
As comunidades locais enfrentam onda após onda de danos directos causados pelos projectos de gás na Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, enquanto as empresas de gás, as instituições financeiras e os decisores políticos continuam a justificar o seu envolvimento. A destruição de ecossistemas marinhos sensíveis e o elevado contributo destes projectos para as alterações climáticas devem ser considerados na avaliação dos impactos sobre as comunidades. A combinação de violações nos processos de reassentamento, perda de machambas, exclusão das zonas de pesca e poluição física e química resultante das actividades de dragagem já está a comprometer directamente a capacidade de centenas de famílias de manter os seus meios de subsistência e actividades de sobrevivência.
Os alertas sobre os impactos ambientais e sociais da exploração de gás em Cabo Delgado têm sido emitidos por activistas e académicos desde o início das actividades de exploração em 2006 [1]. Ainda assim, os projectos continuam a expandir-se – mesmo num contexto de conflito violento e de processos criminais relacionados com alegadas violações dos direitos humanos [2]. Enquanto o Estado moçambicano se agarra à promessa de receitas reduzidas – e decrescentes – num futuro incerto, as comunidades locais já perderam, e continuam a perder, os seus meios de sobrevivência [3]. Os danos à natureza são mais graves do que o previsto, e os impactos sobre as comunidades tornam-se cada vez mais irreparáveis.

O investigador independente Chris Engelbrecht alerta, na sua avaliação de 2025 sobre os riscos ambientais dos projectos de gás, que a região é altamente vulnerável aos impactos combinados das alterações climáticas e das espécies exóticas invasoras, e será significativamente prejudicada pela poluição química, acústica e física resultante das actividades de gás [4]. As comunidades locais, cujos meios de subsistência dependem dos recursos naturais, permanecem as mais vulneráveis a estes impactos cumulativos.
A área marinha alberga espécies icónicas, como as baleias-jubarte e as tartarugas-cabeçudas; a plataforma continental íngreme constitui potencialmente um habitat crítico; e foram identificadas espécies novas para a ciência nas proximidades de locais previstos para poços em águas profundas. No entanto, Engelbrecht sublinha a ausência de um estudo abrangente sobre a biodiversidade marinha da área afectada e que, sem ele, não é possível determinar que espécies e habitats poderão ser perdidos em resultado das actividades de gás. De forma crítica, também não existe uma avaliação adequada dos impactos resultantes nas economias locais e na nutrição das comunidades.
Em 2025, comunidades relataram danos severos nos habitats costeiros devido à dragagem na Baía de Palma e nas imediações da Ilha de Tecomaji, no âmbito da construção de infra-estruturas marítimas e rotas de navegação [5]. Muitas das famílias actualmente residentes na ilha viviam anteriormente em aldeias na Península de Afungi e foram obrigadas a reassentar-se devido aos projectos de gás. Os mariscos e os peixes de águas pouco profundas são fundamentais para a nutrição local e são sobretudo recolhidos por mulheres e crianças, tanto para a alimentação como para venda. Os recifes de coral e as pradarias marinhas constituem habitats essenciais para estas espécies. O Data Desk revelou que a dragagem, iniciada por volta de Outubro de 2024, atravessou e danificou os recifes de coral na extremidade norte da Baía de Palma [6]. Estima-se que a dragagem na baía produza pelo menos 12 milhões de metros cúbicos de resíduos, os quais são tóxicos e podem cobrir e asfixiar corais e pradarias marinhas.
No geral, a exploração de gás apresenta riscos significativos para os ecossistemas, incluindo:
- Poluição química resultante de fugas de gás e condensado, derrames operacionais e tráfego marítimo, bem como poluição atmosférica proveniente das unidades de processamento.
- Fugas de gás tóxico e condensado a partir de poços e gasodutos. O condensado pode persistir durante longos períodos abaixo da superfície e apresenta maior toxicidade do que o petróleo bruto.
- Introdução de espécies exóticas invasoras através de embarcações, com impactos severos sobre a ecologia local.
- Poluição sonora contínua associada à perfuração de poços de gás, às operações das unidades flutuantes e ao tráfego marítimo ligado ao gás – incluindo grandes navios de transporte de GNL.
- Danos físicos em recifes de coral, pradarias marinhas e outros habitats marinhos, tanto em águas profundas como em zonas costeiras, resultantes da perfuração de poços de gás e da dragagem para gasodutos e infra-estruturas marítimas.
- Resíduos provenientes da perfuração e da dragagem, que são tóxicos, degradam a qualidade da água e podem cobrir e asfixiar organismos e habitats do fundo do mar.
- Contributo significativo para as alterações climáticas, equivalente a pelo menos 4,5 gigatoneladas de dióxido de carbono.
Engelbrecht recomenda urgentemente a recolha de dados adicionais que permitam uma quantificação mais abrangente e fiável dos impactos cumulativos da extracção de gás, incluindo impactos já existentes e pressões emergentes decorrentes das alterações climáticas já irreversíveis. Defende igualmente a aplicação do Princípio da Precaução – ausente nas actuais avaliações de impacto ambiental dos projectos de gás – e a imposição de uma moratória aos projectos até que seja provado que não causarão danos irreversíveis.
Avisos e recomendações semelhantes, apresentados há mais de uma década, foram ignorados por decisores, empresas de gás e instituições financeiras. Já em 2009, comunidades reportaram perturbações ecológicas, perda de espécies e redução das capturas de pesca após actividades de prospecção sísmica, segundo entrevistas conduzidas por Joshua Dimon e Daniel Ribeiro dois meses após os levantamentos sísmicos [7]. Foram relatadas mortes de peixes e mariscos, a morte de seis tartarugas e a ocorrência de marés vermelhas com impactos na saúde. A comunidade de Maganja reportou uma mortandade em massa de peixes bentónicos – com carcaças a cobrir vários quilómetros de praia – bem como o desaparecimento de mariscos. Não foi realizado (ou, pelo menos, não está disponível ao público) um estudo detalhado, embora a empresa tenha declarado “nenhum impacto social… nenhuma queixa”.

Adicionalmente, Dimon e Ribeiro reportam comunicação inadequada com as comunidades na altura, resultando em problemas auditivos entre pescadores e em longos períodos sem actividade pesqueira, com consequentes perdas alimentares e de rendimentos. Referem ainda discrepâncias na compensação atribuída às comunidades piscatórias afectadas em comparação com operadores turísticos, bem como a ausência total de compensação durante programas sísmicos em águas pouco profundas, durante os quais os pescadores não pescaram.
Este padrão de consulta, comunicação e monitoria inadequadas continua a caracterizar as relações entre os projectos de gás e as populações locais [8].
Nos últimos anos, os membros da comunidade de Maganja têm sido afectados por apropriações de terras — ironicamente, terras de compensação destinadas a famílias reassentadas —, o que tem suscitado muitas queixas significativas. Na sequência de negociações infrutíferas com a empresa de gás, dez membros da comunidade foram alvo de intimidação em janeiro de 2025, o que ilustra as dinâmicas mais sombrias em torno do consentimento livre, prévio e informado no que diz respeito aos projectos [9]. No geral, milhares de pessoas em muitas comunidades foram afectadas pelo reassentamento e pela perda dos seus campos de cultivo, e outros milhares foram afectados pelo acesso restrito ao mar e à costa, bem como pelas tentativas de obter mais terras – incluindo para a construção de estradas [10]. Há agora novos relatos de comunidades a serem instadas a abandonar as suas casas na Ilha de Tecomaji.
Embora os projectos de gás promovam narrativas de progresso e prosperidade para Moçambique, os danos ambientais, combinados com a perda de habitação, terras e acesso a recursos naturais, têm resultado numa deterioração directa das condições de vida de milhares de pessoas, transferindo custos incalculáveis para as comunidades locais. Em todo o caso, resta saber que volume de receitas chegará a Moçambique, considerando os crescentes encargos exigidos ao Estado [11], e se essas receitas serão utilizadas para o bem-estar local.
Para mais informação, leia:
[1] Mozambique LNG: Financial institutions so far refrain from taking a stance on allegations of severe human rights violations; Stop the ravaging of Cabo Delgado; Why financial institutions should politely look away from Eni’s Coral North; Fuelling the crisis in Mozambique; (GNL de Moçambique: Instituições financeiras abstêm-se até ao momento de tomar posição sobre alegações de graves violações dos direitos humanos; Parem a devastação de Cabo Delgado; Porque é que as instituições financeiras devem ignorar educadamente o projecto Coral North da Eni; Fomentando a crise em Moçambique;)
[2] Mozambique LNG relaunch: banks urged to withdraw from the project – StopMozGas; ECCHR: TotalEnergies faces criminal complaint for complicity in war crimes, torture and enforced disappearance in Mozambique (Relançamento do projecto GNL de Moçambique: bancos são instados a retirar-se do projecto – StopMozGas; ECCHR: TotalEnergies enfrenta queixa-crime por cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimento forçado em Moçambique)
[3] Too late to count: a financial analysis of Mozambique’s gas sector – Report by OpenOil; Energy projects fuel hunger in Palma; (Tarde demais para contar: uma análise financeira do sector do gás de Moçambique – Relatório da OpenOil; Projectos energéticos fomentam a fome em Palma;)
[4] True Risk – The environmental risks of deep-sea gas exploitation in the Rovuma Basin of Cabo Delgado, Mozambique (Risco real – Os riscos ambientais da exploração de gás em águas profundas na Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, Moçambique)
[5] Direct conversation with Justiça Ambiental! (Conversa directa com a Justiça Ambiental!)
[6] Dredging in Palma Bay, Mozambique (Dragagem na Baía de Palma, Moçambique)
[7] Oil or Development? A report by JA! (Petróleo ou Desenvolvimento? Um relatório da JA!)
[8] ‘The land belongs to Mozambicans, not to France’; Resettlement chaos continues at Afungi gas site; From promised land to landlessness – intra-community conflicts in palma district linked to gas projects/; From hope to old age – testimonials (‘A terra pertence aos moçambicanos, não à França’; O caos do reassentamento continua no terreno de gás de Afungi; Da terra prometida à falta de terra – conflitos intracomunitários no distrito de Palma ligados a projectos de gás; Da esperança à velhice – testemunhos)
[9] Maganja community resists intimidation and demands justice in the compensations promised by TotalEnergies (Comunidade de Maganja resiste à intimidação e exige justiça nas compensações prometidas pela TotalEnergies)
[10] IAM Assessment Report Rovuma LNG Project, Mozambique (Relatório de Avaliação do IAM Projecto Rovuma LNG, Moçambique)
[11] Mozambique LNG will resume, but with even fewer expected benefits for Mozambicans (O projecto GNL de Moçambique será retomado, mas com ainda menos benefícios esperados para os moçambicanos); Transparência fiscal em transição