Um ano de silêncio gritante: a ausência de justiça por Elvino Dias

Faz hoje, 19 de Outubro de 2025, um ano que Elvino Dias foi assassinado — brutalmente, friamente, cobardemente. Ainda hoje, não sabemos quem puxou o gatilho, quem deu a ordem para matar, nem tao pouco porquê as autoridades permanecem no silêncio.

Sabemos, todos que conviveram com o Elvino, que Elvino foi morto por ser quem era, um homem íntegro, dedicado a lutar por justiça, firme nos seus princípios e valores, e incomodo para quem lucra com a injustiça.

Elvino não era apenas um colega de trabalho, era nosso amigo. Um homem que não abaixava a cabeça para os “poderosos”, que denunciava o que precisava ser denunciado, que falava com coragem quanto tantos outros se escondem com medo. A verdade e a justiça eram o seu foco, e foi exatamente por isso que foi abatido.

Ainda é difícil lembrar o Elvino pelo homem que foi, e não pela forma como foi silenciado! Mas não vamos deixar que a tua vida se resuma a 25 tiros! A memoria deste dia continua a ser a de despertar para uma realidade horrível, a noticia de que foste assassinado… crivado de balas a mando de um bando de cobardes, que conheciam o teu valor, a tua perseverança e a tua coragem e por isso sabiam que só morto deixarias de poder continuar a lutar por justiça!

Desde então, não sabemos como estão a decorrer as investigações ou se sequer estão a decorrer. Sabemos que até ao momento nenhum mandante foi identificado, ninguém foi acusado. Não há qualquer sinal de vontade política para esclarecer o crime. E isso não pode ser tratado como coincidência, pois, temos sido testemunhas de que as vozes incomodas como a de Elvino Dias são silenciados pelas balas, a mando de um bando de cobardes.

Mesmo com medo, não nos vão calar a todos! A nossa voz vai continuar a denunciar a injustiça e a impunidade, ate que justiça seja feita.

A memória de Elvino exige mais do que homenagens: exige justiça. E enquanto essa justiça não chega, vamos continuar a lembrar Elvino, com respeito, com admiração, com dor, mas com a mesma coragem que um dia ele mesmo nos disse, “Eu sei que há um plano para me matar, mas estou pronto a morrer pela verdade”.

Elvino vive em cada um que continua a acreditar que é possível construir um pais para todos, um pais onde justiça, liberdade, direitos, igualdade não são apenas palavras para embelezar discursos vazios… Elvino vive em cada pergunta que se recusa a morrer. Elvino vive.

“Mataram-te para te silenciar… Mataram-te para nos silenciar a todos! Acreditaram que a tua Morte iria nos calar, mas enganaram-se! A tua morte despertou mais e mais vozes!!!”

Vamos continuar a exigir JUSTIÇA! Sempre!

Ate sempre Elvino!

Intercambio entre membros de comunidades afectadas por plantações industriais

“Fomos enganados”

A Justiça Ambiental, Missão Tabita e Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM)
organizaram mais um importante momento de intercambio e partilha de experiencias, que
teve lugar na Comunidade de Parrei, no Posto Administrativo de Mugulama. Os
companheiros da Comunidade de Mugulama receberam com muito interesse e entusiasmo
a visita de companheiros das Províncias de Nampula (afectadas pelas plantações da Green
Resources), Manica (afectadas pelas plantações da Portucel Moçambique) e da Província
da Zambézia (afectadas pelas plantações da Portucel Moçambique e da Mozambique
Holdings).



Os membros da comunidade de Mugulama tiveram a oportunidade de partilhar a sua
experiencia desde a entrada da Portucel Moçambique no seu território, explicaram que na
altura a comunidade acreditou nas inúmeras promessas feitas, acreditaram que teriam
empregos, acreditaram que a empresa iria realmente construir as escolas, hospital e outras
infraestruturas que tanto prometeram e que foi o que realmente fez a comunidade aceitar.
Hoje, a maioria dos membros da comunidade já se fartaram de esperar pela tão prometida
vida melhor, já não acreditam na Portucel, nada nas suas vidas melhorou, pelo contrário
partilham historias tristes de sistemáticos abusos de poder, violação de direitos,
insegurança, perda de meios de subsistência e continuam sem opções, sem empregos e
sem terra. Hoje muitos já até perderam o respeito e o medo dos tão temidos “agentes de
ligação” da Portucel, os que vão as casas de membros das comunidades que reclamam,
que se queixam, que levantam a sua voz contra as mentiras da Portucel e gritam que foram
enganados questionar e intimidar para que se calem. Os relatos são inúmeros, e enquanto
os membros da comunidade de Parreie relatam alguns episódios, os companheiros e
companheiras das demais comunidades trazem mais e mais episódios em outras
comunidades, até com outras empresas mas com os mesmos abusos, a mesma falta de
respeito, as mesmas mentiras e a mesma exploração de pessoas e recursos.


Em Mugulama, e em outras partes da província da Zambézia, a Portucel já começou a
cortar os eucaliptos, e as comunidades julgaram que uma vez cortado teriam finalmente de
volta as suas terras, de que dependem diretamente, no entanto, a Portucel esclareceu
rapidamente a todos que vai voltar a plantar e a terra lhes pertence. Esta informação
revoltou muitos membros da comunidade e alguns vendo as terras livres dos eucaliptos
rapidamente voltaram a trabalhar as mesmas e a preparar para o plantio. Estes foram
visitados pelos tão famosos agentes de ligação e alguns membros influentes das mesmas
comunidades dos poucos que ganham alguma coisa com a presença da empresa, e foram
avisados novamente que a terra pertence a Portucel, e que todos que ousassem ocupar
seriam presos… alguns foram ate avisados que aqui se morre! Mas muitos estão revoltados,
firmes que vão ocupar as suas terras, afirmaram que não roubaram nada, foram enganados
e arrancaram as suas terras, agora não querem mais nada com a Portucel.
As queixas e a revolta não se resumem apenas ao incumprimento de promessas ou de
como as próprias empresas justificam de expectativas infundadas ou excessivas, mas de
um claro e visível empobrecimento destas comunidades, de uma total desconsideração
pelos seus modos de vida, pela sua estreita relação com a terra, estas não só não viram
nada dos que lhes foi prometido, como perderam o pouco que ainda tinham, como a sua
terra, a sua fonte de rendimento, as matas de que tanto dependiam, o acesso a agua,
perderam os seus territórios.

Neste encontro as vozes das mulheres soaram mais alto do que nunca, o impacto destas
plantações nas suas vidas tem sido considerável, são as mulheres que cuidam da família, e
por isso e sobre elas que recai o peso de assegurar agua, alimento e cuidados, e com a
entrada das plantações, estas veem se muitas vezes sem opções e referiram ainda que


muitas vezes têm de usar os seus corpos como moeda de troca, seja para conseguir
emprego, seja para alcançar as metas impostas nos poucos empregos disponíveis, falaram
ainda da insegurança para as mulheres e meninas nas áreas com plantação, mais uma vez
os seus corpos são usados e abusados…


Ouvimos ainda casos de resistência, onde membros de diferentes comunidades recusaram
a entrada das plantações nas suas áreas, recusaram o plantio nas suas terras, e outros
ainda que já ocuparam as suas terras, apos o corte dos eucaliptos da Portucel.
“Estamos Cansados! Estamos muito cansados. Estamos a informar agora que se ouvirem
que aqui a cadeia esta cheia, somos nos, que já levamos as nossas terras!” – afectado
“Se for para morrer, vamos morrer, nos somos daqui, esta terra e nossa, foram nossos
antepassados que nos deixaram, não fomos la em Portugal roubar de ninguém, então
vamos ocupar nossas terras!” – afectado


A luta continua!
Nossa terra, nossa vida

COMUNICADO DE IMPRENSA: Projecto da Barragem de Mphanda Nkuwa em Moçambique: Colonialismo Verde Ameaça Comunidades e o Rio Zambeze

Maputo/Paris/Berlim – 15 de Outubro de 2025

Lançamento do relatório: “Sem a nossa terra e o nosso rio, morreremos de fome”: revelando o colonialismo verde no projecto de barragem hidroelétrica da EDF, Sumitomo e TotalEnergies em Moçambique. Um novo relatório divulgado hoje alerta para as consequências devastadoras da barragem hidroelétrica Mphanda Nkuwa, planeada para o rio Zambeze. Com base numa extensa pesquisa de campo, o relatório revela os enormes riscos sociais, ambientais e de direitos humanos do projecto, bem como a resistência das comunidades cujo consentimento não foi solicitado nem dado para esta mega-barragem.

O governo moçambicano e um consórcio privado liderado pela EDF (40%), TotalEnergies (30%) e Sumitomo Corporation (30%) estão a avançar com o projecto da barragem hidroelétrica de Mphanda Nkuwa, no rio Zambeze. Assinada em dezembro de 2023, esta mega-barragem de US$ 6,4 bilhões (o que já representa um aumento de 42% em relação ao custo de 2023) está prevista para entrar em funcionamento em 2031. Tornar-se-ia a terceira maior barragem do Zambeze — um rio já estrangulado por várias barragens — e a maior central hidroeléctrica construída na África Austral nos últimos 50 anos.

Apesar da sua dimensão e do apoio internacional da União Europeia, do Banco Mundial e do Banco Europeu de Investimento, o projecto foi lançado sem consultar os proprietários de terras legalmente reconhecidos – as comunidades locais que terão de arcar com os custos mais elevados.

Os impactos do projecto sobre os direitos humanos incluem:

  • Deslocamentos em massa: mais de 1.400 famílias (cerca de 8.120 pessoas) seriam forçosamente reassentadas, e até 350.000 pessoas que dependem do rio para a agricultura, pesca e criação de gado seriam afectadas.
  • Perda de terras: mais de 100 km² — o tamanho de Paris — seriam inundados.
  • Destruição do património: locais sagrados e culturais vitais para as tradições ancestrais correm o risco de serem submersos.
  • Repressão: intimidações, detenções e ameaças por parte das autoridades locais já estão a criar um clima de medo e descontentamento, fazendo eco dos traumas associados à barragem colonial de Cahora Bassa e a outros megaprojectos na província.

Como empresas francesas, a EDF e a TotalEnergies estão reguladas pela Lei do Dever de Vigilância da França. O Estado francês, como único accionista da EDF, tem a responsabilidade directa em garantir que essas obrigações são cumpridas.

Até o momento, este projecto exemplifica o colonialismo verde: comunidades locais  marginalizadas estão a ser excluídas dos processos de decisão e privadas dos seus direitos em nome do desenvolvimento e da transição energética.

Especialistas climáticos afirmam: é urgente acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, mas as soluções não podem repetir o modelo extractivista que alimentou as crises actuais — nem ignorar as crescentes evidências de que as mega-barragens emitem muito mais gases de efeito estufa do que anteriormente declarado, colocando em questão a sua reputação de energia “limpa”.

É por isso que este projecto deve ser cancelado, pelo menos até que as questões sociais e ambientais sejam adequadamente abordadas e haja responsabilização pelas violações já cometidas. Reiteramos também que o projecto não deve avançar se as comunidades não derem o seu consentimento livre, prévio e informado. Isso significa que elas têm o direito de dizer não, se por qualquer razão, não sentirem que o projectotrará benefícios para as suas vidas.

Descarregue o relatório completo aqui: http://www.tinyurl.com/mnkreport
Registe-se para o webinar de lançamento do relatório no dia 24 de Outubro às 11h de Maputo/Paris/Berlim aqui

Contactos: 

Anabela Lemos; Erika Mendes (JAl): anabela.ja.mz@gmail.com; erikasmendes@gmail.com 

Sophie Rebours ; Clara Alibert;  (CCFD-Terre Solidaire): s.rebours@ccfd-terresolidaire.org

Chloé Bailey (ECCHR): bailey@ecchr.eu

Comunicado de imprensa por: Justiça Ambiental!, Reclaim Finance, Amigos da Terra França, Urgewald, BankTrack 

03 de Outubro de 2025

Organizações da sociedade civil condenam aceleração de projectos de gás em Moçambique

Apesar dos crescentes riscos à segurança e aos direitos humanos e das queixas não resolvidas da comunidade, grandes empresas de petróleo e gás, estão a avançar com projectos multimilionários de gás em Moçambique. 

Organizações da sociedade civil alertam urgentemente as instituições financeiras contra o apoio a esses projectos, dados os elevados riscos associados aos direitos humanos, ao clima e ao ambiente.

Esta semana, a ENI anunciou a decisão final de investimento para o seu projecto Coral North FLNG, lançando oficialmente o desenvolvimento. A TotalEnergies e o governo moçambicano confirmaram planos para reiniciar em breve o projecto GNL Moçambique, enquanto a ExxonMobil sinalizou progressos no projeto GNL Rovuma.

Estas medidas surgem num momento em que Cabo Delgado continua a ser assolado pela instabilidade. A actividade insurgente intensificou-se desde julho de 2025, com ataques frequentes a viajantes, ataques a aldeias perto da cidade de Palma e dois ataques no mês passado à importante cidade portuária de Mocímboa da Praia. A “estratégia de fortaleza”da TotalEnergies e as novas medidas de segurança em torno do complexo de gás de Afungi dão prioridade à protecção dos projectos de gás, isolando completamente as operações e concentrando as tropas dentro do local, deixando as comunidades vizinhas vulneráveis a ataques.

As queixas relacionadas com o reassentamento continuam por resolver-se, enquanto as comunidades têm uma capacidade limitada para exercer as suas actividades de subsistência. Continuam a existir sérias preocupações quanto aos riscos económicos e à erosão da soberania de Moçambique associados a estes projectos.

Os analistas alertaram que o reinício do projecto TotalEnergies Mozambique LNG poderia alimentar o recrutamentopara a insurgência e que a zona de segurança exclusiva que está a ser criada poderia alienar ainda mais a população local.

Este é um projecto que tem custado caro a Moçambique e ao seu povo, e promete piorar.

Anabela Lemos, Justiça Ambiental!: “Levantar a força maior sem resolver as questões sociais e de direitos humanos pendentes demonstra falta de responsabilidade e cuidado com as pessoas directamente afectadas e só tornará mais difícil encontrar soluções significativas a longo prazo. Esses projectos devem ser interrompidos, as terras e o mar devem ser devolvidos às comunidades locais e as empresas de gás devem ser responsabilizadas pelos danos já causados.”

Antoine Bouhey, da Reclaim Finance, afirma: “O avanço deste projecto depende da aprovação de mais de 30 instituições financeiras, incluindo o Crédit Agricole, a Société Générale e o Standard Chartered. Dada a falta de progressos no apelo a uma investigação internacional independente sobre o alegado massacre de 2021, os financiadores do projecto não devem passar um cheque em branco para um empreendimento tão perigoso.»

Sonja Meister, da Urgewald, afirma: «As empresas e os bancos alemães são cúmplices da pressão imprudente da TotalEnergies para reiniciar rapidamente este projecto desastroso. A Siemens Energy poderá em breve entregar turbinas a gás e outros equipamentos que irão impulsionar a produção, enquanto o Deutsche Bank já ajudou a TotalEnergies a angariar novos fundos que poderão financiar o GNL de Moçambique. É escandaloso que a Siemens Energy e o Deutsche Bank estejam a apoiar este projecto, apesar das graves violações dos direitos humanos e das investigações em curso.”

Lorette Philippot, da Friends of the Earth France, afirma: “A estratégia agressiva da Total para reiniciar o projecto GNL Moçambique a qualquer custo não só não oferece uma solução, como ameaça causar mais desastres humanos e ambientais. Durante anos, as comunidades têm pago com as suas vidas pelo estrangulamento em que a gigante petrolífera francesa as deixou, presas entre as forças de segurança públicas e os grupos insurgentes. A Total recusa-se a ouvir, mas os direitos humanos devem estar acima dos lucros. Os bancos públicos e privados que decidiram depositar a sua confiança na Total em 2020, não podem mais fechar os olhos aos seus repetidos fracassos. Devem recusar-se a ser cúmplices, ou também terão de enfrentar as consequências.”

Diogo Silva, da BankTrack, afirma: «A TotalEnergies está novamente a avançar com mais um projecto destrutivo, maximizando os seus lucros já avultados à custa da vida de muitas pessoas. Agora é o momento dos bancos comerciais cumprirem o que dizem sobre a protecção do clima, dos direitos humanos e da natureza. Exortamos o Standard Chartered, o Crédit Agricole, a Société Générale, o Mizuho, o MUFG, o SMBC, o Standard Bank e todos os bancos comerciais envolvidos a retirarem o seu apoio a este projecto; e a sociedade civil no Reino Unido, França, Japão e África do Sul a pressionar estes bancos para que façam a única coisa razoável e possível: retirar-se do GNL de Moçambique.»

Contactos: 

Daniel Ribeiro, Justiça Ambiental / daniel.ja.mz@gmail.com

Lorette Philippot, Amigos da Terra França / +33 640188284 / lorette.philippot@amisdelaterre.org

Sonja Meister, urgewald / +49 176 64608515 / sonja.meister@urgewald.org

Diogo Silva, BankTrackdiogo@banktrack.org

Antoine Bouhey, Reclaim Financeantoine@reclaimfinance.org

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3ª Oficina de Bioconstrução – Resiliência e Conhecimento Local no Monte Mabu

Na região do Monte Mabu, a Justiça Ambiental (JA!) tem vindo a desenvolver processos de formação e ação comunitária que unem sustentabilidade ambiental, fortalecimento do conhecimento local e melhoria das condições de vida das comunidades. Na 3ª Oficina de Bioconstrução, avançamos com a Fase II na Escola Primária de Nvava, que é um exemplo concreto deste compromisso.

Após a primeira fase, dedicada à capacitação inicial, onde foram construídas duas salas de aulas, esta segunda etapa, que decorreu no mês de Julho, resultou na construção de mais duas salas de aula com recurso a técnicas de bioconstrução, baseadas em materiais locais e soluções adaptadas às condições climáticas extremas da região.

A formação contou com a participação de 8 mestres de obras locais e os seus ajudantes, que aprofundaram práticas de utilização de material local, com destaque para:

  • Fundação com sacos de terra, proporcionando uma base sólida e resistente;
  • Estruturas em bambu, aplicadas como vigas e reforço de pilares, aproveitando a abundância e durabilidade deste material;
  • Uso de palha de arroz combinada com madeira e bambu, na técnica de pau-a-pique, demonstrando soluções tradicionais adaptadas a novas exigências de resiliência.

Além da componente técnica, a oficina serviu também como um espaço de mobilização comunitária e institucional. O processo contou com a presença e apoio activo dos membros das comunidades, incluindo os membros das associações comunitárias, as estruturas locais, incluindo o chefe do posto administrativo de Tacuane, o chefe da localidade de Mabu 1o, os régulos de Limbue e Nvava, bem como a direção da escola primária de Nvava.

Durante a cerimónia de entrega, a chefe da localidade de Mabu 1o destacou a importância da iniciativa, sublinhando que as novas salas de aula representam um contributo significativo para a melhoria da qualidade de ensino na região. Ressaltou ainda que a adoção de técnicas de bioconstrução contribui não apenas para a educação, mas também para o fortalecimento do conhecimento técnico local, gerando infraestruturas mais resilientes às mudanças climáticas, nomeadamente chuvas intensas e ventos fortes.

Para a Justiça Ambiental, este trabalho traz um enorme orgulho e um compromisso renovado. Orgulho, por testemunhar o entusiasmo, a apropriação e a participação activa da comunidade e das lideranças locais. Compromisso, porque reafirma a missão de promover desenvolvimento comunitário sustentável, autonomia local e justiça ambiental, melhorando as condições de vida das populações que habitam a região do Monte Mabu.


Com iniciativas como esta, torna-se claro que construir com a comunidade, a partir dos recursos e conhecimentos locais, é também construir resiliência, identidade e futuro.

Projectos energéticos alimentam a fome em Palma,

Moçambique

Setembro de 2025


As comunidades outrora prósperas da Península de Afungi, na Baía de Palma, no extremo
norte de Moçambique, ficaram sem terras, «empobrecidas» e privadas de um futuro pacífico
— como resultado direto dos megaprojectos de gás natural liquefeito (GNL) detidos
maioritariamente pela TotalEnergies, ENI e ExxonMobil.
O processo de reassentamento das comunidades que tiveram de se deslocar para dar lugar
aos projectos de gás foi mal conduzido, e são os mais vulneráveis que estão a pagar o
preço pela industrialização das suas terras pelas gigantes da energia. Enquanto o projecto
GNL de Moçambique permanece suspenso e outros dois continuam sem decisão final de
investimento, as instituições financeiras africanas devem aproveitar o momento para avaliar
se continuarão a apoiar um projecto que prejudicou directamente as populações locais.
Os avós de Palma — que sofreram grandes perdas — testemunham experiências de luta na
província de Cabo Delgado, rica em recursos naturais.
«Desde o dia em que partimos até hoje, não recebemos qualquer apoio, nem sequer terra
para cultivar… Na minha idade, não consigo arranjar comida, não tenho machamba»,
explica a Senhora F, natural da aldeia de Barabarane, onde cultivava, pescava, recolhia
lenha e ervas medicinais da terra.
A Senhora A, que sustentava a sua família com a venda do peixe trazido pelos barcos de
pesca locais, diz: «Sem peixe, estou sem vida… As nossas vidas agora resumem-se à luta
pela terra.»
Para os idosos de Palma, que viram as suas comunidades desintegrarem-se desde a
chegada das empresas de gás, resta agora apenas uma esperança sombria de que as suas
famílias possam viver com dignidade. Em torno de 2010, foram descobertos campos de gás
comercialmente viáveis ao largo da costa, na Bacia de Rovuma. Naquela época, os avós de
Palma ainda eram fortes, trabalhavam na costa e nas suas vastas terras e passavam longos
dias no mar. A vida era difícil e as condições socioeconómicas não eram idílicas, mas
estavam rodeados de beleza, tinham casas estáveis em comunidades prósperas e os seus
filhos eram saudáveis.
Quando as suas terras foram necessárias para os projectos de gás, eles entraram em
negociações para reassentamento com esperanças alimentadas por promessas de uma
vida melhor para os seus filhos — promessas de novas casas e terras agrícolas para
substituir o que tinham perdido, educação e empregos para os seus filhos, um hospital, um
campo de futebol e uma área de expansão para os seus filhos, que em breve começariam
as suas próprias famílias. As primeiras famílias foram reassentadas em 2019. Desde então,
têm estado envolvidas em processos de negociação que visam servir os interesses do gás.
As terras e os meios de subsistência que esperavam deixar como herança tornaram-se

locais de luta onde os seus filhos — agora adultos — são levados a protestar nos portões
da empresa para exigir o que foi prometido aos seus pais.
O Senhor S, que viveu a sua vida e criou os seus filhos em Barabarane, afirma: «Os meus
filhos deixaram para trás terras, casas e tudo o que tinham, e até hoje não foram
compensados pelas suas propriedades.» Ele usa um kofi (um tipo de boné de pano), como
símbolo de fé, sabedoria e respeito na comunidade.
Alguns lamentam as suas casas perdidas e os meios de subsistência destruídos, e falam de
compensações insuficientes ou inexistentes, e da falta de apoio. Muitos falam de fome, dos
seus filhos e vizinhos estarem “magros”, da busca diária por comida e água. Além das
terras terem sido tomadas, o acesso a muitas áreas costeiras e de pesca importante está
neste momento restrito.
O Senhor B, que outrora tinha um negócio de pesca na aldeia de Milamba, afirma: «Com a
chegada da empresa, não consigo exercer actividades de pesca devido ao reassentamento
que impuseram nos … Também não consigo alimentar os meus filhos, como fazia antes da
chegada da Total.»
Perder a terra e o acesso ao mar significa perder a capacidade de sobreviver. Existem
enormes perdas intangíveis que nunca poderão ser compensadas, como o sabor
inesquecível da comida local, garantido pelas mangueiras centenárias; o abrigo e os
alimentos fornecidos pelos velhos coqueiros; e as coloridas esteiras de dormir tecidas com
palha selvagem.
O Senhor S, que perdeu terras agrícolas em Nsemo, explica que a limitada compensação
monetária não é uma substituição justa para os recursos naturais que sempre forneceram
sustento: «Se nos derem dinheiro, como vamos viver como seres humanos? Como vão
sobreviver os meus filhos e netos?»
A empresa francesa TotalEnergies lidera o trabalho de reassentamento no local de
exploração de gás de Afungi e é a acionista maioritária do projecto GNL Moçambique. O
projecto partilha os direitos de uso da terra para a exploração de gás com o projecto GNL
Rovuma da empresa italiana ENI e da empresa americana ExxonMobil. Cerca de 32
instituições financeiras comprometeram-se a investir aproximadamente 15 mil milhões de
dólares no GNL Moçambique, incluindo quatro bancos sul-africanos e cinco instituições
públicas africanas. Colectivamente, as instituições financeiras africanas envolvidas
comprometeram-se a investir cerca de 2,5 mil milhões de dólares. Todas foram informadas
das queixas não resolvidas das comunidades em relação ao reassentamento, bem como de
outros riscos graves, incluindo riscos ambientais e climáticos.
Ao longo dos anos, as tentativas incansáveis e as propostas das comunidades para uma
resolução foram, em grande parte ignoradas pela empresa, e os processos formais de
reclamação através do governo moçambicano resultaram em mais atrasos. Confusão e
tensão surgiram quando as terras de algumas comunidades foram confiscadas – algumas
sem pagamento, outras sem sequer acordo – e depois atribuídas como terras de
compensação às comunidades reassentadas.

Uma falha fundamental no processo de reassentamento é que as comunidades não
receberam assistência jurídica e as organizações da sociedade civil foram impedidas de
prestar apoio. Foi somente após uma série de protestos corajosos, iniciados em novembro
de 2024, que a empresa de gás retomou as negociações. Desde então, novos acordos
foram assinados em algumas comunidades, mas os pagamentos não foram feitos, e em
outras comunidades as negociações ainda estão em andamento.
Em toda a África, foram levantadas queixas semelhantes contra a TotalEnergies
relacionadas com terras confiscadas, meios de subsistência destruídos, indemnizações
inadequadas ou inexistentes e promessas de indemnização não cumpridas, além dos
graves riscos ambientais e climáticos dos projetos da empresa e das ligações a violações
dos direitos humanos. No final de agosto, as comunidades afectadas e a sociedade civil
uniram as suas lutas em todo o continente para pedir responsabilização à TotalEnergies e
aos seus apoiantes. Como parte da semana de acção “Kick Total Out of Africa”, as
comunidades de Cabo Delgado falaram num tribunal intercontinental, juntamente com
comunidades do Uganda, África do Sul e RDC, exigindo responsabilização e reparações
pelas violações socioeconômicas, ambientais e dos direitos humanos associadas à
empresa.
Em Palma, o deslocamento relacionado com o gás não pode ser separado da instabilidade
criada pela violenta insurgência regional, ou da militarização da região que seguiu se,
acompanhada por mais extorsão e violência contra os civis. Em última análise, o
desenvolvimento do gás traria poucos benefícios económicos para Moçambique, e só após
mais uma década. Os projectos utilizam mecanismos de evasão fiscal, as participações da
empresa estatal moçambicana ENH no gás são consideradas «praticamente sem valor» e o
gás já está potencialmente encalhado.
Apesar da insistência contínua de que o projecto da TotalEnergies será retomado (ainda
que com prazos constantemente alterados), os riscos associados ao desenvolvimento do
gás permanecem extremamente elevados.
Para a população de Palma, as esperanças de uma vida melhor graças ao gás tornaram-se
uma realidade de perda e fome. As instituições financeiras devem ter em conta as
experiências reais dos homens e mulheres que testemunharam a implementação dos
projectos e sofreram os seus impactos. Devem retirar o seu apoio a um desenvolvimento
que oferece pouco a Moçambique em troca das terras e do mar que ocupa.

Declaração de Maputo em Solidariedade com o povo Palestino e Saharaui

Demandas dos participantes do 9º Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos para a libertação da Palestina e do Saara Ocidental, Maputo, 1 de Agosto 2025

Como pessoas e organizações de 30 países que se reuniram em Maputo para construir solidariedade internacional e traçar estratégias de resistência à exploração das nossas terras e mares por empresas transnacionais, reconhecemos a conivência destas na ocupação de territórios de povos indígenas em todo o mundo. Isto é evidente tanto na Palestina como no Saara Ocidental.

Estamos profundamente solidárias com o povo Palestino, que está a sofrer um genocídio. A situação em Gaza deteriorou-se a níveis sem precedentes. A ocupação israelita está a usar a fome em massa como arma de guerra, negando aos civis o acesso a alimentos essenciais, água e produtos médicos, provocando desnutrição generalizada e mortes evitáveis. Áreas residenciais, hospitais e escolas têm sido alvo de ataques aéreos implacáveis, resultando na morte de mais de sessenta mil civis, particularmente mulheres e crianças. Mais de 1,5 milhões de pessoas foram submetidas a deslocamentos forçados, apenas para enfrentar novos ataques. Enquanto isso, uma guerra silenciosa é travada na Cisjordânia (West Bank) e Israel prossegue com a anexação. E conforme destacado no último relatório da Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, intitulado “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, corporações têm contribuído materialmente e lucrado com o genocídio em curso, ao fornecer a Israel as armas e maquinaria necessária para destruir casas, escolas, hospitais, locais de lazer e culto, meios de subsistência e bens produtivos, para segregar e controlar comunidades, e para restringir o acesso aos recursos naturais.

Como organizações comprometidas com os direitos humanos e a justiça, exortamos a todos os governos, organizações da sociedade civil, instituições e indivíduos a tomarem medidas decisivas contra o genocídio em curso.

O Saara Ocidental continua a ser uma colónia em África, com a maioria das suas terras ocupadas por Marrocos desde 1975, após a saída repentina e a descolonização não concluída do território pela Espanha, a antiga potência colonial. O povo Saharaui continuou a sua luta por independência e continua a enfrentar violações de direitos humanos, incluindo tortura e desaparecimentos. As suas terras e recursos estão a ser explorados tanto por Marrocos como por empresas transnacionais, sem o consentimento do povo Saharaui, o que é contra o direito internacional.

Para a Palestina, o Saara Ocidental e outros territórios ocupados ou atormentados por conflitos incessantes, como na República Democrática do Congo, Sudão, Cabo Delgado em Moçambique, condenamos todas as formas de colonização e denunciamos a cumplicidade das empresas transnacionais. Apelamos ao reconhecimento de que os países e cidadãos de todo o mundo que beneficiam dos recursos saqueados de territórios ocupados são cúmplices dessas ocupações e das violações brutais de direitos humanos. Estamos firmemente solidários com todos os povos que resistem à expropriação e destruição dos seus territórios. Unimos forças para exigir um futuro onde a vida esteja sempre acima do lucro.

Em relação à Palestina, apelamos ao seguinte:

  1. Cessar-fogo imediato: uma cessação incondicional e permanente de todas as operações militares em Gaza.
  2. Acesso humanitário irrestrito: que se abram as fronteiras e que se permita que as organizações humanitárias entreguem suprimentos essenciais ao povo de Gaza e que o povo de Gaza tenha acesso a esses suprimentos em segurança.
  3. Responsabilização por crimes de guerra: que sejam investigados de forma independente todos os crimes de guerra e violações do direito internacional, bem como a respectiva responsabilização dos perpetradores.
  4. Liberdade e protecção para os prisioneiros Palestinos e fim do tratamento desumano nas prisões Israelitas.
  5. Livre circulação dos Palestinos: reconhecer e garantir o direito do povo Palestino à livre circulação.
  6. Fim da ocupação e afirmação dos direitos e da liberdade dos Palestinos: defendemos os direitos humanos inalienáveis dos Palestinos à liberdade, justiça, regresso e autodeterminação, bem como a retirada completa das tropas estrangeiras e dos ocupantes ilegais do território palestino.
  7. Boicote, desinvestimento e sanções económicas: apelamos aos governos para que cortem relações diplomáticas, implementem embargos comerciais e sanções económicas à ocupação Israelita. Apelamos também ao boicote académico e desportivo, bem como ao desinvestimento em empresas Israelitas.
  8. Estados devem cumprir as suas obrigações ao abrigo da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio.

Ademais, acreditamos que a única solução justa e duradoura é a criação de um único Estado democrático, desde o rio até ao mar, para o qual os refugiados Palestinos possam regressar, onde os colonatos Israelitas sejam desmantelados, e todos os habitantes gozem de direitos de cidadania iguais num país descolonizado que garanta liberdade e dignidade para todos através de um processo de verdade e reconciliação que aborde as injustiças históricas e proporcione reparações pela expropriação dos Palestinos.

Em relação ao Saara Ocidental, apelamos ao seguinte:

  1. Fim da ocupação ilegal: pelo fim da ocupação Marroquina dos territórios do Saara Ocidental.
  2. Respeito pelo direito à autodeterminação do povo Saharaui, que deve poder decidir livremente o seu futuro político, incluindo o reconhecimento da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) como o governo legítimo do Saara Ocidental.
  3. Regresso dos refugiados Saharauis, garantindo assim o direito de aqueles que vivem em campos de refugiados regressarem à sua terra natal em condições seguras e dignas.
  4. Liberdade para os presos políticos: libertação de todos os presos Saharauis ilegalmente detidos pelas forças de ocupação.
  5. Protecção dos recursos naturais: pelo fim da pilhagem dos recursos naturais do Saara Ocidental por parte das forças de ocupação e das empresas transnacionais.
  6. Protecção dos direitos humanos: garantir a monitoria e a protecção dos direitos humanos nos territórios ocupados por organismos internacionais independentes.
  7. Liberdade de circulação para todos Saharauis: garantir e assegurar o direito de circulação de todo o povo Saharaui.
  8. Estados Africanos devem cumprir com os seus compromissos regionais e internacionais: a União Africana e os seus Estados membros devem assegurar o cumprimento dos objectivos do Acto Constitutivo da União de respeito e protecção dos direitos do Povo Saharaui, ao abrigo da Carta Africana de Direitos do Homem e dos Povos, e demais instrumentos relevantes de direitos dos povos.

A luta continua!

ASSINATURAS

Organizações nacionais

  1. Justiça Ambiental (JA!) – Friends of the Earth Moçambique
  2. Palestine Environmental NGOs Network (PENGON), Friends of the Earth Palestine
  3. National Union of Sahrawi Women (UNMS) – Western Sahara
  4. Les Amis de la Terre – Togo / Friends of the Earth – Togo
  5. Sikkim Indigenous Lepcha Tribal Association (SILTA) – North East India
  6. Affected citizens of Teesta (ACT) Sikkim – North East India
  7. Climáximo – Portugal
  8. Centre for Financial Accountability (CFA) – India
  9. Sustainable Development Institute (SDI) – Liberia
  10. Núcleo para Desenvolvimento Comunitário de Cabo Delgado (NUDEC) – Moçambique
  11. Centre Congolais pour le ( Droit du ) Développement Durable (CODED) – R.D. Congo
  12. Magamba Network – Zimbabwe
  13. Buni Media – Kenya
  14. Journal Rappe – Senegal
  15. Mouvement Africain pour les Droits Environnementaux dans la région de l’Est BURKINA Faso (MADEE) – Burkina Faso
  16. Natural Resource Women Platform (NRWP) – Liberia
  17. Plataforma da Sociedade Civil da Província de Manica (PLASOC) – Moçambique
  18. Zimbabwe Smallholder Organic Farmers Forum (ZIMSOFF) – Zimbabwe 
  19. Health of Mother Earth Foundation (HOMEF) – Nigeria 
  20. International Labour, Research & Information Group (ILRIG) – South Africa
  21. Help Initiative For Social Justice and Humanitarian Development – Nigeria
  22. Palestine Solidarity Campaign (PSC) Gauteng – South Africa
  23. Landless Peoples Movement – South Africa
  24. West Coast Food Sovereignty and Solidarity Forum – South Africa
  25. South Durban Community Environmental Alliance (SDCEA) – South Africa
  26. Environmental Defenders Network (EDEN) – Nigeria
  27. Jeunes Volontaires pour l’Environnement (JVE) Côte d’Ivoire 
  28. Advocacy Coalition for Sustainable Agriculture (ACSA) – Uganda
  29. Friends of the Earth Japan – Japan
  30. South African BDS Coalition – South Africa
  31. Ondjango Feminista – Angola 
  32. Associação Observatório de Políticas de Género – Angola 
  33. Healthcare Workers 4 Palestine – South Africa 
  34. African Water Commons Collective – South Africa
  35. Women on Mining and Extractives – Sierra Leone
  36. ATTAC CADTM – Togo
  37. Civic Forum on Housing and Habitat – Zambia 
  38. All Youth Foundation for Community Development – Yemen 
  39. Centre for Social Change, University of Johannesburg – South Africa
  40. Community Action Movement – Nigeria
  41. Missão Tabita, Zambézia – Moçambique
  42. Les Amis de la Terre – Belgique (ASBL) – Belgium
  43. groundWork, Friends of the Earth South Africa
  44. Participatory Action Research Coalition – India
  45. Rights not Recuse Trust – Namibia
  46. Amigas de la Tierra España / Friends of the Earth Spain
  47. Young Women of Africa (YWOA) 
  48. Amigas da Terra Brasil / Friends of the Earth Brazil
  49. Center for Labour and Social Studies (CLASS) – Nepal
  50. The Grail – International Women Movement – Moçambique
  51. Grana Nostra – Collectif Algérien Pour la Biodiversité – Algérie
  52. National Sudanese Women Association (NSWA) – Sudan 
  53. Friends of the Earth Denmark (NOAH) – Denmark
  54. Associação para Promoção dos Direitos de Transgéneros de Moçambique (ANTRA) – Moçambique
  55. Sahabat Alam Malaysia / Friends of the Earth Malaysia (SAM) – Malaysia
  56. Lawyers’ Environmental Action Team (LEAT) / Friends of the Earth Tanzania
  57. Centre For Alternative Research and Studies (CARES) – Mauritius
  58. Censat Agua Viva / Friends of the Earth Colombia
  59. Community Development Advocacy Foundation (CODAF) – Nigeria 
  60. Legal Rights and Natural Resources Center – Friends of the Earth Philippines
  61. Lok Shakti Abhiyan – India
  62. Centre For Studies on Climate Justice – Bhubaneswar, India
  63. Centre for Citizens Conserving Environment & Management (CECIC) – Uganda
  64. Afrikagrupperna – Sweden 
  65. Sahrawi Organization Against Moroccan Occupation – Western Sahara
  66. Association of Sahrawi Human Rights Defenders in Western Sahara
  67. Association for the Protection of Sahrawi Prisoners in Moroccan prisons – Western Sahara
  68. Association for the Monitoring of the Resources and for the Protection of the Environment in Western Sahara (AMRPENWS) – Western Sahara
  69. Sahrawi Association of Victims of Grace Human Rights Violations Committed by the Moroccan State (ASVDH) – Western Sahara
  70. Sahrawi Association for the Protection and Promotion of Sahrawi Culture and Heritage – Western Sahara
  71. Union Nationale des Femmes Algériennes – Western Sahara
  72. Committee for the Defense of the Self-Determination of the People of Western Sahara (CODAPSO) – Western Sahara
  73. Committee for the Protection of Sahrawi Human Rights Defenders – Western Sahara
  74. Sahrawi Observatory for Child Protection – Western Sahara
  75. Sahrawi Committee of Arbitrarily Dismissed Employees and Workers by Moroccan State – Western Sahara
  76. Committee of the Families of the Abducted – Western Sahara
  77. Committee for the Protection of Natural Resources and Defense of the Settlement Plan – Western Sahara
  78. Port Arthur Community Action Network (PACAN) – United States of America
  79. MA’AN Development Center – Palestine
  80. Arab Agronomists Association (AAA) – Palestine
  81. Rural Women Development Society (RWDS) – Palestine
  82. Union Nationale des Femmes Algériennes (UNFA) – Algérie
  83. Friends of the Earth – Grenada (West Indies) 
  84. Ramani Collective – Kenya
  85. Coletivo Refúgio Humanitário Palestina Brasil
  86. Sunflower Association – Palestine
  87. Comitê Capixabas pela Palestina – Brasil
  88. Zelena akcija / Friends of the Earth Croatia

Organizações internacionais / regionais

  1. La Via Campesina Southern and Eastern Africa (LVC – SEAF)
  2. Convergence Globale des Luttes pour la Terre, l’Eau et  les Semences Paysannes Ouest africain (CGLTE-OA)
  3. Green Advocates International (GAI)
  4. Amigos da Terra África / Friends of the Earth Africa
  5. Housing and Land Rights Network – Habitat International Coalition – Switzerland and Egypt
  6. Global Campaign to Reclaim Peoples’ Sovereignty, Dismantle Corporate Power and Stop Impunity
  7. Africa Just Transition Network (AJTN) – Africa
  8. South Asian Solidarity Collective
  9. Oilwatch Africa
  10. No REDD in Africa Network (NRAN)
  11. Oilwatch International
  12. Laudato Si Movement Africa
  13. Third World Network (TWN)
  14. Womin African Alliance
  15. Asia Peoples Movement on Debt and Development (APMDD)
  16. Transnational Institute (TNI) – Netherlands / International
  17. Natural Justice: Lawyers for Communities’ and the Environment – Africa

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9 Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos

9oWorkshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos

29 de Julho a 1 de Agosto 2025, Hotel Glória, Maputo – Moçambique

Em 2025, no meio de enormes mudanças geopolíticas, crises e genocídios televisionados e invisibilizados em todo o mundo, o continente africano continua a ser um importante local de reprodução do brutal capitalismo fóssil global – mas também de luta e resistência contra ele. Aquilo a que estamos a assistir não é novo: desde a privatização dos bens comuns às crises eleitorais e constitucionais à austeridade a retrocessos nos direitos das mulheres à intensificação das formas de extracção e ecocídio às guerras e à repressão dos activistas políticos e ambientais… estamos sim a viver formas de acumulação alargadas e aceleradas, ao mesmo tempo que somos atingidos por um colapso climático e ecológico total para o qual contribuímos muito pouco. Estes e outros fenómenos estão ligados ao capitalismo, seja porque o capitalismo os alimenta e deles beneficia, seja porque são consequências mais ou menos directas do capitalismo, seja simplesmente porque são o seu terreno fértil.

As crises profundas na região africana têm as suas raízes, entre outros factores, na forma como a riqueza da nossa terra e do nosso povo continua a ser pilhada internacionalmente por empresas transnacionais, facilitada por estruturas de acumulação herdadas do colonialismo. Para enfrentar a ameaça existencial da crise climática, a nossa resposta tem de ser radicalmente descolonial, anti-patriarcal e anti-capitalista.

Esperamos que o 9º Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos sirva como um espaço de intercâmbio entre movimentos e organizações em torno da protecção dos direitos das comunidades e do ambiente. É um apelo para nos envolvermos verdadeiramente no nosso compromisso colectivo de mudar o sistema actual. Como é que nos reconectamos com os nossos valores africanos para construir um paradigma de desenvolvimento que seja centrado nos povos e em linha com a visão africana da dignidade humana? Que formas de solidariedade (transnacionais, transversais, feministas, etc.) são necessárias neste preciso momento, e como aprofundá-las? Como é que estamos a planear as nossas necessidades imediatas e a nossa sobrevivência, e a fortalecer os nossos movimentos a partir de dentro, tendo em conta as crises que antecipamos no futuro? O que podemos aprender do movimento “fees must fall” na África do Sul, dos ventos do anti-imperialismo vindos do Sahel, ou das revoltas juvenis no Quénia e em Moçambique?

O despertar de uma política Panafricana de libertação é urgente – e pode muito bem já estar a caminho.

Para informações adicionais e para se registar: impunidade.corporativa@gmail.com / +258 84 3106010

Membros da Friends of the Earth International processam EXIM por aprovar ilegalmente US$ 4,7 bilhões para apoiar o desastroso projecto de GNL em Moçambique

WASHINGTON – A Friends of the Earth U.S. e a Justiça Ambiental/Friends of the Earth Moçambique, com representação da EarthRights International, entraram com uma acção judicial ontem à noite contestando a aprovação ilegal do Banco de Exportação e Importação dos EUA de quase US$ 5 bilhões em financiamento para o projecto GNL Moçambique. O projecto deslocou milhares de pessoas locais, foi palco de alegadas violações dos direitos humanos, está rodeado por um conflito violento e causará uma destruição ambiental significativa. No entanto, conforme alegado na acção judicial, o EXIM apressou a aprovação sem realizar as avaliações ambientais e económicas necessárias, nem permitir a participação exigida do público e do Congresso. O EXIM não cumpriu o seu próprio estatuto e a lei federal, criando um precedente perigoso para decisões futuras.

Em Fevereiro de 2025, o presidente Trump nomeou ilegalmente membros para o Conselho de Directores do EXIM sem a devida confirmação do Senado, em violação aos procedimentos legais de nomeação. Apenas semanas depois, em Março, esse conselho “interino” indevidamente constituído aprovou em definitivo um empréstimo massivo para apoiar um projecto controverso liderado pela gigante petrolífera francesa TotalEnergies. A decisão foi tomada apesar do conflito armado e da crise humanitária em curso na região, bem como da própria declaração de força maior feita pela TotalEnergies mais de quatro anos antes — medida que interrompeu as operações e deixou o projecto paralisado desde então. Ignorando esses alertas, o Conselho do EXIM avançou com o subsídio ao empreendimento, desconsiderando evidências concretas de destruição ambiental, danos às comunidades locais e investigações internacionais em andamento sobre graves violações de direitos humanos no local do projecto.

O porta-voz da JA, afirmou:

“ Continuar a financiar projectos de gás em Cabo Delgado seria uma traição a Moçambique e à humanidade. Seria uma falta de respeito pela justiça que é devida às pessoas que sofreram violações dos direitos humanos. Seria ignorar as vozes das famílias que estão a suportar os fardos mais pesados – que perderam as suas terras, o acesso ao mar e os seus meios de subsistência. Seria uma falta de compromisso com as leis nacionais, as normas internacionais e quaisquer esforços para lidar com a crise climática. O GNL em Moçambique beneficiaria apenas as empresas de combustíveis fósseis e uma pequena elite política. ”

“ Existem procedimentos e processos legais em vigor para garantir que o Banco de Exportação e Importação dos EUA não desperdice o dinheiro dos contribuintes em projectos arriscados, afectados por insurreições violentas”, afirmou Kate DeAngelis, diretora adjunta de Política Económica da Friends of the Earth US. “No entanto, o EXIM – tal como o resto da Administração Trump – acredita que pode operar fora da lei. Não ficaremos de braços cruzados enquanto a Administração Trump corta os cuidados de saúde e a ajuda em caso de catástrofes para poder dar esmolas às empresas de combustíveis fósseis.”

“A decisão ilegal do Conselho de Administração do EXIM de subsidiar este projecto, sem sequer considerar os riscos para a população local, para não falar das graves alegações de que a segurança do projecto cometeu um massacre no local do projecto, é mais do que imprudente. A EXIM precisa de fazer o seu trabalho e considerar realmente os danos que este projecto irá causar à população local”, afirmou Richard Herz, da EarthRights International.

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O processo judicial de hoje visa responsabilizar a EXIM por violar a lei federal ao forçar discretamente a aprovação final que não cumpriu os requisitos processuais exigidos pelo Congresso e por aprovar um financiamento que viola os limites substantivos que o Congresso impôs à EXIM. Se for bem-sucedida, a acção judicial anulará a aprovação ilegal da EXIM, impedirá que os fundos sejam desembolsados e obrigará a EXIM a cumprir as suas obrigações antes de tomar uma decisão sobre o empréstimo pendente.

A Friends of the Earth US e a Justiça Ambiental/Friends of the Earth Moçambique entraram com a acção judicial contra a EXIM no tribunal federal distrital do Distrito de Columbia. Elas estão a ser representadas nesta questão pela organização sem fins lucrativos EarthRights International.

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FOGÕES EFICIENTES TRANSFORMAM VIDAS E DESAFIAM ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO NAS COMUNIDADES DO MONTE MABU

Em meio à biodiversidade única do Monte Mabu, na província da Zambézia, Moçambique, uma inovação simples está a gerar impactos profundos — ambientais, sociais e culturais. A introdução dos fogões foguete, feitos com tijolos de argila de fácil acesso local, está a revolucionar o cotidiano das comunidades de Limbue, Nangaze, Namadoe e Nvava.

Estes fogões, altamente eficientes na conservação de calor e com baixo consumo de lenha, oferecem múltiplos benefícios, nomeadamente, (i) redução do uso de biomassa, portanto reduz a pressão sobre as florestas locais; (ii) melhoria da saúde das mulheres, ao minimizar a exposição ao fumo; (iii) aumento da ergonomia e segurança durante o preparo das refeições; e (iv) por serem acessíveis, de baixo custo e de fácil replicação.

Os efeitos vão além da sustentabilidade ambiental. Um dos impactos mais transformadores tem sido o envolvimento crescente dos homens na culinária — um espaço tradicionalmente reservado às mulheres nessas comunidades. Os fogões foguete estão a quebrar barreiras culturais e contribuir para a equidade de gênero.

Durante as oficinas comunitárias de construção e uso dos fogões, foi possível homens e mulheres aprender sobre cuidados de higiene na preparação e conservação de alimentos e ainda o  sobre (i) fabrico de sabão a partir de cinza e soda cáustica; (ii) produção de compotas a partir de frutas da época; (ii) processamento e conservação de alimentos com métodos acessíveis e locais.

Para a Justiça Ambiental, é motivo de orgulho contribuir com soluções que respeitam o meio ambiente, promovem equidade e melhoram a qualidade de vida das comunidades locais.

Pequenas inovações, quando feitas com as pessoas e para as pessoas, geram grandes transformações.

Estamos comprometidos com um futuro mais justo, sustentável e participativo.

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