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O Desespero do povo de Cabo Delgado

Pouco mais de 1 semana do ataque dos insurgentes ao distrito de Palma, não param de chegar a Cidade de Pemba, população oriunda daquele distrito com semblantes de medo, tristeza e acima de tudo muitas incertezas. Apesar de estarem contabilizados até ao momento cerca de 9 mil deslocados, há informações vinda dos mesmos deslocados e não só, mas também confirmada pelo ministério da defesa nacional de que ainda existem pessoas escondidas nas matas.

Os deslocados contam como foi o dia 24 de Março, data que jamais será apagada de suas memórias. Os relatos dão conta que já circulavam boatos desde a manhã daquela quarta-feira de que os Al-Shabaab iriam atacar o distrito, facto que não foi levado em conta devido aos vários boatos postos a circular naquele distrito duas semanas antes do ataque, segundo os quais os insurgentes estavam nas matas próximos da vila preparando um ataque. Os frequentes tiroteios que já caracterizavam o dia a dia na vila de Palma, também contribuíram para que estes rumores caíssem no descrédito por parte de algumas pessoas, por outro lado, estava a confiança que depositavam nas Forças de Defesa e Segurança (FDS) de Moçambique que pareciam estar em peso em Palma.

Porém, segundo os relatos dos deslocados que viveram o ataque, por volta das 16h começou o ataque na Aldeia de Maʼguna a 800 metros da vila de Palma, quando a maior parte da população daquela Aldeia ia chegando a vila fugindo do confronto armado em Ma’guna. Desta forma, iniciaram dois tiroteios em simultâneo no bairro Quibuidi, pela via de Nhica do Rovuma e no Aeródromo de Palma.

Nessa altura toda a gente, abandonou suas casas e seus bens e corriam por suas vidas de forma descontrolada. Os insurgentes apareciam de diferentes partes, e devido ao uniforme militar idêntico ao trajado pelas nossas FDS, a única coisa que os diferencia sãos os lenços amarrados as suas cabeças e os pés descalços, notava-se claramente que a sua intenção inicial era de destruir as infra-estruturas do governo. A única área segura para fugir era para os lados da praia de Palma mas a dado momento, certos pontos da praia também tornaram-se inseguros.

Histórias comoventes e assustadoras escutam-se por parte de quem viveu aquela quarta feira de fogo e os dias subsequentes. Foram vários quilómetros caminhados a pé e debaixo de fogo, com medo, fome e sede. Mães correndo carregando seus filhos pequenos às costas, uma destas crianças não escapou a uma das balas perdidas mas por sorte esta entrou pela nádega e alojou-se na perna. Trata se do pequeno Cadir Fazil, de 1 ano e 2 meses de idade, nascido a 21 de Fevereiro de 2020.

O facto de carregar uma criança ferida fez com que na segunda-feira, dia 29 de Março, sua mãe e tia tivessem prioridade em um dos voos humanitários da ACNUR tendo sido atendida de urgência no hospital provincial de Pemba. Houve situações de desespero de homens recusando-se a entrarem nos voos e navios humanitários sem localizarem suas esposas e filhos ou algum membro de sua família, crianças implorando pela vida de seus pais e ainda assim, sendo obrigadas a testemunharem seus cruéis assassinatos. Apesar de todo este clima de terror, a diferença de classes não deixou de prevalecer entre as vitimas de Palma. No hotel Amarula, onde membros do governo e alguns estrangeiros se refugiaram aterrou por duas vezes um helicóptero, a primeira vez para levar o administrador do distrito e a segunda para levar o dono do Hotel deixando para trás as varias pessoas que tiveram como opção juntar-se a caravana que sofreu uma emboscada pelo caminho.

As matas de Quiwia e de Quirinde ainda abrigam pessoas que lutam por suas vidas por causa da fome e da sede.

Todos os dias chegavam informações pouco claras sobre os acontecimentos em Palma, uma vez que o corte nas comunicações permanece naquele distrito até aos dias de hoje, e pode ser que assim permaneça até que cesse o fogo cruzado entre os terroristas e os militares.

Após várias reclamações sobre o silêncio do Presidente da República, este aproveitou a oportunidade para pronunciar-se sobre o assunto, aquando da inauguração de uma das sedes do INSS no distrito de Matutuíne, onde fez uma breve menção ao ocorrido em Palma de uma forma simplista e minimizando o ocorrido. Do discurso que Sua Excia o Presidente da República fez, surgiram duas questões. Primeiro por ter referido que já houve ataques piores ao de Palma e que este nem foi muito intenso, as duas perguntas que não querem calar, são :

– Qual terá sido o pior ataque que ocorreu de 2017 até hoje?

– Porque razão após ter ocorrido o pior ataque medidas não foram tomadas para evitar que um novo ataque ocorresse?

Outro pronunciamento do senhor presidente que chamou atenção, foi quando se referiu de que não devemos perder o foco, que os moçambicanos não devem ficar “ atrapalhados” . Porém, chega a ser revoltante ouvir isto quando em 1 semana cerca de 9 mil pessoas são evacuadas de Palma via terrestre, aérea e marítima, muitas das quais sem saberem como viver, uma vez que abandonaram tudo o que tinham na Vila de Palma.

– Qual é o foco que estas pessoas devem ter?

– Será errado da parte destes deslocados estarem atrapalhados, depois de terem como foco somente as suas vidas?

Não podemos esquecer em até ao momento, que já existem cerca de 300 mil deslocados que vivem em centros de acolhimento de transição e em centros de reassentamento. Os primeiros deslocados desta guerra, estão sendo reassentados de forma praticamente definitiva nos distritos circunvizinhos da cidade de Pemba e agora com o ataque a Vila de Palma, chegam muitos mais, sem que ainda estejam criadas condições condignas para os deslocados de Macomia, Quissanga, Mocimboa da Praia e Muidumbe. Não nos devemos atrapalhar quando não temos respostas para as centenas de pessoas que chegam a Pemba e a outros pontos do País, vindo dos distritos atacados sem saberem sequer se poderão algum dia voltar?

Será que devemos ficar impávidos e serenos diante dos massacres que temos estado a viver desde 2017?

Então, Sr. presidente desde 2017 que estamos atrapalhados, desde 2017 que chamamos e apelamos para o fim dos ataques e a tomada de medidas concretas mas porque talvez o sr. presidente tenha um foco diferente do nosso diga-nos em situações de desespero como esta o que devemos fazer para não perdermos o foco?

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