COMUNIDADES DE HAMELA E MUGULAMA EXIGEM DIVÓRCIO À PORTUCEL  

Por: JA, Missão Tabita e AJOCME

No passado dia 8/04/2025, houve um encontro na Comunidade de Hamela, posto Administrativo de Ile Sede, convocado pelo líder de Hamela a pedido da empresa Portucel.  No encontro estiveram presentes uma equipe da Portucel, composta pelos senhores Pereira, Chico, Quembo, o filho do Sr. Raul e uma senhora, 1 representante da empresa chinesa Mumu Madeira e membros da comunidade. O Líder de Hamela, apesar de ter convocado o encontro não participou no mesmo pois tinha outra agenda no mesmo dia. A equipe da Portucel informou que pretende dar início ao corte do eucalipto para venda à empresa chinesa Mumu Madeira. Por sua vez, o representante da empresa Mumu Madeira explicou que só vão iniciar o corte do eucalipto após acordo com a comunidade e a cerimónia tradicional, ao que pediu aos membros da comunidade para listar as necessidades para a realização da cerimónia. A comunidade concordou e propôs uma lista de produtos. 

De seguida, alguns membros da comunidade aproveitaram a oportunidade para questionar sobre as promessas feitas pela Portucel à sua chegada a comunidade e que até ao momento nada foi feito. O Sr. Quembo respondeu que a Portucel não vai indemnizar as famílias afetadas antes de explorar o eucalipto, ou seja, não vai realizar as promessas feitas pois ainda estão a investir e ainda nem venderam o eucalipto, explicou ainda que a empresa também apoiou o distrito na construção de um bloco operatório. A sua resposta não agradou a comunidade, que afirmou que assim que for cortado o eucalipto vai retomar as suas terras, e que não querem mais a Portucel na sua área. Os membros da comunidade informaram ainda que se até ao dia 5 de Maio a Portucel não trouxer respostas concretas a todas as promessas feitas, esse será o dia da assinatura do divórcio entre a comunidade e a Portucel, acrescentando que a empresa não é responsável pela construção de hospital, essa é responsabilidade do governo, mas a empresa é responsável por cumprir todas as promessas que fez quando chegou à comunidade a pedir terras, e por causa dessas promessas a comunidade cedeu as suas terras. 

A decisão da comunidade provocou desentendimento entre os representantes da Portucel e a comunidade, e a equipe da Portucel saiu muito frustrada do encontro. Mas antes de sair, um dos representantes da Portucel registou o nome de 5 pessoas influentes da comunidade, que levantaram as suas questões e demonstraram a insatisfação da comunidade com a empresa, lembrando inclusive as muitas promessas feitas e em nada cumpridas. O registo dos seus nomes levantou preocupação em toda a comunidade e em particular nas famílias destas pessoas, que se questionavam o que a empresa pretende fazer com os nomes recolhidos. Enquanto isso, o senhor Cezar João Coroma agente de Ligação da Portucel, ameaçou membros da comunidade, afirmando que quem falar mal da Portucel e a ameaçar retomar as suas terras, vai ser preso.

O representante da empresa MUMU MADEIRA, por ver a situação, explicou que a empresa Mumu Madeira é apenas o cliente que pretende comprar os eucaliptos, pelo que não estão envolvidos no conflito. O mesmo prometeu ainda que irá empregar os membros da comunidade para o trabalho de corte dos eucaliptos, e propôs o pagamento de 400 mts por dia, num contrato de 1 mês em que o pagamento será feito a cada 15 dias, o trabalho será rotativo para permitir que todos da comunidade possam ter a oportunidade de ganhar algum valor. Apesar do encontro ter terminado em conflito com a Portucel, a comunidade concordou com a proposta do representante da empresa Mumu Madeira. 

O líder da Comunidade ficou preocupado com a informação que os membros da comunidade transmitiram sobre o encontro, por essa razão solicitou um encontro com a comunidade na presença da chefe da localidade, que por sua vez veio acompanhada pelo chefe do posto.  


O encontro solicitado pelo líder da comunidade teve lugar na sexta feira dia 11 de abril,  e nesta ocasião o chefe do posto tentou sem sucesso manipular a comunidade, tentando convence-los que a relação com a empresa era boa e que a mesma trazia benefícios, mas a comunidade contrariou-o e referiram as várias promessas feitas pela Portucel que nunca foram cumpridas, como a construção de escola, de hospital, a  abertura de furos de água, o melhoramento de vias de acesso e que as suas vidas iam melhorar, referiram ainda que na reunião do dia 8, a Portucel mobilizou-se para intimidar a comunidade a aceitar o replantio, ameaçaram a comunidade. Os membros da comunidade afirmaram perante o Chefe do Posto e a Chefe da Localidade que não querem mais a Portucel na sua área, que vão retomar as suas terras assim que forem cortados os eucaliptos e que acabaram as negociações com a Portucel. 

O chefe do posto pediu à comunidade para deixar as empresas trabalhar, deixar a Portucel e a Mumu Madeira cortar o eucalipto e continuar a trabalhar. 

A comunidade manteve-se firme, assim que for cortado o eucalipto pretendem retomar as suas terras e já não há espaço para negociação. 

“A comunidade de Hamela decreta tolerância Zero ao Eucalipto” 

O chefe do Posto prometeu apresentar todas as preocupações à Portucel. 


Devolvam as nossas terras!!!

O breve texto que se segue, é apenas um dos muitos exemplos dos desafios que as comunidades rurais e em particular as mulheres camponesas enfrentam, a usurpação de terra às comunidades para dar lugar aos grandes projectos tem exacerbado a situação vulnerável destas mulheres, que como é sabido dependem directamente da terra. Apesar disso, terra fértil continua a ser usurpada de comunidades rurais. 

A Portucel entrou em Moçambique carregada de promessas de vida melhor, os discursos floreados ao longo do processo de terras conseguiram enganar muitas comunidades, que chegaram a acreditar que realmente iam ter um bom emprego e a sua vida e dos seus iria melhorar. No entanto, após quase 14 anos de Portucel em Moçambique, basta uma visita as comunidades afectadas para qualquer um perceber que as plantações industriais não vão jamais melhorar a condição de vida das comunidades rurais, não é possível arrancar a terra de que dependem completamente e esperar que um emprego sazonal e mal pago para meia dúzia de pessoas na comunidade tenha algum impacto visível na vida da comunidade… o único erro destas comunidades foi ter acreditado! 

Hoje, as comunidades afectadas já perceberam que nada vai melhorar, foram enganados e já não querem mais a Portucel nas suas áreas. Em Dezembro de 2024, quando a Portucel iniciou o corte dos eucaliptos, duas mulheres camponeses viram finalmente as suas terras livres de eucalipto e decidiram retomar as suas áreas. Prepararam uma pequena parcela e lançaram milho e feijão bóer. Muito rapidamente um dos agentes de ligação da Portucel, o senhor Nacope soube do sucedido e foi ameaça-las, tendo inclusive alertado os seus chefes. As duas mulheres camponesas foram interrogadas várias vezes, foram ameaçadas e proibidas de voltar à machamba onde haviam plantado milho e feijão bóer, porque segundo a Portucel a terra pertence à Portucel, que tem o DUAT. Ficou claro para ambas, que se voltarem às suas machambas serão presas e por medo não voltaram mais. Várias outras famílias, tiveram a mesma vontade, de retomar as suas áreas, pois pensaram que já que a Portucel não cumpriu com o prometido, e já cortou o seu eucalipto, então as terras serão retomadas pelos seus legítimos donos, mas todos recuaram ao saber do sucedido com as duas mulheres. Todos ficaram com medo. Mas não restam dúvidas que os membros da comunidade já não querem os eucaliptos nas suas terras, já se aperceberam que nada na sua vida vai melhorar, mas o medo de ser preso, ameaçado, torturado ou morto ainda é maior do que a revolta. 

Na nossa visita, em conversa com as duas mulheres vimos e sentimos as lágrimas que tentavam esconder, mas teimavam escorrer… 

Em várias comunidades por onde passamos, a mensagem é a mesma, queremos nossa terra de volta, a Portucel pode ir embora com os eucaliptos deles.  

A Luta Continua! 

Portucel chegou a hora de se retirarem! Adeus, até nunca mais! 

Leave a Reply

Discover more from Ja4Change

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading