Category Archives: Activismo

Dez anos desde o massacre de Marikana e ainda ninguém foi punido

Esta semana marca o 10º aniversário do massacre de Marikana, o dia em que os trabalhadores mineiros sul-africanos foram violentamente atacados pela polícia, que matou 37 pessoas desarmadas. A polícia, o governo, a empresa e mesmo o actual Presidente Cyril Ramaphosa, todos estão directamente envolvidos, e não foram responsabilizados pelos seus crimes.

No dia 16 de Agosto de 2012, os rockdrillers da mina de platina Lonmin estavam em greve, após uma semana de protestos, exigindo um salário básico, decente e habitável de R12 500 (na altura 43 600 MT) por mês, sobre o qual a empresa se recusou a negociar. Os homens estavam reunidos numa colina, quando a polícia abriu fogo, sem terem sido provocados, e muitos homens tiverem mortes horríveis – alguns deles foram alvejados à queima-roupa, e outros foram mesmo esmagados por veículos da polícia.

Hoje, uma década mais tarde, os rockdrillers da empresa ganham apenas R13 000 (MT 49 600). Lonmin nunca emitiu um pedido formal de desculpas por este massacre, nem mesmo às famílias dos mortos ou feridos e não forneceu a maioria das famílias uma compensação . Em 2018, a empresa foi comprada pela Sibanye-Stillwater. Lonmin tem sido uma serpente, que se desloca para fora do país para evitar a sua responsabilidade.

Nenhum membro da força policial. nem o governo foi punido ou mesmo legalmente acusado por estes assassinatos flagrantes. O Presidente Ramphosa era o director não executivo da Lonmin na altura, e pressionou a polícia a tratar a greve como um assunto criminal. No entanto, foi exonerado de qualquer responsabilidade por este massacre.

As famílias dos mineiros assassinados continuam a ir a tribunal para obter justiça para os seus entes queridos, para que os culpados destes crimes enfrentem algum tipo de punição, e continuarão a lutar.

Os sul-africanos continuam a viver num apartheid económico. Os pobres, incluindo os trabalhadores das indústrias extractivas e de combustíveis fósseis – os trabalhadores das empresas que ganham até centenas de biliões todos os anos – ainda são tratados como menos do que seres humanos, como meros instrumentos transaccionais para manter o sistema capitalista a trabalhar para os ricos, para que a elite política e económica local e internacional beneficie da sua mera existência. Isto vai além da África do Sul – estas mesmas palavras podem ser usadas quando se fala das indústrias extractivas em Moçambique, Tanzânia, Namíbia, Lesoto, RDC, Serra Leoa, República Centro Africana, Marrocos, Colômbia, Brasil, Argentina, terras indígenas americanas, para citar muito, muito poucas.

O anarquista russo Pyotr Kropotkin disse uma vez: ‘Em todo o lado se descobrirá que a riqueza dos ricos provém da pobreza dos pobres”.

Nós na JA! somos solidários com as famílias dos mineiros Lonmin assassinados e com os feridos, com os que lutam pela humanidade básica em todo o mundo, com os que lutam pelos seus meios de subsistência e pela terra.

Precisamos urgentemente que as Nações Unidas (ONU) implementem um Tratado Vinculativo sobre Negócios e Direitos Humanos, uma ferramenta de responsabilização que tem dentes e que as comunidades devastadas pelas corporações e pela sociedade civil têm vindo a exigir há anos.

Princípios orientadores não são suficientes – as corporações demonstraram que não têm interesse nos direitos humanos, no clima e no ambiente, excepto quando precisam de “tick a box “ – e os princípios orientadores não vão certamente forçá-las a agir com a humanidade e justiça.

É tempo de as instituições do poder – estados, especialmente os do Norte, a ONU e a União Europeia – criarem, e aplicarem leis que farão as corporações como Lonmin pagar pelos seus crimes, assim como proteger vidas, como as dos mineiros de Marikana, lutando pelo seu direito básico.

Temos de continuar a lutar para assegurar que este sistema capitalista, imperialista e neocolonialista de exploração termine JA! e acabe com a impunidade corporativa.

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Barragem de Mphanda Nkuwa: um grilhão climático à volta do pescoço de Moçambique*

por Rudo A. Sanyanga

Sumário Executivo

O projecto da barragem hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, proposto há mais de duas décadas, voltou a emergir como uma solução para aumentar a exportação de energia para a África do Sul, de forma a aumentar a capacidade de Moçambique de receber moeda estrangeira. O projecto está, no momento, a ser promovido por um valor de 4,5 bilhões de USD, sendo 2,4 bilhões para a barragem e central elétrica, e 2,1 bilhões para as linhas de transmissão. Este estudo debate os méritos do projecto da barragem hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa e os seus benefícios sócio-económicos e de desenvolvimento, face aos impactos das mudanças climáticas, num momento em que o mundo enfrenta desafios energéticos que requerem que sejam pensadas formas e fontes de energia mais sustentáveis para o futuro.

A barragem de Mphanda Nkuwa seria a terceira maior barragem a ser construída no tronco principal do Rio Zambeze, e uma de muitas outras barragens na bacia, se considerarmos os tributários do Zambeze. A sua localização na parte mais baixa da bacia do Rio Zambeze, em Moçambique, dá-lhe características únicas e torna-a vulnerável. Faz também com que seja determinante para os ecossistemas a jusante. Como actualmente concebida, a central hidroeléctrica tem capacidade de geração de 1.500 MW, com 60% (900 MW) dessa capacidade para exportação para a África do Sul, e um remanescente de 600 MW (40%) reservado para consumo doméstico, em Moçambique. Actualmente, mais de 60% dos Moçambicanos, cuja maioria vive em assentamentos muito dispersos em zonas rurais remotas, não têm acesso à electricidade moderna e encontram-se fora do alcance da rede eléctrica nacional existente. Muito mais que 600 MW seriam necessários para permitir que Moçambique atingisse um acesso à electricidade de 50%, até 2030.

O plano do projecto é que comece a gerar energia 2030, com cerca de 2 anos para planificação e desenho, enquanto espera-se que a construção leve 6 anos. Os benefícios anunciados são duvidosos face às mudanças climáticas e o facto de que a barragem será prejudicial para ecossistemas a jusante, bem como para a saúde e segurança humana, levando à perda de meios de subsistência das comunidades a jusante. Tal como na maioria dos grandes projectos de infraestruturas semelhantes, a barragem e o projecto hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa estão a atrair o apoio de instituições financeiras internacionais, como o Banco Africano de Desenvolvimento, que vêem-no puramente do ponto de vista macroeconómico, como uma forma de estimular o crescimento económico do país através do aumento das receitas em moeda estrangeira. Os proponentes do projecto, no entanto, ignoram os diversos riscos que estão associados ao projecto e, portanto, não discutem como esses riscos serão abordados.

Entre os riscos, a questão das mudanças climáticas é um grande motivo de preocupação. Após pesquisa detalhada, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) concluiu que, de entre as 11 principais bacias hidrográficas em África, a bacia do Zambeze é a mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. Prevê-se que a bacia do Zambeze enfrente eventos climáticos extremos severos, em forma de longos períodos de seca, cheias severas no futuro, mais fortes que em qualquer das outras bacias hidrográficas do continente. Além disso, o baixo Zambeze é directamente afectado pelos desenvolvimentos a montante, fazendo com que os impactos negativos dos desenvolvimentos a montante sejam agravados em Mphanda Nkuwa e a jusante. Na última década, Moçambique foi considerado o país da SADC mais afectado pelas mudanças climáticas, de entre vários países que também têm experienciado eventos climáticos extremos, como ciclones e cheias. O funcionamento das barragens a montante em Kariba, Kafue e Cahora Bassa, com as suas grandes capacidades de armazenamento, serão a chave para o desempenho de Mphanda Nkuwa.

Por estar localizada a jusante de grandes barragens, o maior risco para Mphanda Nkuwa será durante os períodos de seca, porque as barragens a montante poderão não libertar água suficiente, se os países a montante decidirem dar prioridade às suas necessidades. O alto risco de secas na bacia do Zambeze, exacerbado pelas mudanças climáticas, terá um impacto negativo directo na viabilidade financeira e económica do projecto, uma vez que as projecções de geração de receitas e de ganhos em moeda estrangeira serão severamente reduzidas por secas prolongadas. A retenção de água nas barragens a montante, durante as secas, colocará também em perigo os caudais ecológicos a jusante de Mphanda Nkuwa, com outros efeitos prejudiciais para a pesca do camarão na região do delta.

Da mesma maneira, em caso de grandes inundações, as barragens a montante irão libertar mais água, criando risco de ruptura da barragem de Mphanda Nkuwa bem como o agravamento da segurança humana a jusante, no vale do Zambeze. Os riscos de segurança de barragens devido a cheias e inundações podem exigir especifidades mais dispendiosas, e custos de construção mais elevados. Ao longo das últimas duas décadas, têm ocorrido inúmeras catástrofes de cheias no vale do baixo Zambeze, levando a grandes riscos de perda de vidas humanas e ameaças à subsistência. Por conseguinte, Mphanda Nkuwa é altamente susceptível aos impactos das mudanças climáticas, tanto a respeito de secas como de inundações.

A energia hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa é promovida como energia limpa. No entanto, estudos recentes pelo mundo indicam que as barragens emitem quantidades consideráveis de metano, um gás de efeito de estufa mais potente que o dióxido de carbono. Num momento em que o mundo enfrenta enormes riscos de mudanças climáticas e aquecimento global, a decisão de avançar com Mphanda Nkuwa é lamentável e vai contra a sabedoria convencional.

Mphanda Nkuwa está assente na premissa de venda de energia a países da África Austral, sendo a empresa Sul-africana de energia eléctrica Eskom a principal compradora. É importante notar que, nos últimos 15 anos, a Eskom tem experienciado sérios e persistentes desafios estruturais e de governação, resultando numa divida crónica de 500 mil milhões de Rands, equivalentes a 30 bilhões de USD no momento de elaboração deste artigo. Assim, a companhia Sul-Africana enfrenta sérios problemas de viabilidade financeira, o que a torna um cliente de risco para basear um enorme investimento de 4,5 bilhões de USD. Devido ao deteriorar da sua situação financeira, a Eskom tem aumentado progressivamente as tarifas domésticas de electricidade ao longo da última década, o que faz com que muitos dos seus clientes, principalmente os mais ricos, tenham vindo a sair da rede, comprometendo assim a sua cobrança de receitas e piorando ainda mais a viabilidade financeira da companhia de electricidade. Isto é, claramente, um sinal vermelho a respeito do qual os proponentes do projecto da barragem de Mphanda Nkuwa precisam de se debruçar seriamente, nas suas análises de mercado. A delicadeza da viabilidade de Mphanda Nkuwa torna-se ainda mais acentuada quando vista no contexto do actual acordo de aquisição da energia da Hidroeléctrica de Cahora Bassa pela África do Sul, cujo preço da electricidade é altamente desfavorável para Moçambique.

Outras preocupações a respeito de Mphanda Nkuwa incluem o alegado aumento no acesso à energia para os Moçambicanos. Em teoria, afirma-se que 40% da energia de Mphanda Nkuwa vai beneficiar os Moçambicanos, mas na realidade o acesso à energia, para os Moçambicanos, será insignificante. O padrão de povoamento rural disperso e extensivo da maioria dos Moçambicanos que actualmente não tem acesso à energia limpa, e a ausência de uma extensa rede em grelha, torna numa falácia a alegação de que Mphanda Nkuwa irá aumentar substancialmente o acesso à electricidade. Moçambique carece de uma extensa rede de transmissão e distribuição, e portanto mesmo com a proposta linha de transmissão, a maior parte da população nas áreas rurais permanecerá desconectada da electricidade. A electricidade da rede não será suficiente para aumentar o acesso e estimular o desenvolvimento no país. E, de qualquer forma, o custo da electricidade sem subsídio será muito alto e inacessível para a maioria dos cidadãos.

O desenvolvimento da barragem de Mphanda Nkuwa presta muito pouca atenção à saúde do ecossistema da bacia e ao bem-estar social das comunidades a jusante. O funcionamento da barragem irá alterar significativamente o regime de escoamento da área a jusante, criando flutuações diárias que irão afectar a biota aquática, bem como a subsistência de mais de 200.000 habitantes que vivem no delta e que, em grande medida, dependem dos recursos naturais da bacia. Os meios de subsistência das comunidades que residem na área que será inundada não devem ser postos de lado. Baseado no que já tem acontecido e sido revelado em outros megaprojectos de infraestruturas na província de Tete e pelo país, estas pessoas serão provavelmente sujeitas a deslocações forçadas, meios de subsistência comprometidos, compensações inadequadas, violência e repressão do Estado, e outras violações de Direitos Humanos. As pessoas que vivem na bacia do Zambeze são as que mais têm a perder com este projecto.

Em conclusão, é improvável que este investimento aumente significativamente a industrialização ou promova o crescimento económico de Moçambique. Prevê-se que o número de empregos permanentes directos criados por este projecto hidroeléctrico seja muito reduzido. No que diz respeito às emissões de gases de efeito de estufa, não haverá ganhos, e infelizmente serão geradas mais emissões com a barragem. As receitas provenientes das vendas de electricidade podem não cobrir os custos de produção, com o risco de não cumprir com o serviço da dívida da barragem. Diversos estudos feitos para a África do Sul e Moçambique demonstram que energia limpa pode ser gerada através do vento e do sol, de forma a alcançar a população rural dispersa num ritmo muito mais rápido, criando assim postos de trabalho e muito menos impactos sociais e ambientais negativos, comparativamente a outras formas de produção de energia. Neste contexto, Moçambique tem um enorme potencial por explorar em termos de energias renováveis, de forma a mudar a sua trajectória rumo ao desenvolvimento, distribuição e geração de energia. Se fôr construída, a barragem de Mphanda Nkuwa será um grilhão climático à volta do pescoço de Moçambique, por muitas gerações.

*Estudo lançado em Maputo no dia 21 de Julho de 2022. Para obter a versão completa do estudo dirija-se ao escritório da Justiça Ambiental na Rua Willy Waddington, 102, Bairro da Coop, Maputo, ou pelo link: www.drive.google.com/drive/folders/1FXkv0z4PzdOT6yhueYhPqXVCo_9di4Qz

Para mais informações: 84 3106010 / jamoz2010@gmail.com

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A JA! Amplifica a mensagem sobre a luta de Moçambique, pela justiça climática, no Fórum dos Povos, Estocolmo+50.

Estocolmo +50, Fórum dos Povos

7 de Junho de 2022

No início de Junho, os ativistas da JA! estiveram em Estocolmo para participar no Fórum dos Povos, Estocolmo+50, pela Justiça Ambiental e Climática. Este evento foi um encontro entre ativistas e a sociedade civil e aconteceu em paralelo com a Conferência Estocolmo+50 das Nações Unidas. Este evento é uma comemoração do aniversário de 50 anos da Conferência de 1972 da ONU, sobre Ambiente Humano. A ONU refere-se a isto como a cimeira que “pela primeira vez, fez a ligação entre o ambiente e a pobreza e que colocou este tópico na linha da frente da agenda internacional.”

Marcou também os primeiros encontros e manifestações paralelas, da sociedade civil, que aconteceram durante as cimeiras da ONU. Foi uma das bases para o processo de união de movimentos sociais de toda a parte do mundo, incluindo o Hemisfério Sul, para a discussão e planejamento estratégico conjunto e para fortalecer o trabalho direcionado à justiça social e ambiental. Ao mesmo tempo, foram ampliadas narrativas e apresentadas críticas no evento formal da ONU.

Através disto, foi criado um sistema onde a sociedade civil começou a se engajar em espaços mais formais e reuniões da ONU.

O Fórum dos Povos foi composto por três dias de atividades, desenvolvidas pela Aliança Estocolmo+50, que se define como um “coletivo da sociedade civil e dos movimentos sociais, da luta pela justiça ambiental, social e climática”. E, o propósito do evento foi de ser um espaço onde “os movimentos sociais planejam atividades paralelas, que realcem os princípios, demandas e ações, em resposta à profundidade e seriedade das crises que presenciamos- tendo como bases principais, a justiça global e desafiar das relações de poder.”

Para informação mais detalhada sobre o Fórum dos Povos:

A JA! Falou em quatro painéis, que se focaram em alguns elementos do seu trabalho. Estes painéis foram sobre a necessidade de acabar com os abusos e privilégios corporativistas, dizendo “sim” a um Acordo Vinculante da ONU para negócios e Direitos Humanos e, “não” aos acordos de comércio “livre” que ameaçam a democracia; o perigo das falsas soluções climáticas; a cumplicidade entre os fundos de pensão da Suécia e a destruição causada pelos combustíveis fósseis em Moçambique e outros lugares; ideias sobre que caminho seguir, depois de 50 anos de luta por uma mudança no sistema.

O fórum integrou também uma manifestação ou protesto, no centro de Estocolmo, onde os ativistas de comunidades de todo o mundo, incluindo a JA!, se manifestaram, junto de ativistas vindos do México, Namíbia, Colômbia e Líbano. Falaram para um público de no mínimo 300 pessoas, sobre o que o povo sueco pode fazer para lutar contra a injustiça climática, tal como exigir que os seus fundos de pensão sejam redirecionados para fora dos combustíveis fósseis.

O fórum levantou a grande questão, sobre o que teria mudado em cinco décadas de luta por justiça climática, ambiental e social e, como poderíamos aproveitar os aprendizados disto, para de forma coletiva, fortalecer estas lutas. Mas, para poder responder a estas perguntas, é importante observar o que ainda não mudou.

Por exemplo, apesar de companhias como a Shell estarem bem conscientes sobre as alterações climáticas desde 1981, ainda não temos um Tratado Vinculante a nível das Nações Unidas, um Tratado que obrigaria a que estas companhias agissem com princípios básicos de humanidade. A captura corporativa tem se tornado mais predominante, os acordos bilaterais mantêm-se vantajosos para os estados nórdicos e antigas potências coloniais. E, processos como Relações de Disputa Investidor-Estado, aumentaram o desequilíbrio e desigualdade das relações de poder, direcionando ainda mais estas relações de poder, para as grandes corporações multinacionais.

O legado da colonização, mantém-se devastador para as antigas colónias e Moçambique é um bom exemplo disto. Basta olharmos para a indústria de gás nas províncias de Inhambane e Cabo Delgado, vemos que países como o Reino Unido, Portugal, Itália, Holanda e África do Sul, estão a beneficiar e irão continuar a beneficiar dos projetos de gás fóssil, liderados pela Total, Eni, ExxonMobil, Sasol e muitas outras. Enquanto isto, a economia Moçambicana continua a colapsar e o seu nível de dívida a aumentar. Os governos do Norte têm consciência de que as suas companhias estão a destruir o Hemisfério Sul, mas no entanto, as suas narrativas de “gás para o desenvolvimento” permitem que beneficiem das estruturas coloniais históricas, criadas por eles mesmos, de pobreza, dívida e corrupção.

Persiste uma falta de responsabilização pelos impactos da indústria- as comunidades perdem as suas casas e sustentos de vida e são afastadas para centros de refugiados e destruídas por uma guerra violenta, alimentada pela indústria, que já matou milhares e criou quase um milhão de refugiados.

A necessidade de continuar a realizar eventos como o Estocolmo+50, mostra como muita coisa ainda não mudou.

Como é que é possível que os países mais poderosos do mundo e o mais respeitado organismo internacional, ainda sejam incapazes de controlar as companhias fósseis e bancos? E, que até agora se recusam a cortar o seu financiamento para os combustíveis fósseis? Como é que é possível que existam Tratados, como o de Paris e Glasgow e, que mesmo assim, ainda seja necessário lutar para que os estados nórdicos invistam na diversa gama de recursos renováveis que a Terra oferece? Como é que até agora não temos um Tratado Vinculante contra Corporações Transnacionais, na ONU, quando companhias já mostraram vezes sem conta, que não irão cumprir voluntariamente, com os regulamentos dos Direitos Humanos?

No entanto, também houve algumas mudanças. A introdução de tratados sobre o clima, referidos em cima, mostra que a pressão vinda da sociedade civil e dos povos do Sul, tem resultado. Enquanto prevalece uma dificuldade para conseguir que as companhias atuem de acordo com estes tratados, e embora que os mesmos ainda deixem muito por desejar, o mero facto de que estes existem, significa que as instituições de poder, como a ONU e a União Europeia, estão pelo menos a virar para a direção certa. Os Governos de países onde está a decorrer o extrativismo, têm reprimido jornalistas e ativistas, no entanto, as pessoas continuam a enfrentá-los; enquanto corporações transnacionais continuam a fugir aos impostos nos países onde operam, as pessoas continuam a lutar pelos seus direitos a serviços básicos.

Outro aspeto promissor, manifestado no Fórum dos Povos, foi o enorme número de pessoas jovens, de todo o mundo, a fazer frente ao problema climático e a radicalizar as suas lutas locais. Estes jovens levantaram uma questão crucial: A narrativa que é preciso mudar e que já começou a ser mudada, é a narrativa de que a luta pela justiça climática deve ser inclusiva, deve ser uma luta que vai para além de danos ambientais, mas que também seja uma luta de justiça para os mais pobres e para as pessoas mais afetadas pelas alterações climáticas.

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Plantações de Monocultura de Eucalipto da Portucel Ameaça Florestas Naturais na Província da Zambézia

Há muitos anos que a Justiça Ambiental tem trazido ao público o debate sobre a urgente necessidade de conservação de florestas nativas, sobre a falsa narrativa em volta das plantações de monocultura e os seus inúmeros e graves impactos negativos, ao mesmo tempo que estas tem sido largamente promovidas pelo governo de Moçambique, como parte da sua Estratégia de Reflorestamento com uma ambiciosa meta de estabelecer 1 milhão de hectares de plantações até 2030.

A Estratégia Nacional de Reflorestamento está alinhada a uma série de programas e projectos florestais em implementação (ex: MozFip1, MozDGM2, etc) e ainda a um conjunto de reformas na legislação do sector florestal (ex: Política Florestal e sua Estratégia, Lei Florestal, etc.), com financiamento de diferentes parceiros do governo moçambicano, com maior destaque para o Banco Mundial. Estes instrumentos em particular têm em comum o facto de ter o mesmo financiador e de criar incentivos para a promoção de plantações de monocultura de árvores, essencialmente do género Eucalyptus e Pinus, para o abastecimento da indústria de plantações sob pretexto de solução às alterações climáticas.

A Portucel Moçambique insere-se no lote das empresas com projectos financiados pelo Banco Mundial através de IFC3 e que tem fomentando extensas áreas de plantações de eucalipto pelo território nacional supostamente para alimentar a indústria de papel. O presente artigo analisa as irregularidades detectadas no estabelecimento das plantações da Portucel e os impactos negativos que estas causam tanto a nível social como ambiental, no território das comunidades locais e no ecossistema.

Existe uma tendência de se minimizar as implicações sociais e ambientais causadas pela implantação em grande escala das plantações de espécies exóticas de rápido crescimento como eucalipto. Os promotores dessas plantações recusam-se a aceitar os impactos negativos das mesmas e despendem imensa energia e recursos na sua propaganda enganosa de modo a obter o apoio de diferentes segmentos da sociedade. O que se verifica é que as plantações, beneficiam economicamente a própria empresa, providenciam empregos precários a um grupo restrito de membros das comunidades afectadas e deve de alguma forma beneficiar algumas importantes individualidades ligadas ao poder político e económico no país, sendo estes os que mais protegem e salvaguardam os interesses do suposto investimento, contribuindo assim para insegurança alimentar devido à ocupação de terras agrícolas, destruição de ecossistemas e habitats naturais através de corte de florestas naturais para dar lugar às plantações.

Vários são os estudos que identificam os inúmeros e graves desafios e problemas no sector florestal em Moçambique, porém poucos fazem referência sobre os impactos das plantações de espécies de rápido crescimento no desmatamento, aliás as empresas como a Portucel Moçambique, recusam-se a admitir que desmatam e derrubam áreas de florestas nativa para colocar as suas plantações, recusam-se a admitir que usurparam terra agrícola às comunidades locais alegando sempre que as terras foram cedidas de boa fé e com pleno conhecimento do que se pretendia. Apesar da agricultura itinerante ser apontada como uma das principais causas de desmatamento no país, dentre vários locais, em Socone por exemplo [S 15o51’3,888’’ (LAT) E 37o24’14,5494’’ (LONG)], situado no Ile, localidade Curoane, Posto administrativo de Socone, há evidências de que a floresta nativa foi derrubada para dar lugar à plantação de eucalipto da Portucel. Constata-se no local sinais de árvores abatidas, porções de floresta nativa em áreas adjacentes e um acampamento com maquinaria usada nas actividades de derrube para abertura de novos campos de plantio. Membros da comunidade afirmam que a área em referência era floresta nativa e que a empresa vai desmatando pequenas parcelas onde estabelece as suas plantações de eucalipto.

Por outro lado, no povoado Camba Primeiro, em Regone [S 15o41’21,13296’’ (LAT) E 36o55’37,89336’’ (LONG)], observou-se que decorre corte raso de árvores de eucalipto com cerca de 9 anos, através de empresas subcontratadas pela Portucel para corte, cubicagem, transporte e empilhamento dos troncos sob supervisão de trabalhadores da Portucel. Segundo alguns trabalhadores da empresa subcontratada, a biomassa cortada serve para fornecer a empresa Mozambique Leaf Tobacco para o uso no processo de secagem de tabaco. Nesse local não foi possível perceber se houve conversão de floresta em plantações de monocultura, segundo os membros da comunidade aquela área encontrava-se ocupada pelas suas machambas.

O acima exposto demonstra uma vez mais que as plantações têm sido estabelecidas em áreas de floresta secundária, contribuindo directamente para a redução da biodiversidade e ainda para a redução das áreas de produção agrícola de comunidades camponesas. O corte raso que se verifica acarreta sérias consequências por contribuir para alteração total das condições de vida da fauna e dos microrganismos do solo dentro do povoamento cortado. Ademais, o destino da biomassa das plantações de eucaliptos para o processo de secagem de tabaco reforça o argumento de que o objectivo primeiro das plantações é meramente comercial, e de modo algum estas são estabelecidas ou pensadas para reverter o actual cenário de mudanças climáticas como tem sido publicitado, sendo que, neste caso em referência, a biomassa produzida serve de combustível na secagem do tabaco e este processo emite carbono e outros gases de efeito de estufa para atmosfera, contribuindo desta forma para o aquecimento global.

É urgente reconhecer que as plantações de monocultura de espécies exóticas de árvores de rápido crescimento não constituem florestas de forma alguma, não proporcionamos os mesmos produtos e serviços ambientais que uma floresta fornece, não contribuem de forma positiva para o ciclo da água ou de nutrientes próprios de uma floresta. As plantações de monocultura em grande escala não apresentam diversidade de espécies, estas são maioritariamente para fins comerciais e estão ao serviço do grande capital, controlado pelas multinacionais e instituições financeiras para o fim último de obter lucro, através da exportação dos seus produtos e ainda, aproveitando-se das falsas narrativas de que estas contribuem para a redução das emissões e assim recebem fundos climáticos que deveriam estar a ser canalizados para as reais soluções à crise climática e não para alimentar ainda mais a ganância destas empresas.

1 Projecto de Investimento Florestal em Moçambique com vista a promover o desenvolvimento integrado no meio rural – https://www.fnds.gov.mz/index.php/pt/nossos-projectos/listagem-de-projectos/mozfip

2 Mecanismo de Doação Dedicado as Comunidades Locais com objectivo de apoiar iniciativas que facilitem o desenvolvimento socioeconómica das comunidades locais orientadas para a adaptação e mitigação das mudanças do clima – https://www.fnds.gov.mz/index.php/pt/nossos-projectos/listagem-de-projectos/mozdgm

3 International Finance Corporation – Membro do grupo Banco Mundial

França, Ruanda e a Total: uma ‘ménage à trois’ letal à volta do gás de Moçambique

Por: Daniel Ribeiro e Ilham Rawoot

Durante quatro anos, a população da província de Cabo Delgado, Moçambique, tem sido devastada pelo gás e pelo violento conflito entre insurgentes, militares e mercenários. Oitocentas mil pessoas tornaram-se refugiadas devido à violência, e milhares perderam os seus meios de subsistência e foram deslocadas pela indústria do gás. Para piorar a situação, muitas delas estão agora nas mãos do exército Ruandês, que é conhecido pelas horríveis torturas de alegados dissidentes Congoleses e Ruandeses em centros de detenção militar. E transformaram-se em vigaristas.

Segundo o Presidente Moçambicano Filipe Nyusi, o mandato do exército Ruandês de 1000 homens desde Julho tem sido o de “restaurar a paz e a estabilidade”. Mas desde que o estado Ruandês se envolveu, as coisas ficaram ainda mais complicadas.

A 14 de Setembro, o empresário Ruandês e presidente da Associação Ruandesa de Refugiados em Moçambique, Révocat Karemangingo, exilado do Ruanda em 1994, foi assassinado em Maputo.

Três meses antes, o jornalista Ruandês Ntamuhanga Cassien, que tinha pedido asilo em Moçambique, foi detido pela polícia Moçambicana, e não é visto desde então.

Se os peritos e activistas que ligaram estes assassinatos ao estado Ruandês estiverem correctos, mesmo que o governo o tenha negado repetidamente, isto não deveria ser uma surpresa. O governo Ruandês é conhecido pelos assassinatos de opositores políticos e jornalistas tanto dentro como fora do país, incluindo na África do Sul e no Quénia.

Em Julho deste ano, a Amnistia Internacional e um consórcio de jornalistas expuseram que o Ruanda é um dos países que tem utilizado o software Pegasus da empresa de vigilância Israelita NSO Group. Desde 2016, o governo Ruandês tem utilizado o software para vigiar ilegalmente os telefones de 3500 activistas, políticos e jornalistas.

O próprio exército Ruandês tem um historial terrível em matéria de direitos humanos – em 2014, a Human Rights Watch relatou que o exército tinha lutado ao lado dos rebeldes M23 apoiados pelo Ruanda na República Democrática do Congo (RDC). Durante três dias, em 2016, soldados M23 mataram 62 pessoas em protestos anti-governamentais.

Embora os habitantes locais de Palma tenham salientado a conduta mais profissional dos soldados Ruandeses em comparação com os soldados Moçambicanos, a operação Ruandesa depende da inteligência e informação locais para ser eficaz. Mas não são os Ruandeses que estão a fazer o trabalho sujo de obter essa informação. Têm sido os soldados Moçambicanos a levar a cabo os interrogatórios, detenções e intimidações para obter informações. Esta tem sido uma das causas do aumento de desaparecimentos, detenções ilegais e torturas, por vezes direccionados aos cidadãos mais vocais e críticos dentro das comunidades afectadas pelo gás.

Então se o governo Ruandês não se preocupa com os seus próprios cidadãos e civis na RDC, porque é que colocaria o seu dinheiro e exército em risco por cidadãos estrangeiros? E quem mais tem interesse que eles estejam em Moçambique?

Um dos factores que não pode ser ignorado é a relação dinâmica do Ruanda com a França, e o facto de que a empresa Francesa Total é um dos líderes da indústria de gás de Cabo Delgado no valor de 50 mil milhões de dólares.

A Total detém 26% do Projecto de Gás Natural Líquido (GNL) de Moçambique e está em vias de construir o enorme Parque Afungi LNG, que albergará os escritórios e instalações de apoio para o seu projecto, bem como o projecto Rovuma LNG da ExxonMobil e os seus contratados. Os gigantes do gás estão a construir uma indústria que está a empurrar ainda mais o país endividado para a pobreza, além de não beneficiar a população. Até agora, este projecto apenas trouxe destruição.

O governo Francês investiu mais de 520 milhões de dólares na indústria do gás de Moçambique através de um empréstimo da agência Francesa de crédito à exportação (BpiFrance) para o terceiro projecto, o Coral Sul LNG da ENI. Os quatro maiores bancos Franceses, Crédit Agricole, Société Génerale, BNP Paribas e Natixis estão também envolvidos no sector como financiadores ou consultores financeiros.

Foi a construção do Parque Afungi que expulsou milhares de habitantes locais das suas casas, e para longe das suas machambas e zonas de pesca, criando uma população enraivecida e ainda mais desprotegida.

E agora que a insurgência arruinou os planos da Total, esta acaba de suspender o projecto e os pagamentos de compensações às comunidades. Após um ataque brutal à cidade de Palma a 24 de Março, a Total decidiu declarar “força maior” e retirar o seu pessoal da área, interrompendo o projecto indefinidamente e dizendo que só regressariam quando a área estivesse segura.

Já nessa altura era evidente que os militares tinham um compromisso em defender os interesses da Total, não os do povo. No dia desse ataque, havia 800 soldados a defender o Parque Afungi enquanto os civis disseram que havia apenas um punhado de soldados protegendo a aldeia de Palma. Actualmente, os soldados Ruandeses têm utilizado o Parque Afungi como a sua base.

Certamente não será a primeira vez que os interesses, a política e os conflitos violentos da França andam de mãos dadas com um projecto da Total. Alguns exemplos que vêm à mente incluem Myanmar, onde a junta militar é conhecida pela limpeza étnica da população Rohingya, e violações em massa dos direitos humanos, incluindo violações, abuso sexual, tortura e desaparecimento de manifestantes. Desde o golpe de Fevereiro de 2021, a Total tem direccionado receitas do seu projecto de gás Yadana em Myanmar para a junta, a sua maior fonte de rendimento.

A Total também tem estado activa na bacia do Taoudeni, no Mali, região do Sahel, desde 1998. Desde 2013, mais de 3000 tropas Francesas estiveram no Mali e em 4 outros países do Sahel, com a França a usar a mesma retórica que usou, juntamente com o Ruanda, em Moçambique: para livrar a área dos “jihadistas”.

No Iémen, o projecto Balhaf LNG, do qual a Total possui 39%, foi exposto por abrigar a base da Elite Shabwani, uma milícia tribal apoiada pelos Emirados Árabes Unidos desde 2016. Oficialmente um grupo anti-terrorismo que se tornou oficialmente conhecido como um grupo criado para proteger os interesses dos combustíveis fósseis. O local também tem sido exposto devido às famosas “prisões secretas” dos Emirados Árabes Unidos que mantêm detidos Iemenitas.

Assim, Cabo Delgado, onde a região do gás se situa quase na fronteira entre Moçambique e a Tanzânia, encaixa perfeitamente na mistura de política, gás e conflito da Total.

Então, de volta ao Ruanda – Entre todos os potenciais jogadores, ou procuradores, para a França, porquê escolhê-los?

A França ficou envergonhada, mas não o suficiente para um pedido de desculpas completo, com a exposição da gravidade do seu papel no genocídio Ruandês, depois de um relatório de Março de 2021 ter mostrado que a França tem “responsabilidades avassaladoras” pelos horrores que mataram mais de 800.000 pessoas da minoria Tutsi. Contudo, em 2005, queixas apresentadas por grupos de direitos humanos levaram os promotores Franceses a abrir uma investigação sobre a cumplicidade real dos soldados Franceses no genocídio, que parecia que seria abandonada em Maio deste ano. Nenhum ex-soldado Francês foi julgado.

Enquanto o Ruanda afirma que esta missão militar a Moçambique é auto-financiada, outros dizem que será Moçambique a pagar a conta, e outros ainda dizem que este pode ser um dos meios de reparação encobertos da França, ou ainda um gesto para tentar resolver as más relações Franco-Ruandesas, oferecendo ao Ruanda um trabalho crucial: proteger os activos Franceses no projecto de gás. Questionado por um jornalista, o ministro Francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, não confirmou nem negou se está a financiar as tropas, embora o financiamento nem sempre venha sob a forma de dinheiro. Pode ser através de ajuda financeira ou outros meios que sejam mais difíceis de rastrear.

Faz parte de um padrão do Ruanda tornar-se o novo querido da França: em 2019, o Rwanda Development Board (RDB) assinou um contrato de 11,6 milhões de dólares por ano com o clube de futebol Francês Paris St. Germain como seu parceiro turístico oficial. O “Visit Rwanda” está estampado nas costas dos equipamentos masculinos de jogo e de aquecimento, no estádio do clube e nas mangas dos equipamentos da equipa feminina, tendo o clube renovado o seu contrato em 2019, reportado como sendo de 11 milhões de dólares por ano. Um ponto a considerar é que a empresa de hospitalidade Accor está a pagar ao PSG 58 milhões de dólares por ano para ser o seu parceiro hoteleiro oficial.

Existe a possibilidade que estas equipas estejam a dar um desconto amigável ao RDB. O mais provável é que os patrocínios estejam a ser subsidiados por um terceiro.

É evidente que há alguns actores a ganhar algo com as tropas Ruandesas que estão na região do gás – a Total, Moçambique e o Ruanda. Mas certamente quem mais ganha é a França – os seus activos financeiros estão a ser bem protegidos e ainda consegue manter a imagem internacional “não-cúmplice” que pretende salvaguardar em relação ao genocídio, ao mesmo tempo que cultiva uma relação com o Ruanda. Seria também uma forma de ter protecção militar dos seus bens, sem que isto seja visível. Isto é certamente de seu interesse após o reconhecimento pela França da sua desastrosa missão no Mali, reduzindo o número de tropas em Junho deste ano, e agora, após a morte do 52o soldado francês em oito anos, o Presidente Francês Emmanuel Macron disse que não terão mais soldados no Sahel até ao início de 2022. O destacamento de soldados Ruandeses significaria que eles teriam outro exército à vista do público, diminuindo o risco político de intervenções militares falhadas, especialmente as ligadas a violações dos direitos humanos.

Mas um grupo que claramente não está a beneficiar com tudo isto é o povo Moçambicano, sobretudo as comunidades de Cabo Delgado, que são meros peões, estão moribundos e devastados com toda esta situação. Tudo para que as elites locais e internacionais possam salvar a sua cara política e defender os seus activos de gás e bónus por todos os meios necessários.

Sobre o direito a Manifestação

Em Moçambique o direito a manifestação esta consagrado na Constituição da República e devidamente legislado desde 1991. Um direito constitucional que nos últimos tempos temos vindo a ser limitados em usufruir devido a um sistema que não aceita ouvir a opinião daqueles que supostamente os colocaram no poder. Em Estados que se dizem democráticos o homem e a mulher tem o direito de se manifestar contra tudo o que é adverso as suas aspirações de paz, justiça e bem estar social.

Em Moçambique faz algum tempo que temos visto o contrário, as organizações da sociedade civil, associações e diversas forças vivas da sociedade tem sido impedidas de se manifestarem quando o governo sente-se ameaçado pela temática sobre a qual se pretende manifestar. O pior mesmo, é a falta de entendimento sobre o que diz a lei no artigo 3, onde está claramente expresso que o direito à manifestação não depende de qualquer tipo de autorização, somente de uma comunicação por parte das entidades que tenham a intenção de realizar a tal manifestação. Com a eclosão da pandemia da Covid19, os argumentos começaram a girar em torno das restrições estabelecidas como forma de prevenção da doença.

No entanto, em outras partes do mundo onde ainda é possível o exercício da cidadania, as marchas ainda são possíveis porque é através das mesmas que os governos conseguem tomar decisões que vão de encontro com as reais necessidades das suas populações. Não são eleitos grupos que sejam a favor do partido no poder para apresentar discursos redigidos na base de uma orientação, não são lidos discursos que precisam de ser aprovados por quem vai receber a mensagem, são lidos discursos directos, objectivos e contundentes, que buscam visibilizar as diferentes problemáticas que preocupam a população local e que desafiam o bem estar das suas relações com as populações estrangeiras. São permitidos discursos de pessoas estrangeiras sem que estes corram o risco de serem deportados como já vimos acontecer em Moçambique.

Foi possível testemunhar isto, na cidade de Copenhagen, na Dinamarca, onde a NOAH – Friends of The Earth Dinamarca, convidou a Justiça Ambiental – Friends of the Earth Moçambique a participar em conservatórios com outros grupos activistas locais, e a conhecer as lutas locais. Nesta ocasião tivemos também a oportunidade de participar de duas marchas, uma que foi realizada no dia 01 de Maio e a outra no dia 07 de Maio.

A Marcha do dia 01 de Maio que participamos foi organizada pela esquerda radical e pelos curdos do movimento Rojava que defende as profundas conquistas políticas e sociais de um processo revolucionário que vem construindo um Estado radicalmente democrático, baseado em conselhos e comunas populares, uma ordem secular e multi-étnica, que incorpora de árabes a arménios, de muçulmanos a cristãos. Trata-se de um vigoroso movimento anti-patriarcal, liderado principalmente por mulheres, que grava fundo as suas marcas na institucionalidade e na vida cotidiana.

Esta marcha foi realizada de forma paralela com a marcha das uniões de trabalhadores, que obviamente também marchavam pelos direitos de trabalhadores e especialmente pelo sistema de fundo de pensões. As empresas de pensão funcionam como administradoras de seguros sociais para funcionários de grandes firmas. É comum muitas serem contratadas para gerirem os planos de aposentadoria complementar de empregadores. A lógica dos Fundos de Pensão é semelhante àquela do mercado financeiro, à medida que parcela dos valores são investidos em ações rentáveis e, assim, proporcionam-se meios de acréscimo de lucros.

Percebe-se também que esta é uma oportunidade de lucro para as empresas e possibilidade para o Estado dinamarquês promover seus interesses a partir do sector privado, com menos burocracias e entraves políticos. Basicamente, ao invés de pagarem os seus impostos directamente ao Estado, todos os trabalhadores dinamarqueses devem estar filiados a alguma união de trabalhadores que por sua vez possui um fundo onde mensalmente todos pagam uma taxa simbólica que no final pode ser usada para investir em diferentes negócios e desta forma fazer crescer o dinheiro dos contribuintes.

A marcha paralela, que foi onde nós participamos estava aberta a diferentes temáticas que preocupam a comunidade na Dinamarca e especialmente em Copenhagen, ao longo das diferentes demonstrações foi possível assistir a discursos sobre a Palestina, sobre os refugiados e sobre a necessidade de maior inclusão e construção de uma solidariedade massiva e real. Buscando consciencializar os jovens para juntarem-se às causas não para seguir tendências mas sim por perceber as implicações das mesmas.

No sábado seguinte, no dia 7 de Maio, tivemos a Marcha Climática: Política Solidária para Refugiados Agora. Uma marcha que apelava para uma maior consciencialização, responsabilização e envolvimento dos diferentes sectores da sociedade dinamarquesa sobre as políticas climáticas, económicas e de defesa que deslocam as pessoas e as matam.

Fomos convidados a discursar nesta marcha para demonstrar como os privilégios do mundo ocidental se baseia na pilhagem, exploração e exclusão de pessoas no sul global. Sendo assim, grupos da Colombia, México, Indonésia e Moçambique foram convidados a expor e visibilizar as problemáticas nos seus países e apelar para a solidariedade internacional e a resistência contra o sistema capitalista que só foca no lucro e coloca as populações do sul global com os seus meios de subsistência destruídos e sem grandes benefícios .

Como isto poderá ser feito?

Uma das formas é exigindo aos seus fundos de pensões que deixem de investir em empresas que fomentam a exploração de energias fósseis no mundo, companhias que não se importam em desapropriar terra a centenas de pessoas e bloquear os seus acessos a meios de subsistência fundamentais, utilizando fundos públicos, isto é fazendo as pessoas se tornarem cúmplices de um sistema capitalista que só beneficia o ocidente. Internamente espalhando discursos de investimento em energias verdes mas por detrás suportando agendas que priorizam a exploração de energias fosseis em países na América Latina, Ásia e África, literalmente varrendo a sujidade para debaixo de tapete.

A EMPRESA VALE S.A. E O SEU LEGADO DE DESTRUIÇÃO E INJUSTIÇAS PELO MUNDO

Por Alberto Tovele e Erika Mendes

INTRODUÇÃO

A descoberta de grandes quantidades de recursos minerais nos países em vias de desenvolvimento impulsionou o fluxo de uma grande quantidade de Investimento Directo Estrangeiro e, a consequente, entrada das grandes empresas transnacionais que operam no sector da indústria extractiva nestes países, incluindo Moçambique.

O sector da indústria extractiva é visto por muitos governos Africanos como uma das principais apostas para impulsionar o desenvolvimento, entretanto, as actividades das empresas do sector da indústria extractiva entram em colisão com a questão do desenvolvimento sustentável causando a degradação ambiental e impactos socioeconómicos sobre comunidades locais (Villas Bôas, 2011).

A empresa transnacional Vale S.A., fundada em 1942 no Brasil, é a segunda maior produtora do mundo de minério de ferro (385 milhões de toneladas) e níquel (244,6 milhões de toneladas); e extrai igualmente manganês, cobre, bauxite, alumínio, ouro, prata, cobalto e carvão, entre outros. Está presente em mais de 30 países nos 5 continentes1 e, em 2019, a sua receita operacional líquida foi de US$ 148,6 bilhões (AIAAV, 2021; APIB e AMAZON WATCH, s/d; Relatório de Administração, 2020).

A Vale apresenta-se como uma empresa do sector extractivo que está comprometida com o desenvolvimento económico, social e ambiental e incorpora esta visão nas suas decisões de negócio, definindo como valores o respeito pelo planeta e pelas comunidades (AIAAV, 2021; Relatório de Sustentabilidade, 2019). Além disso, a Vale afirma que a mineração é essencial para o desenvolvimento do mundo e o seu propósito é servir a sociedade gerando prosperidade para todos. O cuidado com o planeta e a ideia de que a vida é mais importante que os resultados e os bens materiais2 são incorporados na sua visão de negócio.

Este artigo tem como objectivo analisar os efeitos sociais e ambientais das actividades de mineração da Vale nos locais onde exerce essas mesmas actividades. A análise apoia-se no debate sobre a exploração dos recursos naturais e o desenvolvimento sustentável. Tem como principal argumento a existência de grandes incoerências entre os valores que a Vale S.A. afirma defender nos seus materiais de comunicação e relatórios para accionistas e a sua forma de actuação nos territórios onde desenvolve a exploração mineira3.

Uma das questões que é levantada no âmbito das actividades da indústria extractiva é sobre os ganhos ou benefícios que a exploração de recursos minerais pode trazer para as comunidades locais que acomodam estes projectos. Mosca (2022) e Mestanza-Ramón et al (2022) argumentam que as empresas de mineração, ao invés de impulsionarem o desenvolvimento económico e social, são geradoras de impactos sociais e ambientais negativos cujas dimensões são maiores que os benefícios da sua exploração4.

A preocupação com as questões sociais e ambientais ligadas à exploração de recursos minerais ganhou maior expressão na década de 60. Após a publicação do relatório de Brundntland em 1987, o conceito de desenvolvimento sustentável evoluiu passando a incluir para além das questões económicas, o desempenho nas áreas social e ambiental. Sendo definido como o desenvolvimento que satisfaz as necessidades das gerações presentes sem comprometer a habilidade das gerações futuras de satisfazerem as suas necessidades (Elliot, 2013).

LUCROS PARA OS ACCIONISTAS DA VALE S.A. ÀS CUSTAS DA DEGRADAÇÃO SOCIOAMBIENTAL

O Relatório de Administração de 2019 aponta que a receita operacional líquida da Vale S.A. totalizou R$ 148,6 bilhões em 2019, o que representou um incremento de R$ 14,2 bilhões face a 2018, devido aos preços mais altos realizados, principalmente de finos de minério de ferro e pelotas (R$ 23,6 bilhões).

Com efeito, como resultado do rompimento da Barragem I na mina Córrego do Feijão em Brumadinho ocorrido em 2019, o Conselho de Administração da Vale decidiu pela suspensão da Política de Remuneração aos Accionistas, assim como qualquer outra deliberação sobre recompra de acções da sua própria emissão (Relatório de Administração, 2019).

Durante o ano de 2020, o mundo e vários sectores da economia mundial ficaram paralisados ou foram drasticamente afectados pela pandemia do COVID-19. No meio desta pandemia mundial, o valor de mercado da Vale S.A. duplicou, chegando perto dos R$ 500 bilhões (AAIAV, 2021).

A receita operacional líquida atingiu R$ 208,5 bilhões em 2020, representando um aumento de R$ 59,9 bilhões em relação a 2019, resultado do efeito positivo da desvalorização do real face ao dólar em 30,7% no ano em questão e dos maiores preços realizados de minério de ferro e maiores receitas com subprodutos de metais básicos (Relatório de Administração, 2020). Em Julho de 2020, o Conselho de Administração decidiu restabelecer a Política de Remuneração aos Accionistas suspensa em Janeiro de 2019, entrando em vigor sem alterações. (op.cit p.53)

O Conselho de Administração da Vale deliberou sobre o pagamento da remuneração dos accionistas no valor bruto de R$ 4,262 386 983 por acção, sendo R$ 3,426 505 027 por acção relativo a dividendos e R$ 0,835 881 956 por acção referente aos juros sobre o capital próprio, com base no balanço levantado na data base de 30 de Setembro de 2020. (op.cit p.53)

Durante o ano de 2021, enquanto o mundo ainda enfrentava o surgimento de novas variantes da COVID-19 e a recessão em muitos sectores da economia, a receita operacional líquida da Vale S.A. neste ano alcançou um total de R$ 293,5 bilhões, um aumento de R$ 87,4
bilhões face a 2020 (Relatório de Administração, 2021). Em 2021 a Vale S.A. obteve um lucro de R$ 121,2 bilhões, um aumento de R$ 94,5 bilhões face aos R$ 26,7 bilhões alcançados em 2020. (op.cit. p.7)

Relativamente à remuneração dos accionistas, houve um pagamento extraordinário para remuneração dos accionistas no valor de R$ 2,19 por acção.Houve igualmente um pagamento de dividendos no valor de R$ 8,20 por acção. (op.cit. p.32)

A Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale, accionista crítico da Vale S.A. no seu relatório de 2021 mencionou que entre os anos 2015 e 2020, a Vale distribuiu aos seus accionistas mais de R$ 64 bilhões, referente a juros sobre capital próprio e dividendos.

A notoriedade dos lucros alcançados pela Vale S.A. durante os últimos anos e, de forma particular, no período de propagação da COVID-19 no Brasil e no mundo foi às custas do desrespeito pela vida humana. A Vale afirma que faz parte dos seus valores colocar a vida em primeiro lugar, sendo mais importante do que resultados e bens materiais, e afirma ainda que esta visão é incorporada nas suas decisões de negócio. Entretanto, a sua prática é completamente inconsistente com os valores que afirma defender.

Em 2019 houve o rompimento da barragem I da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, Minas Gerais, tendo este sido o segundo maior desastre socioambiental ocorrido no Brasil pela Vale. O rompimento desta barragem é o resultado da desvalorização da vida e da dignidade humana pela Vale, uma vez que a empresa tinha o conhecimento da falta de estabilidade da barragem I e da probabilidade de ocorrência de um rompimento a qualquer momento.

Entre 2017 e 2018, a Vale S.A. contratou especialistas independentes com vista a avaliar a “governança”, os processos, os estudos, os projectos e as análises técnicas de geotecnia e hidrologia (Ragazzi e Rocha, 2019). Maria Regina Moretti apresentou, para um painel Independente de Especialistas de Segurança e Gestão de Risco de Estruturas Geotécnicas e para funcionários da Vale e de outras empresas terceirizadas, que a Barragem I tinha um Factor de Segurança (FS) para liquefacção em condição não drenada de 1,06 que, posteriormente, foi fixada em 1,09 – nível este muito abaixo do índice de 1,3 que foi apresentado nos últimos relatórios de estabilidade e também considerado o mínimo recomendável pela literatura internacional. (op.cit. 78)

Com efeito, quando o FS se encontra entre 1,00 e 1,10 significa que está em condição de emergência e pode ocorrer uma ruptura a qualquer momento; e quando o FS está acima de 1,50, o FS encontra-se em estado normal (op.cit. 79). Foi, neste âmbito, que as investigações da Polícia Federal do Brasil revelaram a prática de duas infracções.

A primeira diz respeito às informações manipuladas contidas nos documentos de Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) produzidos em Junho e em Setembro de 2018. As DCEs determinaram um FS mínimo de 1,05 para a barragem I de Brumadinho, um limiar muito abaixo dos padrões adoptados internacionalmente, de forma a validar o FS de 1,09 identificado nesta barragem. Paradoxalmente, as outras barragens da Vale tinham o FS mínimo de 1,3, como prevê a literatura do sector de mineração e como tinha sido recomendado pelos especialistas durante os painéis realizados em 2017 e 2018 (op.cit. 197). A segunda infracção foi o uso de documentos falsos no momento de registo das declarações de estabilidade, com a assinatura de funcionários da Vale e da Tuv Sud, junto à Fundação Estadual de Meio Ambiente e ao Departamento Nacional de Produção Mineral, actual Agência Nacional de Mineração (ANM). (op.cit. 198)

Como resultado das infracções cometidas pela Vale, dois anos após a apresentação de Maria Moretti, no dia 25 de Janeiro de 2019 houve uma ruptura na Barragem I da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho. Esta ruptura resultou na liberação de cerca de 13 milhões de m³ de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba, o que consequentemente levou ao soterramento de duas barragens (B-IV e B-IVA) (AIAAV, 2021). A negligência em relação às reais condições da barragem B-I, levou à morte de 272 pessoas e 11 permanecem desaparecidas, das quais 240 eram colaboradores da Vale e de empresas terceirizadas. A lama tóxica de minério percorreu mais de 250 km pela calha do rio Paraopeba até ser contida na represa de Retiro Baixo, atingindo mais de 26 municípios e destruindo totalmente o ecossistema em torno do rio (idem).

Efeitos da ruptura da barragem de Brumadinho

Rio Paraopeba após rompimento da B-I

Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil Foto: Cadu Rolim / Fotoarena / Estadão

Este foi o segundo maior desastre socioambiental do Brasil causado pelas actividades de exploração mineira da Vale, tendo anteriormente havido (em 2015) o rompimento da barragem de Mariana em Minas Gerais que levou a que 44 milhões de m³ de rejeitos tóxicos tivessem sido despejados no Rio Doce causando a morte de 20 pessoas, a destruição total do rio e de pelo menos 1.469 hectares de terras (AIAAV, 2021).

Em 2020, enquanto a pandemia do COVID-19 se propagava pelo mundo, houve registos de números assustadores de casos positivos da COVID-19 no Brasil como se pode verificar no Gráfico 1. A Vale e outras empresas da indústria extractiva no Brasil pressionaram o governo a reconhecer a essencialidade da actividade de mineração, o que permitiu o funcionamento normal da actividade de mineração durante a pandemia (op.cit. 14).

Gráfico 1 – Número de casos positivos por data da Notificação no Brasil
no período entre Março de 2020 e Fevereiro de 2021

Fonte: Secretarias Estaduais de Saúde. Brasil, 20205

O Decreto nº 10.282 de 20 de Março determinou os serviços públicos e as actividades essenciais a serem mantidos durante a pandemia no Brasil e a mineração não fazia parte da primeira publicação. Após a pressão das empresas da indústria extractiva um novo decreto foi aprovado e publicado. O Decreto Presidencial no. 10.329/2020 de 28 de Abril passou a incluir a exploração mineira entre as actividades essenciais. (op.cit. 14)

A inclusão do sector de mineração no conjunto de actividades essenciais possibilitou que a Vale S.A, em plena recessão em vários sectores da economia mundial, obtivesse um lucro de R$ 27 bilhões, o que permitiu remunerar os accionistas ao longo do ano. (op.cit. 15)

Através de um grande aparato de marketing e publicidade, a Vale S.A procurou exibir os seus esforços no combate à COVID-19 nos territórios onde exerce a sua actividade de mineração. No Brasil, afirmou ter doado cerca de R$ 500 milhões usados na compra de 5 milhões de kits de testes rápidos para a COVID-19 e de equipamentos de protecção individual (op.cit. 14). Contribuiu, igualmente, para a construção de três hospitais de campanha para responder à pandemia do COVID-19. Efectuou reformas nas unidades de saúde e apoiou na compra de material hospitalar e equipamentos usados no combate à COVID-19 (Relatório de Administração, 2020). No Estado Brasileiro de Minas Gerais, a empresa apoiou na ampliação de alas dos hospitais tendo despendido R$ 10 milhões. A Vale fez doações aos hospitais de Minas Gerais, especificamente, 924 mil equipamentos de protecção e 55 mil kits de testes rápidos, além de ambulâncias. (op.cit. p.8)

Em Moçambique, a Vale recebeu um certificado de mérito como reconhecimento do governo pela sua contribuição no combate à pandemia (Relatório de Administração, 2020). No entanto, as famílias dos bairros adjacentes à mina da Vale em Moatize fizeram relatos de apreensão e sofrimento por terem sido obrigadas pela polícia local a permanecer dentro das suas residências nos meses iniciais da pandemia. Em anos anteriores, a Vale chegou a aconselhar as pessoas a se retirarem das suas casas no horário das explosões, reconhecendo o risco de desabamento. No entanto, durante a pandemia, a mineradora continuou com as explosões não obstante o risco que isto representava para a população local6.

Apesar do conjunto de acções e doações feitas pela Vale S.A. para combater a pandemia do COVID-19, a indústria extractiva e a Vale de forma particular tornaram-se num veículo de disseminação da COVID-19, contribuindo para sobrecarregar os serviços públicos de saúde e colocando a vida dos seus colaboradores em risco. A análise estatística indica que no Brasil, em Minas Gerais, os 30 municípios com maior número de casos de contaminação por COVID-19 por 100 mil habitantes eram os que tinham actividades de exploração mineira, e a Vale estava presente em cinco desses municípios (AIAAV, 2021).

A vida dos funcionários da Vale não foi colocada em primeiro lugar mesmo diante da pandemia do COVID-19, sendo importante em primeiro lugar garantir a essencialidade da mineração para a obtenção de lucros para distribuir aos accionistas, descurando da vida dos próprios trabalhadores que, muitas vezes, ao se encontrarem aglomerados eram vectores de disseminação do vírus.

TRANSFORMANDO OS RECURSOS NATURAIS EM PROSPERIDADE – EM PREJUÍZO DAS COMUNIDADES LOCAIS Em Moçambique, as operações da Vale implicaram o reassentamento das comunidades locais, entre os anos 2009 e 2010. 1365 agregados familiares foram reassentados em Cateme, aldeia construída para o efeito, e para o bairro 25 de Setembro (Human Rights Watch, 2013).

A Human Right Watch lançou um relatório em 2013 com o título “O que é uma casa sem comida?” que reflecte sobre os processos de reassentamentos ocorridos na província de Tete como resultado da exploração de carvão pela Vale, Rio Tinto, Jindal Steel and Power Limited.

Este relatório apresenta uma série de evidências dos problemas e impactos dos processos de reassentamento em Tete, tais como a interferência no direito à alimentação e uma redução na auto-suficiência, alocação de terras de baixa qualidade e a baixa produção como resultado, atrasos no fornecimento de terras prometidas para a prática de agricultura como meio de compensação, perda de outras fontes derendimento em dinheiro, abastecimento de água incerto e insuficiente, casas com rachas e infiltrações, e participação limitada da comunidade nas decisões de reassentamento.

Má qualidade de obras em Cateme

Terra de baixa qualidade

Foto: Issufo Tankar Foto: Issufo Tankar

No Peru, a Vale obteve licenças de exploração sem aprovação dos proprietários envolvidos e a licença ambiental foi obtida sem cumprir com todos os requisitos. Além disso, as actividades da empresa tiveram um impacto negativo nos meios de subsistência das comunidades locais pois o local de exploração da jazida de fosfato sobrepunha-se à área da comunidade de agricultores de San Martin de Sechura (Saes e tal, 2021). No âmbito da exploração da jazida de fosfato houve registos de derramamento de fosfato na Baia Parachique afectando a produção de vieiras. Além disso, a poluição do ar afectou a saúde dos trabalhadores da Caleta de Puerto Rico.

A Vale é responsável por impactar negativamente as comunidades locais nos lugares onde exerce as suas actividades de mineração. Há registos de conflitos socioambientais no Brasil, no Peru, na Austrália, na Indonésia, no Canadá, em Moçambique, na Nova Caledónia, na Argentina, na Malásia e na Guiné resultantes das suas actividades (idem). Geralmente, os grupos impactados pela Vale são as camadas mais desfavorecidas, sendo que as suas vidas e meios de subsistência são afectados pela degradação do meio ambiente e pela usurpação da terra resultante das actividades da Vale (idem).

Sales et al (2021) concluem que o discurso de responsabilidade social corporativa da Vale contrasta com as suas práticas, pois estas reproduzem injustiças sociais e ambientais. Verifica-se uma coexistência entre o discurso de padrões elevados de sustentabilidade e de compromisso com as populações locais, e uma multiplicidade de conflitos socioambientais no sector da mineração.

O VELHO HÁBITO DE SE RETIRAR DO NEGÓCIO SEM COMPENSAR AS COMUNIDADES PELOS DANOS SOCIAIS, ECONÓMICOS E AMBIENTAIS

A empresa Vale S.A. afirma que as suas metas de sustentabilidade se encontram alinhadas com as Metas de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. Na prossecução destas metas a empresa estabeleceu que, no âmbito da sua contribuição, a questão das mudanças climáticas pretende alcançar a seguinte meta: reduzir as emissões absolutas de gases de efeito estufa (GEE) de escopos 1 e 2 em no mínimo 33%, em conformidade com o Acordo de Paris, e ser neutra em carbono até 2050. (Relatório de Administração, 2020)

No início de 2021, o Conselho de Administração da Vale comunicou a sua decisão de desinvestir no negócio de carvão em Moçambique, alegadamente em conformidade com a sua estratégia de alinhamento à agenda de mudanças climáticas no que se refere à transformação para uma empresa de mineração de baixo carbono. (op.cit)

É, neste âmbito, que o Presidente da Vale, Eduardo Bartolomeo, disse: “Tenho o prazer de anunciar este importante passo para o desinvestimento responsável de Moatize e CLN, numa transacção que beneficia as comunidades e governos onde essas operações estão localizadas e oferece um futuro sustentável para as operações. Esta é mais uma conquista do nosso compromisso de reshape da nossa empresa, com foco nos nossos principais negócios7”.

No entanto, outros motivos estarão por detrás deste desinvestimento. A exploração do carvão de Moatize ficou sempre aquém das projecções feitas pela mineradora, que nunca chegou a atingir os esperados 100 milhões de toneladas por ano. Em várias ocasiões, a Vale declarou que os níveis de produção da mina de Moatize estavam abaixo dos níveis mínimos para cobrir os custos do negócio, o que leva a crer que esta saída está mais relacionada com factores económicos do que com compromissos ambientais8.

Nesta senda, no final do mesmo ano, a Vale anunciou a celebração de um acordo com a empresa Vulcan para a venda da mina de carvão de Moatize e o Corredor Logístico de Nacala (CLN) num valor total de US$ 270 milhões, constituído por US$ 80 milhões na conclusão da transacção e 190 milhões do negócio existente até à conclusão. Celebrou igualmente outro Acordo de Royalty de 10 anos sujeito a certas condições de produção da mina e preço do carvão9. A conclusão da venda está dependente do cumprimento de condições precedentes usuais, assim como da aprovação pelo Ministério de Recursos Minerais e Energia de Moçambique (MIREME), bem como da aprovação do Governo de Moçambique nos termos dos Contratos de Concessão para a mudança de controlo e antitrust10.

A venda da mina de Moatize e do CLN ocorre num momento em que existem inúmeros processos legais em curso no Tribunal Administrativo da Cidade de Maputo e no Tribunal Administrativo da província de Tete, que buscam obrigar a empresa a disponibilizar materiais de interesse público (relatórios de desempenho ambiental, acordos celebrados com as comunidades locais e o governo, etc.) bem como a compensar e indemnizar grupos de oleiros e outras pessoas expropriadas pelas suas actividades. Muitas famílias aguardam por compensações e reparo de danos, há famílias que vivem nas proximidades da mina e que estão há muitos anos à espera de serem reassentadas pela Vale, estando expostas a riscos de doenças devido à poluição, stress e violência (AIAAV, 2021; ADECRU et al, 2022). Há muitos oleiros e camponeses que foram removidos das suas terras e perderam os seus meios de subsistência, e permanecem sem ser compensados.

Foi neste contexto de incumprimento de indemnizações e compensações pela Vale Moçambique que o representante da comissão de oleiros de Nhankweva, Nordino Timba Chaúque, disse “desde longa data, aproximámo-nos da Vale para podermos discutir sobre estes pagamentos. A empresa prometeu que iria pagar-nos a todos – um grupo de 571 oleiros, e cada um iria receber 125 mil meticais. Paralisámos as nossas actividades. Apenas pagaram as camionetas que estavam lá a retirar os tijolos do sítio onde eles ocuparam para outro lado. Não fomos indemnizados11”.

Após muita contestação por parte da sociedade civil e das comunidades afectadas pelas actividades da empresa, a Vale Moçambique informou que iria compensar e reparar os danos às comunidades do distrito de Moatize, acrescentando que o que não fosse feito por eles seria feito pelo novo dono da mina12. Este posicionamento da empresa surge também poucos dias após organizações da sociedade civil em Moçambique terem enviado uma carta13 ao Ministério dos Recursos Naturais e Energia e ao governo de Moçambique apelando para que o processo de venda da Vale fosse travado até que a empresa resolvesse todos os seus pendentes e reparasse todos os danos causados, bem como exigindo a disponibilização ao público de todos os Memorandos de Entendimento celebrados entre a Vale Moçambique e o Governo de Moçambique, no contexto do desinvestimento da Vale.

Não obstante esta pressão feita por mais de 29 grupos e organizações de representação local e nacional, a 23 de Março de 2022 o Ministério de Recursos Minerais e Energia emitiu um despacho comunicando a sua decisão de autorizar a transmissão indirecta dos activos da Vale Moçambique para a empresa Vulcan Resources, sem dar qualquer satisfação a respeito das questões levantadas pela sociedade civil na carta enviada a esta instituição nem esclarecer de que forma serão resolvidas as pendências que a Vale deixa para trás.

A empresa Vale S.A. possui um histórico de vender os seus activos de projectos sem reparar os danos ambientais ou compensar as comunidades que são afectadas pelas suas actividades. A título de exemplo, no Brasil, a Vale vendeu a sua participação na ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) sem compensar as comunidades locais que tinham sido afectadas. Associações de pescadores têm processos contra a Vale nos quais exigem compensações, e há também 238 processos iniciados pela Defensoria Pública objectivando a reparação de danos pelas operações da TKCSA sobre os moradores que vivem nas proximidades da planta siderúrgica (AIAAV, 2021).

Noutros países da América Latina, a empresa vendeu projectos de mineração sem compensar as comunidades pela degradação ambiental, como é o caso das suas explorações de cobre no Chile, de fosfato no Peru e de potássio na Argentina. (op.cit)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A empresa Vale S.A. nos seus relatórios de administração e de sustentabilidade afirma que incorpora a sustentabilidade nos seus negócios através da construção de um legado social, ambiental e económico. Afirma ainda ser uma empresa que segue os padrões mais elevados de responsabilidade social corporativa, assim como reitera o seu compromisso com o cuidado do planeta, alegando desenvolver uma mineração ambientalmente responsável. É igualmente veiculado nos seus relatórios que a empresa está comprometida com os Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos, busca um bom relacionamento com as comunidades dos locais onde desenvolve as suas actividades e actua em unidades de conservação em regiões de alto valor de biodiversidade. No entanto, estas declarações de boas intenções não se verificam na prática.

A Vale tem um legado de destruição e degradação ambiental, injustiças e violência em todos os territórios onde exerce as suas actividades de exploração mineira. As comunidades locais têm sido afectadas pelas actividades de exploração mineira de variadas formas, o que resulta invariavelmente em várias reclamações e reivindicações, e processos em tribunal contra a empresa onde são exigidos o reparo de danos e compensações.

Os impactos causados pela Vale, bem como as suas negligências, vão muito além dos aqui mencionados, e não se configuram como casos isolados ou pontuais. Estes impactos são resultado do modus operandi da empresa nos territórios onde explora os recursos naturais e os seus trabalhadores, em cumplicidade com autoridades locais e elites políticas e económicas, e da sua política implícita de privilegiar o lucro em detrimento da vida e do meio ambiente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

AIAAV (2021) Relatório de Insustentabilidade 2021, AIAAV. Acedido em Fevereiro de 2022 e disponível em https://atingidosvale.com/relatorios/relatorio-insustentabilidade-2021/

APIB e Amazon Watch AMAZON WATCH. Cumplicidade na Destruição III; Brasília: APIB e Amazon Watch, 23 de Setembro de 2020. Acedido em Fevereiro de 2022. Disponível em amazonwatch.org/assets/files/2020-cumplicidade-na-destruicao-3.pdf

Canal Moz (2022) “Vale Moçambique diz que vai cumprir compromissos com o Governo e comunidades antes de abandonar a mina de Moatize Diz também que o que não for feito será continuado pelo novo dono da mina” in Jornal Canal Moz, diário digital, Ano 11 | número 3157 Maputo, Quinta-feira 24 de Fevereiro de 2022

ADECRU et al (2022) “Carta Aberta ao MIREME e ao Governo de Moçambique a Respeito da Venda da Vale Moçambique”, por 29 Organizações da Sociedade Civil Moçambicana, Quinta-feira 17 de Fevereiro de 2022. Acedido em Fevereiro de 2022 e disponível em https://justica-ambiental.org/2022/02/17/carta-aberta-ao-mireme-e-ao-governo-de-mocambique-a-respeito-da-venda-da-vale-mocambique

Elliot, J. (2013) An Introduction to Sustainable Development; New York:Routledge, 4th ed.

Human Right Watch (2013) “O que é uma Casa sem Comida?” – O Boom da Mineração de Carvão e o Reassentamento, acedido em Fevereiro de 2022 e disponível em https://landportal.org/library/resources/978-1-6231-30152/o-que-%C3%A9-uma-casa-sem-comida

Mestanza-Ramón, C. et al (2022) “History, Socioeconomic Problems and Environmental Impacts of Gold Mining in the Andean Region of Ecuador”. International Journal of Environmental Research and Public Health 2022, 19, 1190. Disponível em https://doi.org/10.3390/ijerph19031190

Mosca, J. (2022) “Tatenda Vale, que te vais embora!” Destaque rural nº158, Observatório do Meio Rural

Ragazzi, L. Rocha, M. (2019) Brumadinho: A Engenharia de Um Crime; Letramento.

Relatório de Administração 2019, Vale S.A. Acedido em Fevereiro 2022 e disponível em http://www.vale.com/PT/investors/informationmarket/quarterlyresults/ResultadosTrimestrais/RELATORIO%20DA%20ADMINISTRACAO%202019_p_vf.pdf

Relatório de Administração 2020, Vale S.A. Acedido em Fevereiro 2022 e disponível em http://www.vale.com/PT/investors/informationmarket/quarterlyresults/ResultadosTrimestrais/RELATORIO%20DA%20ADMINISTRACAO%202020_p_vf.pdf

Relatório de Administração 2021, Vale S.A. Acedido em Fevereiro 2022 e disponível em http://www.vale.com/PT/investors/informationmarket/quarterlyresults/ResultadosTrimestrais/RELATORIO%20DA%20ADMINISTRACAO%202021_p_vf.pdf

Valoi, E. (2022) Um Cerco Letal de Carvão: O presente envenenado da VALE para Moçambique; disponível em: https://justica-ambiental.org/2022/01/19/um-cerco-letal-de-carvao/

Villas Bôas, H. (2011) A Indústria Extractiva Mineral e a Transição para o Desenvolvimento Sustentável; Rio de Janeiro, CETEM.

1 Ver http://www.vale.com/mozambique/pt/Paginas/default.aspx

2 Idem.

3 A Vale S.A. afirma nos seus relatórios estar com os mais elevados padrões de responsabilidade social, estando comprometida com o valor à vida, a preocupação com o planeta e os objectivos de desenvolvimento sustentável, respeito aos direitos humanos e um relacionamento saudável com as comunidades indígenas e tradicionais.

4 Ver também Mansaray, Tang e Bangura (2019) “The Environmental and Socio-Economic Impacts of Mining on Local Livelihoods In Sierra Leone: A Case Study of Tonkolili District” International Journal of Research in Business Studies and Management Volume 6, Issue 3, 2019, PP 12-18

5Disponível em https://covid.saude.gov.br/

6Informações fornecidas por moradores dos bairros de Bagamoyo, Liberdade e Nhantchere à organização Justiça Ambiental durante o seu trabalho no distrito de Moatize, no período entre Janeiro de 2019 e Setembro de 2020

7Disponível em http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Paginas/vale-anuncia-a-venda-de-seus-ativos-de-carvao.aspx

8Ver Mozambique News Reports & Clippings disponível em – https://bit.ly/Moz-585; ver também https://forbes.com.br/negocios/2020/02/vale-tem-prejuizo-de-us-156-bilhoes-no-4o-trimestre-com-baixas-contabeis-e-brumadinho/; ver também https://noticias.mmo.co.mz/2014/06/vale-com-prejuizos-de-44-milhoes-de-dolares-so-no-primeiro-trimestre.html

9Disponível em http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Paginas/vale-anuncia-a-venda-de-seus-ativos-de-carvao.aspx

10 Idem

11 Valoi, E. (2022) Um Cerco Letal de Carvão: O presente envenenado da Vale para Moçambique, disponível em https://justica-ambiental.org/2022/01/19/um-cerco-letal-de-carvao/

12

“Vale Moçambique diz que vai cumprir compromissos com o Governo e comunidades
antes de abandonar a mina de Moatize Diz também que o que não for feito será continuado pelo novo dono da mina” in Jornal CanalMoz, diário digital, Ano 11 | número 3157 Maputo, Quinta-feira 24 de Fevereiro de 2022

13 Disponível em https://justica-ambiental.org/2022/02/17/carta-aberta-ao-mireme-e-ao-governo-de-mocambique-a-respeito-da-venda-da-vale-mocambique/

A 7 de Abril, celebramos todas as mulheres moçambicanas! Celebramos a força, a perseverança, a enorme capacidade de superação, de manter a esperança e o sorriso apesar dos inúmeros desafios que persistem ainda hoje, quase 47 anos após a independência nacional!

Milhares de mulheres moçambicanas ainda lutam pelos mais básicos dos direitos, entre estes o direito à alimentação adequada, o direito à proteção e segurança, o direito à opinião, o direito à terra e não menos importante o direito a dizer Não a projectos de investimento e a modelos de desenvolvimento que as excluem, e que as desapropriam de suas terras, seus meios de vida e da sua dignidade! A todas estas mulheres moçambicanas nos juntamos hoje e sempre, para que o dia da Mulher Moçambicana não seja somente um dia de discursos e capulanas bonitas, que seja de facto um dia onde se celebra a resistência feminina, onde se celebra a igualdade de direitos, e a força da mulher Moçambicana!

Hoje, em celebração ao dia da Mulher Moçambicana lançamos o documentário “Impactos das Plantações de Monocultura na vida das Mulheres Rurais”.

As plantações de monocultura representam um dos inúmeros investimentos que tem sido largamente promovido pelo governo de Moçambique sob o falso pretexto de desenvolvimento económico e ainda de contribuir para a mitigação das mudanças climáticas, apesar das inúmeras evidências em contrário, e dos visíveis e graves impactos negativos sobre as mulheres rurais.

Hoje, lançamos ainda o livro “Sonhos – Com o que sonham as Mulheres Rurais em Moçambique?”, disponível através do link aqui

Este foi sem dúvida um enorme desafio e aprendizagem para todos os envolvidos, pois acreditamos ser simples saber com o que sonham as mulheres no nosso país, no entanto, muito rapidamente percebemos que muitas mulheres simplesmente deixaram de sonhar, as inúmeras e tão urgentes necessidades do dia a dia, não permitem sonhar mais do que apenas com escola para seus filhos, mercado para os seus produtos da machamba, oportunidades de trabalho para melhorar a sua vida, muitas outras deixaram de sonhar! Os sonhos de muitas mulheres passaram a ser apenas garantir o básico! Não podemos deixar que matem os sonhos das mulheres!

Viva a Mulher Moçambicana!

7 de Abril, 2022

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Camponeses “sem terra” queixam se de fome em Namariessa

Os camponeses da zona de Namariessa, comunidade de Namale, distrito de Ribaué, na província de Nampula, queixam-se de estar a viver momentos muito difíceis por terem supostamente cedido as suas terras à empresa Promo Comercial. Segundo os membros contam os representantes da empresa enganaram-nos para que cedessem as suas terras.

Os afectados contam que tudo começou no mês de Outubro de 2021, quando a empresa simulou uma consulta comunitária na comunidade de Namariessa. No referido encontro, estiveram presentes o director das actividades económicas, a chefe do Posto Administrativo de Ribáuè sede, chefe da Localidade de Chicá e o líder comunitário de Namale que solicitou à comunidade para se fazer presente no encontro.

“Quando nos chamaram para participar naquele encontro, contávamos que era apenas para tratar questões da nossa comunidade. Depois de assinarmos a lista de presença, cada participante recebeu dessa empresa 46 meticais por participar no encontro. Foi neste momento que nos disseram que a nossa terra já tinha sido comprada pelo governo local” relatou um membro da comunidade.

Segundo contam os camponeses afectados, alguns dias após o encontro, que afinal era consulta comunitária, a empresa voltou à comunidade com um trator e sem mais começou a destruir as machambas, alegadamente a limpar a “sua área”, e só depois de destruir é que organizaram um encontro para proceder ao pagamento de compensação pelas machambas. “Não havia alternativa, aqui era aceitar o dinheiro ou perder a terra e o dinheiro. Diziam que o valor que a empresa trazia era pagamento dos esforços que fizemos na preparação das nossas machambas e não pelas compensações das terras perdidas e os produtos nelas existentes” Explicou Jonas que perdeu sua machamba onde produzia tomate para comercialização. No dia em que foram levados a cabo os pagamentos, que a comunidade considera ilegal e injusto, alguns camponeses dizem ter mostrado os seus títulos de Direito do Uso e Aproveitamento de terra (DUAT), mas os mesmos foram ignorados justificando que estavam expirados.

A empresa ignorou o facto das machambas terem ainda produtos por colher, mesmo perante os apelos dos camponeses, membros da comunidade, esta não deu oportunidade para que os mesmos retirassem os seus produtos. Ali permaneceram a observar enquanto o tractor destruía tudo quanto tinham plantado. Os camponeses contam ainda que como se não bastasse ficar a assistir a destruição das suas machambas ainda foram ameaçados pelos trabalhadores da empresa, que enquanto destruíam proferiam palavras como “Saiam daqui. Não há nada que vos pertence porque vocês já foram pagos”.

Eu perdi 5 machambas que me ajudavam na alimentação de 41 pessoas da minha família”

Mário Rodrigues, um dos afectados pela Promo Comercial, diz ter perdido 5 machambas, onde produzia, milho, tomate, repolho e couve. Segundo o mesmo, ele ocupou o espaço para prática agrícola há cerca de 7 anos, e são os produtos das suas machambas, que permitem sustentar 41 pessoas da sua família, bem como assegurar material escolar e escola para as crianças. Descreveu ainda o cenário de fome que vive junto a sua família neste momento e da falta de alternativas para superar a situação em que foram colocados.

Doeu-me ver meu milho a ser pisado e destruído pelos trabalhadores deles que nem sabem o sacrifício que fiz para colocar aquele produto na terra” partilhou Rodrigues com um olhar cheio de lágrimas.

Os camponeses que perderam as suas machambas, revoltam-se e acusam o governo do distrito de Ribaué de ter participado nesta ação que deixou 40 famílias sem terra para a prática de agricultura, a sua principal actividade. Os mesmos alegam ainda que representantes do governo do distrito, tiveram reunidos com o líder da comunidade antes da suposta consulta comunitária para o convencer a facilitar o processo e juntos delinearam a estratégia para enganar a comunidade. Os afectados afirmam que no dia da suposta consulta comunitária a empresa veio apenas “informar” que já tinham adquirido aquelas terras junto do governo, e que o encontro foi organizado apenas para decidirem sobre o valor a pagar a cada um pelo trabalho que fez naquelas terras.

Estes camponeses querem as suas terras de volta. Os mesmos dizem não ter qualquer outra forma de subsistência a não ser as suas machambas. Afirmam ainda que as comunidades vizinhas tem se recusado a ceder espaço para os afectados produzirem.

O trator da empresa encontra-se a lavrar a terra em conflito e os camponeses estão a organizar-se para contestar a situação e reaver as suas terras.

JA!

Pelo menos 132 mil milhões de dólares em financiamento para combustíveis fósseis estão a bloquear África de uma Transição Justa, mostra novo relatório

Países Africanos mantidos em estrangulamento de combustíveis fósseis por dinheiro do exterior

3 de Março de 2022 – O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, publicado na segunda-feira, 28 de Fevereiro, confirma uma vez mais que a crise climática afecta desproporcionadamente os países Africanos. Demonstra ainda que os impactos climáticos se agravarão mais cedo do que anteriormente previsto e que a acção mundial é mais urgente do que anteriormente avaliada. No entanto, África é palco de um número crescente de projectos de petróleo, gás e carvão. Uma nova pesquisa publicada hoje pela BankTrack, Milieudefensie, Oil Change International e 19 parceiros Africanos (1), incluindo a 350Africa, a Alliance for Empowering Rural Communities (AERC) do Gana e a WEP Nigeria, revela os milhares de milhões de dólares em financiamentos, a maioria provenientes de instituições financeiras Europeias, Asiáticas e Norte-Americanas, que estão a colocar o continente em risco de ficar preso aos combustíveis fósseis, apesar do seu enorme potencial para as energias renováveis. Como resultado, África corre o risco de não conseguir dar o salto necessário a tempo para as energias sustentáveis.

Biliões de dinheiro de combustíveis fósseis no exterior

Entre 2016, na sequência da adopção do Acordo Climático de Paris, e Junho de 2021, instituições financeiras públicas e privadas investiram pelo menos 132 mil milhões de dólares em empréstimos e subscrição de 964 projectos de gás, petróleo e carvão na África Ocidental, Oriental, Central e Austral. A grande maioria deste financiamento veio de instituições financeiras sediados fora de África, tanto bancos comerciais como instituições públicas, tais como bancos de desenvolvimento e Agências de Crédito à Exportação.

  • Das 15 principais instituições financeiras por trás desta soma, 10 são bancos comerciais e cinco são instituições financeiras públicas.
  • A maioria dos maiores financiadores de combustíveis fósseis são da América do Norte e da Europa, em particular dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A JPMorgan Chase, o Standard Chartered e o Barclays estão todos entre os 5 primeiros.
  • O maior financiador individual de projectos e empresas de combustíveis fósseis em África neste período é o Banco de Desenvolvimento da China.

Os sediados na América do Norte, Europa e Austrália forneceram juntos 73 mil milhões de dólares em apoio financeiro, 55% do total. As instituições financeiras baseadas na Ásia, na sua maioria da China e do Japão, forneceram 42 mil milhões de dólares do montante total, o que equivale a 32%. Em contraste, as instituições financeiras sediadas em África forneceram apenas 15 mil milhões de dólares, ou 11% do financiamento.

O mito do desenvolvimento

A indústria dos combustíveis fósseis, bem como os financiadores, afirmam frequentemente que os projectos de combustíveis fósseis contribuem para o desenvolvimento económico e social de África, no entanto, a evidência dos projectos destacados neste estudo, incluindo o Moçambique LNG e o Offshore Cape Three Points no Gana, indicam que se trata de um mito. Apesar dos muitos desenvolvimentos de combustíveis fósseis, África continua a ser o continente com a maioria das pessoas a viver na pobreza energética. Maus termos contratuais, armadilhas de dívida e propriedade desproporcional por parte de multinacionais estrangeiras significam que a indústria serve principalmente os interesses de empresas e nações fora de África, com o povo e os governos Africanos a suportar os riscos. Em vez de trazer desenvolvimento, os projectos de combustíveis fósseis geralmente têm impactos graves nas comunidades locais e no meio ambiente. Os novos projectos de combustíveis fósseis também correm o risco de prender os países à dependência dos combustíveis fósseis. Os activos irrecuperáveis combinados com uma crescente dívida nacional e défices governamentais, poderiam gerar um perigoso efeito cascata que levaria a um desemprego maciço e a um aumento da pobreza, prendendo os países num ciclo vicioso de pobreza nas próximas décadas.

Riscos para o sector financeiro

Para as instituições financeiras, prestar apoio financeiro a projectos de petróleo, gás e carvão está também a tornar-se cada vez mais um risco. Com a transição energética a acelerar e os custos de produção de energias renováveis a diminuir rapidamente em comparação com os combustíveis fósseis, estes projectos estão cada vez mais em risco de acabar como activos irrecuperáveis. Entretanto, os litígios sobre mudanças climáticas em todo o mundo estão a forçar as empresas a reduzir a sua produção de emissões. E o risco de danos à reputação tem sido agravado nos últimos anos pela falta de transparência, corrupção, fluxos financeiros ilícitos e graves violações ambientais e dos direitos humanos que caracterizam este sector em África. Além disso, a incapacidade de limitar o aquecimento global representará uma ameaça sistémica para todo o sistema financeiro mundial.

Uma Transição Justa para África

Os parceiros Africanos deste relatório, bem como publicações recentes de redes Africanas e organizações da sociedade civil, sublinham que as injustiças que têm assolado o continente Africano por tanto tempo persistirão sem uma abordagem de Transição Justa para as energias renováveis – uma abordagem enraizada em justiça ambiental, social, política, económica e de género. Como tal, o relatório apresenta oito Princípios para uma abordagem transformadora de Transição Justa para as energias renováveis.

Numa Transição Justa, não há eventualmente lugar para os combustíveis fósseis. As instituições financeiras públicas e privadas devem cessar imediatamente o apoio financeiro a novos projectos de petróleo, gás e carvão e eliminar gradualmente o apoio existente aos combustíveis fósseis. Em vez disso, o financiamento deve ser redireccionado para fontes de energias renováveis, tais como as energias solar e eólica. Uma Transição Justa requer ainda uma mudança de propriedade destas fontes de energias renováveis de grandes multinacionais para comunidades Africanas.

Legislação nacional e internacional

Uma reviravolta tão grande exige uma legislação rigorosa dos governos de todo o mundo sobre os direitos humanos obrigatórios e a devida diligência ambiental para garantir que os erros da era dos combustíveis fósseis não se repetirão, dando aos países Africanos a perspectiva de um futuro verde, resiliente e sustentável.

Landry Ninteretse, Director Regional da 350Africa.org: “Os Africanos estão a sofrer graves impactos climáticos impulsionados pelas elevadas emissões dos maiores poluidores do mundo desenvolvido. Os países ricos da Europa, América do Norte, Ásia Oriental e Austrália, historicamente grandes emissores, têm não só a responsabilidade de financiar os planos de Transição Justa e de transição energética que os países Africanos se estão a comprometer a implementar, mas também de parar quaisquer novos investimentos na indústria dos combustíveis fósseis. É hora dos governos e instituições financeiras matarem à fome os combustíveis fósseis e redireccionarem o financiamento para esta transição para as energias sustentáveis e limpas, em vez de prenderem as nações Africanas à dependência dos combustíveis fósseis”.

Henrieke Butijn, defensora do Clima e pesquisadora da BankTrack e principal autora do relatório: “Bancos comerciais como o JPMorgan Chase e o Standard Chartered podem fazer todas as promessas Net-Zero que quiserem, mas estas promessas não conduzirão automaticamente às tão necessárias medidas a curto prazo para acabar com o financiamento de combustíveis fósseis e muito menos a uma verdadeira Transição Justa. Os bancos precisam de começar a pensar além do desinvestimento nos combustíveis fósseis e nas energias renováveis como a nova oportunidade de negócio, e concentrarem-se no que verdadeiramente beneficia os países e as comunidades Africanas agora e a longo prazo”.

Isabelle Geuskens, Oficial Sénior do Programa Transição Justa da Milieudefensie e principal autora do relatório: “África é o continente com maior potencial de energias renováveis. Mas não tem sido capaz de o explorar e construir em direcção a um futuro mais resiliente e sustentável de que necessita urgentemente, dados os muitos desafios climáticos que enfrenta e continuará a enfrentar. Entretanto, as nossas instituições financeiras e indústrias continuam a alimentar o mito do desenvolvimento dos combustíveis fósseis e a investir milhares de milhões de dólares em novos projectos de combustíveis fósseis, prendendo o continente à dependência dos combustíveis fósseis e a um futuro encalhado. Uma Transição Justa para África significa parar o financiamento dos combustíveis fósseis e contribuir para um futuro de energias renováveis que beneficie, antes de mais, os Africanos”.

Anabela Lemos, Directora da JA! Justiça Ambiental/Amigos da Terra Moçambique: “Moçambique e o seu povo estão na trágica situação de serem devastados tanto pelas causas como pelos efeitos da crise das mudanças climáticas. Uma das principais causas da crise climática é a indústria extractiva, e neste momento a corrida ao gás em Moçambique está a causar usurpação de terras, destruição de meios de subsistência, violações dos direitos humanos, militarização e conflitos. Ao mesmo tempo, Moçambique é um dos países mais afectados pelos impactos das mudanças climáticas, com cheias, ciclones e secas crescentes que já mataram, deslocaram e afectaram centenas de milhares das pessoas mais vulneráveis e mais pobres. Temos de quebrar este ciclo de injustiça e desumanidade, travando os projectos de gás em Moçambique e em todo o mundo”.

Aly Marie Sagne, Director e fundador da Lumière Synergie pour le Développement (LSD): “África está a sofrer os graves impactos da crise climática enquanto, ao mesmo tempo, líderes Africanos como o Presidente Sall do Senegal estão a defender uma falsa solução sobre “uma transição energética tendo em conta os investimentos em petróleo e gás”. Entretanto, o Banco Africano de Desenvolvimento, a principal Instituição Financeira de Desenvolvimento do continente, está a navegar entre as opções de financiamento de energia verde e suja. A LSD acredita que cada grau de emissão adicional de CO2 conta e que uma transição energética justa em África deveria, portanto, estar a afastar-se dos combustíveis fósseis. A LSD está a pressionar o BAD para aumentar a proporção de projectos de energias renováveis na sua carteira para 70% até 2025!”

Bronwen Tucker, Co-Manager da Campanha de Financiamento Público na Oil Change International: “Os recursos e os lucros dos projectos de combustíveis fósseis em África têm fluido esmagadoramente para fora do continente, em vez de fornecerem acesso à energia ou bens públicos. Agora, os países ricos estão a travar um futuro arriscado e desigual no continente, continuando a financiar quatro vezes mais combustíveis fósseis do que as energias renováveis com as suas instituições financeiras públicas. Estes governos têm de sair do caminho de uma transição justa em África, pondo fim ao seu financiamento de combustíveis fósseis e aumentando drasticamente, em vez disso, o seu financiamento climático e o cancelamento da dívida”.

LINK PARA O RELATÓRIO (em inglês) – https://en.milieudefensie.nl/news/07-md-banktrack-fossil-fuels-africa-rpt-hr.pdf

Nota para os editores

  1. Os parceiros Africanos são: 350Africa.org, AFIEGO do Uganda, Africa Coal Network, Alerte Congolaise pour l’Environnement et les Droits de l’Homme (ACEDH) da RDC, Alliance for Empowering Rural Communities (AERC) do Gana, Centre for Alternative Development do Zimbabué, Environment Governance Institute (EGI) do Uganda, Amigos da Terra Gana, Amigos da Terra Togo, Innovation for the Development and Protection of the Environment (IDPE) da RDC, Justiça Ambiental!/Amigos da Terra Moçambique, Laudato Si’ Movement, Lumière Synergie pour le Développement (LSD) do Senegal, Save Okavango (SOUL), Solidarité pour la Réflexion et Appui au Développement Communautaire (SORADEC) da RDC, Synergie de Jeunes pour le Développement et les Droits Humains (SJDDH) da RDC, Women Environmental Programme Nigeria, WoMin e Zimbabwe Environmental Law Association (ZELA).

Contactos:

Henrieke Butijn, defensora do Clima e pesquisadora da BankTrack: henrieke@banktrack.org, +31 649229622. Baseada na Holanda.

Lynda Belaïdi, assessora de imprensa da Milieudefensie (Amigos da Terra Holanda): +31 6 386 14 206. Baseada na Holanda.

Estão também disponíveis porta-vozes para os projectos destacados. Por favor contacte Henrieke Butijn para mais informações.