos meus filhos disse-me à mesa que já estava de barriga cheia. Achei piada ao mfana. Com apenas dois anos explicou-se tão bem que me desarmou e, como tal, deixei-o sair da mesa. Permiti-o, primeiro, porque como nunca me havia dito tal coisa, achei por bem dar-lhe o benefício da dúvida; e segundo, porque felizmente comer nunca foi problema para os meus filhos e, como tal, era plausível que estivesse realmente empanturrado. Ainda assim, adivinhando já a consequência da minha cedência, adverti-o antes de o deixar levantar-se que tão cedo não voltaria a permitir que saísse da mesa sem acabar o que tinha no prato. Obviamente, de nada serviu, e como que convencido que descobrira autêntica kryptonite, no dia seguinte tentou repetir a proeza. Logicamente, “desconseguiu”. Fez cara feia, mas ciente que não havia campo para debate, segurou a pressa de brincar e “limpou” o prato num piscar de olhos.

Ambos aprendemos algo com este episódio.

 

Numa história em quase tudo idêntica, há já muito tempo e depois de inúmeras denúncias populares, a Mozal foi apanhada a poluir descaradamente o ambiente, fazendo bypasses aos seus sistemas de filtragem de fumos e gases (bypasses que, aliás, – face às constantes denúncias que nos chegam até hoje – cremos que continuam a decorrer de forma sistemática). Nessa primeira instância, o governo pediu à Mozal que não voltasse a fazê-lo mas mostrou-se demasiadamente compreensivo; a benevolência foi tal que, a segunda infracção – um bypass de mais de 4 meses que permitiu à empresa continuar a operar sem qualquer filtragem quando o lógico seria que encerrasse para manutenção – teve até direito a surpreendente prévio aviso e voltou a contar com a inexplicável compreensão das entidades competentes.

 

(Por outras palavras:

– Papá, só para que saibas, durante os próximos quatro meses não vou comer a sopa.

– Está bem filho.)

 

A última borrada da Mozal ocorreu há cerca de 15 dias. Desta feita, surgiu nas redes sociais um vídeo de um flagrante despejo de um qualquer resíduo directamente na baía de Maputo. A empresa justificou-se prontamente perante as entidades competentes, culpando o seu staff de não seguir os procedimentos estabelecidos e garantindo que medidas serão tomadas para que não se repita.

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Tudo indica que o governo vai voltar a ser “porreiro” e a deixar mais esta escorregadela passar impune.

Com esta história, só a Mozal (e as outras empresas com comportamento idêntico) é que aprenderam algo. Aprenderam que podem fazer do governo “gato sapato”.

O governo, na melhor das hipóteses e ao que tudo indica, não aprendeu nada. Rigorosamente nada.

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