A luta continua em Matutuíne

Já passam 18 dias desde que o jovem Leonardo Mpasso, menor de idade, da comunidade de Mudada, foi levado por militares, no contexto das manifestações realizadas no distrito de Matutuíne no dia 29 de Janeiro. Explicámos esta história num artigo recente, denunciando a detenção e tortura de cidadãos que se manifestavam para pressionar a polícia a devolver Leonardo à sua família. 

Nos últimos três dias, 13, 14 e 15 de Fevereiro, as comunidades de Mudada, Mudissa e Mabilibili concentraram-se junto à linha férrea por volta das 08h, provocando a paralisação da circulação das máquinas e camiões da mineradora que extraem e transportam o calcário para a fábrica. Exigiam, uma vez mais, a restituição de seus direitos violados pela fábrica Dugongo Cimentos. A Justiça Ambiental tem vindo a trabalhar com as famílias afectadas há vários anos e acompanhamos de perto a sua luta, as ilegalidades perpetradas pela Dugongo, e a impunidade com que tem sido premiada, em detrimento das famílias locais, dos trabalhadores, e do ambiente de toda a região. Estas manifestações tiveram também um importante objectivo: reiterar a mensagem clara que, apesar das intimidações, perseguições, detenções e torturas que alguns membros têm vindo a sofrer nos últimos meses, e todos os abusos e violações causadas pela polícia, militares, a UIR e o governo, a luta continua até que justiça seja alcançada.

“Vocês já estragaram as nossas terras com as escavações que fizeram para extrair o calcário e já não reúnem condições de ser habitadas, nem para praticar agricultura. A zona onde nos reassentaram também não reúne condições. Exigimos indemnização, exigimos outra área para nós habitarmos, praticar agricultura. E desta vez, nós, a população afectada, é que vamos controlar as obras. Estamos cansados de viver como cães”. —- Manifestante no dia 13 de Fevereiro

A meio da manhã do dia 13, a UIR chegou ao local a pedir à população que retornassem às suas casas, e propondo que a própria UIR fosse negociar com a empresa. A população naturalmente rejeitou esta proposta. Representantes da empresa também vieram negociar com a população, mas não se chegou a nenhum consenso. A via ficou paralisada durante os três dias. Até que as questões pendentes estejam resolvidas – incluindo a atribuição de terras para machamba, de forma a compensar as terras usurpadas pela Dugongo, indemnização pelos danos causados, a atribuição de novos espaços para construção de habitações, emprego para os jovens locais, e claro, informações sobre o paradeiro do jovem Leonardo – prometem que continuarão a exercer o seu direito constitucional à manifestação. No final do dia 15, sábado, ficou acordado que haverá uma reunião entre as comunidades afectadas e a Dungongo no próximo dia 19 de Fevereiro.

A resiliência do povo de Matutuíne deveria inspirar-nos a todos e lembrar aos nossos governantes: quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se uma obrigacão. Estamos com o povo de Matutuíne na luta pelos seus direitos, violados sistematicamente pela Dugongo Cimentos.

1 Tortura, coacção e esquizofrenia geográfica: o caso da detenção de três cidadãos manifestantes de Matutuíne: https://justica-ambiental.org/2025/02/12/tortura-coaccao-e-esquizofrenia-geografica-o-caso-da-detencao-de-tres-cidadaos-manifestantes-de-matutuine/

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