
A fábrica que mais polui em França está a utilizar mais carvão do que nunca. Em Agosto de 2025, a ArcelorMittal Dunquerque recebeu vários milhares de toneladas de carvão provenientes de uma mina extremamente tóxica em Moçambique. Alguns residentes da cidade de Moatize têm estado expostos a grave poluição atmosférica e viram as suas casas destruídas por explosões, como revela uma investigação realizada pela Disclose e pela Socialter.
A 21 de Agosto de 2025, um intruso cortou as ondas ao largo de Dunquerque (norte da França). À vista dos banhistas que desfrutavam da praia, o cargueiro de 230 metros de comprimento dirigiu-se para o cais de Malo. Nos seus porões, uma pilha de carvão, o combustível fóssil mais poluente. O navio tinha como destino o complexo siderúrgico da ArcelorMittal, situado nos arredores da cidade. Lá, o carvão é misturado com minério de ferro para produzir enormes quantidades de aço: 15 toneladas por dia, ou o dobro do peso da Torre Eiffel. Um processo extremamente tóxico. A fábrica produz 12 milhões de toneladas de CO2 por ano. Isso representa 15% dos gases de efeito estufa emitidos pela indústria francesa.
A multinacional recebeu pelo menos 244 milhões de euros de ajuda pública [mais de 282 milhões de dólares] desde 2021 para reduzir o seu impacto ambiental e produzir aço mais limpo. Em Dunquerque, a ArcelorMittal comprometeu-se inicialmente a substituir parte do seu carvão por hidrogénio e a construir dois fornos eléctricos até 2027 para substituir os seus altos-fornos. Depois, recuou. O projecto, adiado para 2029, prevê agora apenas um forno em vez de dois. O plano de utilizar hidrogénio foi abandonado.
Enquanto o grupo industrial não se tornar verdadeiramente ecológico, continuará a considerar o carvão como uma matéria-prima estratégica e opaca – a sua proveniência não é mencionada em nenhum dos documentos que a empresa tornou públicos.
A Disclose, em parceria com o órgão de comunicação francês Socialter, rastreou a cadeia de fornecimento da ArcelorMittal. O navio de carga que atracou em Dunquerque em Agosto de 2025 transportava 79.000 toneladas de carvão provenientes do porto de Nacala, em Moçambique, de acordo com dados exclusivos produzidos pela empresa francesa de inteligência de commodities Kpler e partilhados pela ONG Aria. Parte da carga foi descarregada em Dunquerque antes de o navio prosseguir para a Alemanha e a Polónia. O carvão é extraído de uma mina a céu aberto extremamente tóxica em Moatize, no centro de Moçambique. Os seus 40.000 residentes respiram, bebem e comem poeira que os está a envenenar, conforme descobrimos quando investigámos no local.
Carvão nos pulmões
A mina engoliu a cidade de Moatize. As suas pequenas casas com telhados de zinco costumavam estar rodeadas por colinas salpicadas de arbustos. Agora, trincheiras negras semelhantes a fossos, com dezenas de metros de profundidade, rodeiam a cidade nos lados oeste e leste. São as cicatrizes de uma exploração mineira desenfreada numa das maiores reservas de carvão do mundo. Doze milhões de toneladas de carvão são extraídas anualmente pela Vulcan Minerals, parceira da ArcelorMittal e subsidiária da gigante mineira indiana Jindal Steel.
Desde que a mina começou a operar em 2011, quase não há um dia que passe sem que fumo negro cubra a cidade com um espesso véu de poeira. Este fumo transporta poluentes que penetram profundamente no corpo das pessoas, nos seus pulmões, conforme revelado por análises exclusivas da associação moçambicana Justiça Ambiental, a que a Disclose e a Socialter tiveram acesso. Entre Setembro e Outubro de 2024, os monitores de qualidade do ar instalados em três distritos de Moatize mediram concentrações alarmantes de partículas finas (PM10): até 340 μg/m³ (microgramas por metro cúbico) perto de um motel, ou seja, sete vezes o limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Comparativamente, o ar próximo da fábrica da ArcelorMittal em Dunquerque continha até 64 μg/m³ de partículas finas no mesmo período.
As emissões da mina também contêm poeiras de metais que podem ser perigosos para a população local. Por exemplo, os níveis de zinco são quase 20 vezes superiores aos limites recomendados na vizinha África do Sul para zonas residenciais — em Moçambique, não foi ainda definida qualquer norma. Os níveis de vanádio e manganês são 12 e 7 vezes superiores, respectivamente, a esses limites. “Isto é extremamente preocupante”, afirma Rico Euripidou, epidemiologista e coordenador de campanha na ONG sul-africana groundWork. “Está cientificamente comprovado que estas substâncias [vanádio e manganês] são muito tóxicas e causam cancro.”
Uma vez que o único hospital em Moatize é financiado pela Vulcan Minerals, os médicos não concedem entrevistas sobre o impacto da poluição na saúde. Um funcionário anónimo do hospital na cidade vizinha de Tete, citado num meio de comunicação local em Fevereiro de 2022, dá-nos uma ideia de quão grave é a situação na região: “Todos os dias, aqui no hospital, recebemos um número cada vez maior de pessoas com tuberculose. Acreditamos que isto se deve à poluição.”
Muitos estudos científicos estabeleceram a ligação clara entre a tuberculose e a mineração de carvão na África Subsaariana. No Malawi, país que faz fronteira com Moçambique, um estudo revelou, em 2020, que os mineiros de carvão tinham 10 a 15 vezes mais probabilidades de contrair tuberculose do que o resto da população. Os residentes de Moatize estão particularmente em risco, dado que a cidade e a mina se fundiram numa só entidade.
“Tive muitos problemas de saúde, incluindo tuberculose”, disse Isabel Graça Correia, de 43 anos, à Disclose. Mudou-se para Moatize em 2007, um ano antes do início dos trabalhos na mina, e instalou-se no bairro da Liberdade, perto do complexo mineiro. “Estava grávida de cinco meses em 2010 e tive de fazer uma interrupção da gravidez porque [a tuberculose] estava a impedir o desenvolvimento do meu bebé. Não consegui engravidar novamente. Vivemos em circunstâncias desastrosas.”

Rocha incandescente atinge casa
As emissões da mina não poluem apenas o ar em Moatize, mas também os rios e as águas subterrâneas, conforme demonstrado por um estudo publicado em fevereiro na revista Environmental Geochemistry and Health. Os cientistas encontraram altas concentrações de metais, incluindo cobre e selénio, em 30 amostras de água da área em torno de Moatize. Identificaram “riscos significativos para a saúde associados ao consumo de águas subterrâneas, em particular […] para as crianças», incluindo danos no fígado e nos rins, distúrbios neurológicos e queda de cabelo.
As partículas de carvão também contaminam o solo e os alimentos. “Olha para mim, estou coberto de poeira”, diz Marcos Xadreque Chabluca, que cultiva nas margens do rio Moatize. “A poeira chega até aos meus campos de cultivo. Só andei a capinar e estou coberto de pó da cabeça aos pés.” O agricultor diz que já não reconhece as suas culturas. “Costumava cultivar todo o tipo de vegetais aqui, incluindo milho, feijão e abóboras, mas já nada cresce mais. Perdi dois hectares de produção este ano e não consegui semear por causa do carvão”, diz ele. O milho, um alimento básico em Moçambique, é usado para fazer xima, um prato tradicional, mas o pó de carvão também entra na comida. “Já não podemos fazer a nossa farinha de milho ao ar livre, pois acabamos por ingerir pó de carvão.”

A mineração também tem impacto nas casas. A Vulcan Minerals leva o negócio a sério e, para extrair o carvão vendido a preços elevados à ArcelorMittal, são utilizados explosivos. Félix Filipe Mainato mostrou-nos as paredes rachadas da sua casa. “Esta casa foi construída há menos de um ano, mas as paredes já estão rachadas por causa das explosões. Há explosões duas vezes por dia, entre as 13h e as 14h. Quando acontecem, saímos para fora e ficamos lá.”
Em Janeiro, um dos seus vizinhos, Ermenegildo Bartolomeu Macie, viu a sua casa ser destruída por um projéctil proveniente da mina. “Era uma rocha incandescente. Devia pesar pelo menos cinco quilos. Havia fumo por todo o lado”, diz ele. “Podia ter sido um desastre, pois a minha mulher e a minha filha estavam a ver televisão lá dentro quando isso aconteceu.” A família teve de esperar um mês inteiro até que um engenheiro enviado pela Vulcan Minerals viesse tapar o buraco com tijolos, ignorando os outros danos sofridos pela casa.

A ArcelorMittal não vai parar de usar carvão
O grupo ArcelorMittal não pode não estar ciente de que o seu fornecedor está a pôr em risco a saúde da população local. O pesadelo de Moatize está bem documentado, incluindo pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. A Vulcan Minerals não respondeu ao pedido de comentário enviado pela Disclose e pela Socialter. A ArcelorMittal afirma que “os requisitos de devida diligência foram cumpridos pelo [seu] fornecedor». Desafiando os factos, o grupo siderúrgico afirma que “com base na avaliação mais recente, não foram identificados riscos materiais, sinais de alerta nem observações desfavoráveis”.
De acordo com a lei francesa sobre o dever de vigilância, a multinacional é obrigada a “prevenir graves violações dos direitos humanos […] e danos graves à saúde e segurança das pessoas e do seu ambiente […] decorrentes das atividades de subcontratados e fornecedores com quem mantém uma relação comercial”. Para a ArcelorMittal, parece que a dependência do carvão continua a dar frutos: a empresa registou um lucro de 3,15 mil milhões de dólares (2,73 mil milhões de euros) no ano passado.
Esta investigação também foi publicada na edição n.º 75 da revista Socialter. Contou com o apoio da fundação Sunrise Project, que financiou a tradução deste artigo para inglês.
Acesse aqui a investigação original em Francês: https://disclose.ngo/en/article/arcelormittal-causes-environmental-and-health-disaster-in-mozambique
Investigação: Aïda Delpuech
Coordenação editorial: Pierre Leibovici
Editor-chefe: Mathias Destal
Editora: Élodie Emery
Verificação de factos: Rémi Labed
Pesquisa adicional: Tamanna Rahman (Aria), Erika Mendes e Manuel Chauque (Justiça Ambiental)
Tradução para português: Justiça Ambiental
Imagens: Éric Delfosse com Emidio Josine / Disclose