Intitulados

Sinek

“Diz-se que se julgam intitulados, que são narcisistas, interessados somente em si, sem foco, preguiçosos. Mas o acharem-se intitulados é o que de pior têm, pois não conseguem encontrar liderança. (…) Muitas das pessoas dessa chamada geração de Millennials cresceram num ambiente – e estas palavras não são minhas – minado por estratégias parentais falhadas. Num ambiente em que, por exemplo, se lhes era dito permanentemente que eles eram especiais e que poderiam ter tudo o que quisessem na vida. Bastava que o quisessem! (…) Recebiam distinções na escola, não porque as mereciam mas porque os seus pais as exigiam de seus professores, e assim, tinham 20 valores não porque conseguiam, mas porque os seus professores não queriam lidar com as reclamações dos seus pais. Algumas crianças ganhavam medalhas de participação. Medalhas até por chegar em último. (…) O que acontece é que quando este grupo de pessoas termina a universidade e entra no mercado de trabalho, no mundo real, descobre instantaneamente que não tem nada de especial, que as suas mãezinhas não lhes vão conseguir dar nenhuma promoção no trabalho, que não se ganha nada por chegar em último e que poucas são as coisas que se podem ter somente porque se quer. E instantaneamente, as suas auto-imagens são destruídas. (…)

As suas amizades são superficiais. (…) Não têm relações profundas, não as praticam, e pior ainda, não possuem quaisquer ferramentas para lidar com o stress. E quando níveis de stress significativos começam a aparecer em suas vidas, não procuram ajuda de outras pessoas, recorrem a dispositivos, a redes sociais, a “coisas” que fornecem alívio temporário. (…) Adicionem ainda o senso de impaciência de quem cresceu num mundo de gratificação instantânea (…) onde tudo o que você quer você pode ter instantaneamente, (…) exceto satisfação no trabalho ou relações humanas mais fortes. Para isso não há aplicativo.”

Excertos de uma entrevista da Inside Quest a Simon Sinek[1]

 

Acreditamos tanto em rótulos geracionais como em astrologia ou em outras hábeis generalizações: Zero. No entanto, rótulos à parte, as declarações de Simon Sinek em 2016 na entrevista acima citada são, em nossa opinião, um curioso e pertinente retrato – não dos ditos Millennials ou de qualquer outra geração e sua postura profissional, mas de um muito maior número de pessoas de todas as idades e extratos sociais e sua crescente alienação em relação ao mundo que as rodeia e à sociedade em que estão inseridas. (Até porque, a bem da verdade e para quem entende do assunto, se geração alguma tivesse de ser rotulada de “intitulada”, parece-nos mais lógico que fossem os baby boomers, pois foram, de longe, os que de mais privilégios gozaram dada a conjuntura socioeconómica da era em que cresceram.)

Mas se é verdade que o contexto social no qual se baseiam as opiniões de Sinek é ainda muito distinto do nosso, é igualmente irrefutável que, pese ­­embora por motivos diferentes, a maioria dos moçambicanos vive identicamente alienada e não parece estar minimamente interessada sequer no que se passa no seu país, quanto mais no seu planeta. Aliás, a única discrepância evidente entre o retrato traçado por Sinek e a nossa realidade é que, fruto da natureza oligárquica da nossa sociedade, a larga maioria dos nossos “intitulados” não vê a sua auto-imagem ser destruída conforme amadurece (ou apodrece?); muito pelo contrário, a sua mãezinha ou o seu paizinho ou o seu tio ou avozinho, apadrinham a sua progressão profissional ou, na pior das hipóteses, – quando a sua inabilidade é tal que nem tchovada a sua carreira progride – apadrinham o seu prepotente e incompetente passeio de “tacho” em “tacho”. Fardos em vez de forças motrizes, estes indivíduos – que assumem frequentemente posições chave na função pública – encrencam o país em vez de o empurrarem para a frente. E enquanto isso, “no banco de suplentes”, gente muito mais competente, com ideias próprias e sobrenomes menos sonantes, espera o render da guarda…

A nível planetário, por um motivo ou por outro, vivemos numa sociedade cada vez mais entorpecida. Cada vez mais “ligada” a coisas, valores e princípios supérfluos e triviais; cada vez mais rica em indivíduos embrenhados em suas vidas digitais, virtuais e desprovidas de qualquer cunho humano; e cada vez mais pobre em alguns dos mais básicos valores humanos – como a solidariedade, a compaixão ou mera empatia. Vivemos de likes, shares e tweets. É esse o nosso contributo para a mudança. Somos activistas no facebook e no whatsapp, de celular na mão no conforto do nosso sofá. Activistas de polegar. Indignamo-nos facilmente, mas vivemos muito bem com essa indignação, sem mexer uma palha para contestá-la. Dizia-se que a globalização ia aproximar as pessoas e tornar difícil que as atrocidades do passado se repetissem ou passassem incólumes aos olhos do mundo, mas o tiro saiu pela culatra… A globalização (particularmente o advento das redes sociais) veio realmente aproximar as pessoas e dificultar muito o encobrimento de barbaridades mundo fora, no entanto, assoberbados com o volume de informação que agora nos chega e dessensibilizados pela quantidade de dramas e tramas veiculados, estamos agora mais dormentes do que nunca. Enquanto, nos EUA, Trump separa bebés e crianças de seus pais na fronteira; enquanto milhões de refugiados, num drama sem paralelo na história da humanidade, lutam para encontrar a solidariedade até de países que já viveram catástrofes idênticas; enquanto na Palestina, a usurpação de território e o genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestiniano continua; enquanto na Venezuela, agarrado ao poder, sem olhar a meios e atropelando todos no seu caminho, Maduro arrasta os Venezuelanos para o abismo; ou mesmo enquanto em Moçambique (como em muitos outros países do Sul Global), milhares de Moçambicanos continuam a sofrer em virtude dos inconsequentes desfalques e mega negociatas dos seus dirigentes, a maioria de nós dorme tranquila. Impávida e serena. E aqueles que realmente se dão ao trabalho de sair da sua zona de conforto para contestar a podridão no mundo continuam tão vulneráveis como sempre senão mais – porque a tal da globalização também os tornou mais visíveis e consequentemente mais fáceis de abater. Segundo a Frontline Defenders, só em 2017, 312 activistas de Direitos Humanos de 27 países diferentes foram assassinados pelo trabalho pacífico que desenvolviam. 67% deles trabalhavam com questões de terra, ambiente e direitos das comunidades. Um número recorde. Dá que pensar não dá?

De uma coisa você pode ter certeza: enquanto, no conforto dos nossos sofás, nos cingirmos a tweets, likes e shares, deixando o resto do trabalho para a parca minoria que dá o couro e a cara pelo nosso futuro, nada mudará e ninguém estará a salvo do que esse futuro nos trará.

 

[1] Simon Sinek é um Antropólogo Anglo-Americano, conhecido pelo seu trabalho como orador e consultor motivacional. É autor de quatro livros.

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