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TORTURA, COACÇÃO E ESQUIZOFRENIA GEOGRÁFICA: O CASO DA DETENÇÃO DE TRÊS CIDADÃOS MANIFESTANTES DE MATUTUÍNE

No dia 6 de fevereiro de 2025, em frente à fábrica da Dugongo Cimentos no distrito de Matutuíne, três cidadãos foram detidos enquanto exerciam o seu direito constitucional à manifestação, um direito garantido pela Lei-Mãe e constantemente violado pela Polícia da República de Moçambique (PRM) e seus órgãos afins, como a UIR e a FDS.

Alguns dias antes, familiares do menor Leonardo Mpasso haviam-se dirigido à esquadra de Matutuíne para saber sobre o seu paradeiro, pois havia sido levado por militares no dia 29 de Janeiro, no contexto das manifestações. Na esquadra, as únicas respostas que obtiveram foram de que à guarda da polícia não tinha registo de ninguém com esses dados. Como o menor continuava desaparecido (e continua até hoje), a comunidade decidiu então fazer uma manifestação no dia 6 como forma de pressionar a polícia para devolver Leonardo ao seio familiar.

É importante aqui esclarecer o contexto mais amplo destas manifestações: as comunidades de Mudada, Mudissa e Mabilibili, no distrito de Matutuíne têm organizado várias manifestações nos últimos anos a protestar contra a violação dos seus direitos por parte da Dugongo Cimentos. Estas violações incluem: os reassentamentos indignos e sem o devido consentimento das famílias, a perda de terras e machambas e consequente perda de meios de subsistência, a poluição ambiental e sonora, a exumação de corpos de forma desumana e desrespeitando as tradições locais, e as constantes intimidações e ameaças de que são vítimas por levantarem a sua voz perante estas injustiças. A todas estas questões que se arrastam há vários anos, desde que foram impedidos de praticar agricultura, construir habitações e realizar cerimónias tradicionais nas suas terras em 2007, juntaram-se os protestos contra a fraude eleitoral e contra o elevado custo de vida, de particular impacto em famílias que viviam com o que produziam nas terras que agora lhes foram usurpadas.

Entretanto, o que era para ser uma manifestação pacífica a exigir informações sobre o paradeiro do Leonardo transformou-se num verdadeiro pesadelo para Salomão (tio de Leonardo), Armando Chirindza e Orlando Artur, que foram colocados num Mahindra e acabaram permanecendo cerca de 48 horas sob a custódia da PRM.

Uma equipa da Justiça Ambiental dirigiu-se imediatamente à esquadra de Matutuíne, onde fomos informados pela Oficial de Permanência que ninguém havia sido detido naquele dia. Esta mentira durou pouco: poucos minutos depois, testemunhámos os três cidadãos em causa a serem retirados dali, desrespeitados e tratados brutalmente, despidos e com olhos vendados, enquanto eram colocados na parte de baixo de outro Mahindra e conduzidos por um forte aparato da UIR para um destino desconhecido. Este tem sido o modus operandi da PRM, que, ao prender cidadãos, faz isso da forma mais desumana possível, violando um dos princípios mais básicos da existência humana, o princípio da dignidade da pessoa humana.

Desde quinta-feira, 6 de fevereiro, dúvidas, incertezas e medos pairavam na comunidade de Matutuíne e entre os familiares dos cidadãos detidos. Não havia certeza se eles voltariam com segurança para seus lares. Em vários pontos do país, no contexto das manifestações pós-eleitorais, muitos cidadãos que são vistos sob custódia da polícia acabam por desaparecer sem deixar rastro, havendo inúmeros relatos de assassinatos e torturas. Mais tarde viríamos a descobrir que de Matutuíne foram levados para a 18a Esquadra da PRM, localizada nas proximidades do Comando da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), na zona conhecida como “Brigada Montada”, tendo sido pisados e maltratados durante todo o caminho. Chegados lá, foram agredidos brutalmente e tratados de forma degradante, espancados, torturados com água quente incluindo nos órgãos genitais, violando o artigo 40 da Constituição de Moçambique, que proíbe tortura e tratamentos cruéis, e violando princípios fundamentais de Direitos Humanos.

No dia seguinte, 7 de Fevereiro, enquanto a equipe da JA!, desta vez acompanhada por advogados da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados (OAM-CDH), buscava informações sobre o paradeiro dos cidadãos, fomos surpreendidos com a informação que os mesmos se encontravam na 2ª Esquadra da Matola. Várias dúvidas surgiram: porquê a 2ª Esquadra da Matola? Por que nos foi negado acesso a informações sobre o que aconteceu desde o momento em que esses cidadãos foram retirados do Comando Distrital de Matutuíne? Qual o motivo para o uso desproporcional da força e a presença de um forte contingente militar para conduzir três cidadãos desarmados que, evidentemente, não representavam nenhum perigo?

Chegados à 2ª Esquadra, soubemos que os cidadãos estavam sob regime de “depósito” e que havia um pedido “especial” em seu nome. É sabido que, tratando-se de um regime de depósito, os detidos deveriam ter um despacho de condução: a transferência de detidos de um local para outro não deve ser realizada de forma arbitrária. No caso em questão, não houve qualquer fundamento legal que justificasse, nem uma guia de marcha que legitimasse a transferência dos detidos de Matutuíne para a Matola. Os agentes não souberam explicar as razões de terem recebido esses “hóspedes” em suas celas, e aparentemente os autos de notícia tinham ficado em Matutuíne. Após muita insistência para vermos os 3 cidadãos, finalmente trouxeram-nos ao nosso encontro. Marcas das agressões eram visíveis em seus corpos, com hematomas e marcas de violência nos braços, nas costas e no rosto. Durante a conversa com eles, demonstraram a sua revolta pela forma como foram tratados e violentados. “Nunca esperei viver isto que está a acontecer no nosso país, levamos muita porrada”, disse-nos Armando. Até então, ninguém sabia dizer quais eram as acusações levantadas contra eles. Mais tarde nesse dia, pelas 18h, os 3 cidadãos foram obrigados a assinar documentos que nem tiveram oportunidade de ler.

Buscamos compreender as razões pelas quais os detidos foram coagidos a assinar o auto de notícia sem a devida leitura, sob intensa coacção física e moral. Esta conduta, nos termos da lei, torna nulas todas as provas obtidas por meio de tortura, coacção ou qualquer forma de ofensa à integridade física ou moral da pessoa, nos termos do n.º 3 do artigo 65 da Constituição da República.

No sábado, 8 de fevereiro, fomos novamente surpreendidos com a notícia de que o julgamento já havia ocorrido no Tribunal Judicial do Distrito de Boane, e que os cidadãos já estavam a regressar às suas casas. Haviam sido condenados a uma pena de 3 dias, convertida em multa, pelo crime de coacção motim.

A situação causou-nos ainda mais espanto. Sendo um processo especial, nos termos da lei, qualquer tribunal do distrito teria competência para julgar o caso. Não entendemos a razão pela qual os detidos foram transferidos de um distrito para serem julgados por um tribunal distrital em outro distrito. Considerando que os alegados crimes foram cometidos no distrito de Matutuíne, deveriam ser julgados no Tribunal Judicial do Distrito de Matutuíne. Estamos então diante de uma manifesta ‘esquizofrenia geográfica’ da PRM, ao deter os cidadãos num distrito, transportá-los aleatoriamente e sem qualquer documentação para outro distrito, e posteriormente julgá-los num terceiro distrito por um tribunal sem competência para tal!

Os parâmetros seguidos pela PRM violam também de forma flagrante os princípios da prisão preventiva, como estabelece o artigo 64 da CRM, que determina que qualquer pessoa privada de liberdade deve ser informada, de forma imediata e compreensível, sobre as razões de sua prisão ou detenção, bem como sobre os seus direitos. No entanto, neste caso específico, tal procedimento foi completamente descartado, uma vez que os detidos só tomaram conhecimento das acusações que lhes eram imputadas no momento da sua libertação.

Afinal, que país é este? Que terra sem lei é esta? Dúvidas não restam que a actuação da PRM no caso da detenção destes três cidadãos apresenta várias irregularidades e graves violações dos direitos humanos. Salomão Júlio, Armando Chirindza e Orlando Artur estavam a exercer o seu direito constitucional à manifestação, além de buscarem informações sobre o paradeiro do menor Leonardo Mpasso. No entanto, foram detidos de forma violenta e desumana, sendo torturados e coagidos a assinar documentos que nem puderam ler. Além disso, o julgamento apressado e a conversão da pena de prisão em multa sem considerar a gravidade dos abusos sofridos pelos detidos ilustram a falta de respeito pelo Estado de Direito e pela protecção dos direitos fundamentais. Ao cabo, este cenário revela o carácter criminoso e impune da PRM e até do nosso judiciário.

Não foram apenas esses cidadãos que foram violentados, mas todos nós, a vila de Matutuíne, o país inteiro e o Estado de Direito, que mais uma vez nos mostraram que as leis só se aplicam quando é conveniente para a nossa elite política. Além do mais, infelizmente sabemos muito bem que isto não é um caso isolado. Um pouco por todo o país, e em particular desde o início das manifestações pós-eleitorais, mais de 320 pessoas já foram mortas, muitas destas assassinadas pela polícia. Não se sabe de nem um agente policial, Comandante ou Ministro que tenha sido responsabilizado por estas mortes e pelas graves violações processuais e de Direitos Humanos que têm sido denunciadas diariamente por vários actores sociais. É uma tirania contra o povo, numa tentativa absurda de conter o descontentamento social provocado pelas últimas eleições fraudulentas, e por vários anos de um modelo de governação excludente e elitista e de um sistema sócio-económico focado na acumulação de capital, que depende da exploração dos(as) trabalhadores(as) e da natureza.

É urgente interromper este ciclo de violência, desgovernação e censura em que estamos mergulhados, e abrir espaço para uma cidadania activa, que recupere a confiança nas instituições do Estado através da responsabilização daqueles que atropelam as leis e os direitos fundamentais, independentemente de quem sejam. Seguiremos em luta por justiça, pela responsabilização dos agentes envolvidos nestes crimes e seus superiores, e por um Moçambique diferente: com justiça social, económica, ambiental e de género.

E se a soberania reside no povo, a esperança também. Ao retornar a casa, sendo recebido por toda a comunidade de Mudada, e depois de tudo que havia passado, Orlando enviou-nos uma mensagem inequívoca: “a população aqui de Mudada está firme e consciente, não vamos recuar. Nós não temos armas, mas também não temos medo. A nossa luta é justa!”

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2 Meses de Luto . 2 Meses de Luta

Hoje, 19 de Dezembro de 2024, recordamos com muita revolta e dor o brutal assassinato de Elvino Dias e Paulo Guambe, ocorrido há 2 meses. Continuamos à espera de respostas e de justiça para Elvino Dias e Paulo Guambe! Quem ordenou o assassinato? Quem puxou o gatilho? Não vamos nos esquecer, não vamos desistir de exigir justiça, mesmo sabendo que a nossa justiça é deficiente, partidária e vergonhosamente lenta!

A nossa revolta e a nossa angústia só tem vindo a aumentar, tal como tem vindo a aumentar o número de moçambicanos assassinados (pelo menos 130 pessoas), feridos, presos e torturados pelas Forças de Defesa e Segurança do Estado. Já são tantos os moçambicanos assassinados por exigir justiça eleitoral e por fazer valer os seus direitos, que agora são números, são 130 pessoas… quem são estes moçambicanos? São tantos, que passamos a referir-nos a eles e a elas apenas por números, mas não são números, são cidadãos moçambicanos que tinham famílias, sonhos e que por estes sonhos foram à rua protestar, pelos seus direitos, pelos nossos direitos e liberdades… Por isso mesmo, não são 130 famílias de luto, estamos todos de luto e nos juntamos a todas estas famílias!

Não há palavras para amenizar a dor de quem perdeu os seus familiares desta forma, não foi acidente, não foi doença, nem tão pouco foi velhice, foram barbaramente assassinados pela polícia que os jurou proteger!

Exigimos justiça, exigimos que sejam devidamente investigados todos estes casos e que sejam exemplarmente punidos todos os envolvidos, desde os autores dos tiros, aos que ordenaram dos seus gabinetes estas matanças, até todos os que têm o poder para parar esta chacina e não o fizeram, sendo por isso cúmplices. Hoje, estas palavras tem outra dimensão… quando exigimos justiça, a nossa exigência tem um destinatário. Mas hoje, não estamos certos de quem é esse destinatário! A quem exigimos esta justiça? Ao Estado? Mas foram as forças de defesa e segurança do Estado que mataram, prenderam e perseguiram manifestantes… À PGR que se mantém no silêncio e só actua em defesa de corruptos e contra os ”partidos da oposição”? Nunca vimos justiça na PGR, por isso custa-nos acreditar que seja possível…

O cenário actual só veio confirmar o que há muitos muitos anos temos vindo a denunciar, tal como tantos outros, o Estado e as suas instituições estão completamente cooptados, completamente partidarizados e servem apenas e somente ao Partido no Poder, que se mantém no poder exactamente através destas instituições do Estado, incluindo as Forças de Defesa e Segurança do Estado, que cumprem ordens ilegais e assassinam cidadãos que se manifestam contra tantas, tão graves e evidentes violações de direitos e abuso de poder.

A actuação do Conselho Constitucional é apenas o último acto deste circo montado, hoje vemos os juízes comportarem-se como actores de telenovela, julgando-se os donos e senhores da verdade, no auge da sua arrogância e prepotência, enquanto todos nós aguardamos ansiosamente destes a decisão sobre o nosso destino… se nos recordarmos do processo de validação das eleições autárquicas de 2023, também carregadas de irregularidades comprovadas e altamente contestadas mas validadas por este mesmo órgão, percebemos que esperar deste orgão a verdade e a justiça pode ser tão provável quanto esperar que os corruptos, já bastante conhecidos, se entreguem de livre e espontânea vontade e devolvam tudo o que pilharam ao longo dos anos ao nosso país. Ou seja, altamente improvável. O nosso maior desejo neste momento, é sem dúvida que o CC nos surpreenda, nos mostre que realmente defendem a verdade e a justiça, para que possamos então reconstruir o nosso país com base nos direitos do povo, centrado na justiça e igualdade para todas e todos!

Até lá, continuaremos a lembrar e a homenagear tantos e todos que por acreditar num país mais justo para todos nós, foram barbaramente assassinados. E assim nos re-erguemos do luto para a luta pelo país que acreditamos ser possível construir juntos!

Até sempre Companheiro Elvino,

Até sempre Companheiro Paulo.

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1 Mês Sem Respostas, Sem Pistas e Sem Justiça

Companheiro Dr. Elvino dias, ontem fez 1 mês que te crivaram de balas, que te assassinaram barbara e covardemente porque exigiste Justiça… porque não te calavas… e porque queriam enterrar a verdade… mas acima de tudo crivaram te de balas porque podem, porque reina a impunidade para alguns!!!

Ao longo deste mês, choramos por ti, choramos por nós mesmos e levantamo-nos em revolta e indignação pelo teu assassinato! Na nossa profunda revolta, recordamos tantos outros que como tu não se calavam, não desistiam e como tu também foram crivados de balas, silenciados! Continuamos até hoje à espera de justiça! Se te contar como foi este mês sem ti, não sei mesmo irias acreditar… Marchamos e manifestamos a nossa profunda indignação e revolta, marchamos por justiça eleitoral, marchamos por um país de todos e para todos… as nossas manifestações pacíficas foram travadas com um arsenal de guerra que nem sabiamos que existia no nosso país… vimos helicopteros todos os dias, mas nunca os tinhamos visto quando precisamos deles… vimos uma pujança militar que nos espantou e levou-nos a questionar como é que então ainda estamos a morrer em Cabo Delgado? Por nos manifestarmos, mais 50 companheiros se juntaram a ti, estes todos pelas mãos da nossa polícia! Alguns destes, eram apenas meninos ainda, com muito por aprender e viver, mas o seu Direito à Manifestação custou-lhes a vida… que também era um Direito…

A revolta, a indignação, a determinação e a solidariedade do povo, de todos nós, nunca esteve tão evidente! Quanto mais tentam nos calar, domar e aterrorizar mais nos revoltamos, mais nos unimos e mais escancarada fica a verdade, a vossa “democracia” doente e corrupta está escancarada perante o mundo inteiro… cortaram-nos o acesso à internet e continuamos a manifestar-nos… ameaçaram-nos, insultaram-nos, violaram os nossos direitos fundamentais na esperança de matar a nossa esperança, mas quanto mais nos reprimem mais fortes e unidos estamos. Não nos vão calar a todos, não há balas que cheguem para todos nós… Exigimos Justiça… Exigimos respeito pelos nossos direitos… Exigimos que seja reposta a verdade eleitoral! E vamos sim continuar a exigir também Justiça por ti, companheiro Elvino e por todos que tem sido cruelmente silenciados por acreditarem na Justiça… na verdade!

Esta crise deve trazer o melhor de todos nós, já todos perdemos muito… muitos perderam demasiado, a todos estes que perderam familiares e amigos nas manifestações, pelas mãos da polícia, as nossas sinceras condolências. Precisamos ser mais solidários e mais tolerantes, enquanto continuamos a defender os nossos direitos e liberdades e a denunciar a violência contra o povo, pautando sempre pela justiça, pelo respeito às liberdades, deveres e direitos de todos.

Até sempre!

A Luta continua!

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“A terra é dos moçambicanos, não é da França” ‘The land belongs to Mozambicans, not to France’

CONTINUA O PROTESTO de duas semanas contra a TotalEnergies e o seu projecto de gás Projecto de GNL de Moçambique e violações ao reassentamento

Comunidades de Afungi, Distrito de Palma, Cabo Delgado, Moçambique

15 de novembro de 2024
Justiça Ambiental, Moçambique

Manifestações fecham os portões das instalações da TotalEnergies Afungi

Esta manhã, membros das comunidades de Macala e Mangala, reuniram-se novamente desde o
início da manhã para continuar a sua manifestação de duas semanas contra as violações dos
seus direitos à terra pelo projeCto de gás Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies. A
manifestação de ontem contou com a presença de pelo menos 400 pessoas. Esta manhã, o
número de manifestantes já é elevado e continua a aumentar. Após as tentativas de ontem dos

governos distrital e provincial para os convencer a abandonar a zona, a situação está a agravar-
se. Esta manhã, famílias de uma terceira comunidade, a Aldeia de Reassentamento de Quitunda,

estão a engrossar as fileiras.

“tal como estamos a parar a produção de alimentos,
a empresa também deve parar as suas actividades”

“just as we are stopping food production,
the company should stop their activities as well”

Num contexto de greves nacionais e manifestações com o objectivo de exigir justiça eleitoral, o
povo moçambicano aproveita este momento para manifestar o seu descontentamento face à
injustiça social a que está sujeito. Um povo visivelmente cansado e revoltado sai à rua para
manifestar a sua indignação perante um sistema de saúde precário, uma educação de má ou
inexistente qualidade, um sistema de transportes deficiente, o aumento da criminalidade, a falta de
acesso ao emprego para jovens e adultos, e para que se busquem medidas que acabem com a
fome que paira sobre as famílias moçambicanas, numa altura em que – durante 20 anos – os
projectos de exploração dos recursos naturais foram a promessa de um Moçambique melhor para
todos os moçambicanos.
O cenário em Afungi hoje: os manifestantes dividiram-se em quatro grupos e obstruíram a
circulação em quatro dos portões de acesso às instalações da TotalEnergies Afungi.
O processo de reassentamento em Afungi está em curso desde 2019, com o plano inicial de
reassentar 556 famílias e, desde então, muitas mais famílias foram reassentadas, mas poucas
destas famílias receberam terras de substituição para machambas que possam utilizar. Além
disso, há aqueles que cederam as suas terras para machambas para as famílias reassentadas,
mas não foram compensados até à data. Esses são os principais grupos que têm reivindicado
seus direitos nos portões da empresa.
A Justiça Ambiental diz: “O processo de reassentamento tem sido caracterizado por um
grande número de irregularidades, o que causou o descontentamento que culminou nestas
manifestações.”
As comunidades afirmam que suas preocupações estão relacionadas a:
 Recusa de pagamento de indemnizações pelos acordos assinados entre o projecto e cerca de
445 agregados familiares, relativos à ocupação de terrenos destinados às famílias reassentadas
em Quitunda. Estes acordos foram assinados entre Outubro de 2023 e Fevereiro de 2024. De
acordo com a cláusula 4.5 (a) destes acordos, as famílias afectadas são obrigadas a ceder as
suas terras e todos os bens nelas existentes a favor do projecto no prazo de 30 dias após a
assinatura destes acordos.
 Recusa de assinar acordos para o pagamento de indemnizações pelas terras que o projecto
mapeou e levantou, pertencentes a 158 agregados familiares nas mesmas duas comunidades. O
mapeamento foi realizado entre Outubro de 2023 e Março de 2024 pela empresa.
As comunidades de Macala e Mangala fizeram várias reclamações ao projecto sobre estas
questões. Em Agosto de 2024, os representantes da TotalEnergies na área de reassentamento
reuniram-se com as famílias afectadas e informaram-nas de que o projecto não lhes pagaria
qualquer compensação. Esta decisão foi tomada sem respeito ou consulta das comunidades, e a
empresa não apresentou uma razão para a decisão.
Este pronunciamento não só criou um clima de incerteza e desespero entre os membros
destas duas comunidades, como também causou grandes frustrações.
É regra estabelecida pelo projecto em todas as comunidades afectadas que as famílias afectadas
suspendam imediatamente qualquer actividade relacionada com a produção agrícola ou a
manutenção dos campos afectados. Esta regra visa combater o oportunismo, por um lado, e
garantir que o projecto compensa as propriedades afectadas no momento do mapeamento. Esta
regra também tem sido cumprida pelas famílias afectadas.
Nas comunidades de Macala e Mangala, 445 famílias assinaram acordos de compensação e 158
famílias afectadas ainda não o fizeram. Todas as 603 famílias afectadas pelo projecto foram
proibidas de utilizar as suas terras a partir de Outubro de 2023. Trata-se de terras que o projecto
já utilizou – fazendo estradas no meio do que costumavam ser importantes campos agrícolas. Os
manifestantes explicam que as frustrações nas suas comunidades também têm muito a ver com o
tempo perdido.

Os membros da comunidade dizem que consideram esta situação injusta para eles e
ameaçadora para as suas vidas, porque a terra ocupada pelo projecto é a única fonte da
sua sobrevivência.

Em Setembro de 2024, os membros das comunidades de Macala e Mangala escreveram uma
carta ao governo do distrito de Palma apresentando estas preocupações e frustrações. A carta
também informava o comando distrital da PRM (polícia) e o administrador distrital sobre a intenção
das comunidades de realizar uma manifestação. As manifestações foram adiadas pelo
administrador do distrito, que disse estar a discutir as queixas com o governo provincial.

No dia 02 de Novembro de 2024, os membros das comunidades de Macala e Mangala iniciaram
as suas manifestações. Nesse dia, fecharam as estradas que foram construídas através dos seus
campos e colocaram cartazes a explicar o seu descontentamento. Isto não teve um impacto
negativo no trabalho e no movimento do projecto e dos seus empreiteiros.

Em 8 de Novembro de 2024, os manifestantes reuniram-se no portão principal que dá acesso ao
campo do projecto. Nesse dia, a manifestação forçou o encerramento da entrada e saída do
pessoal do projecto e dos seus contratantes. Os membros da comunidade só interromperam o seu
protesto após negociações com o Administrador Distrital no local.
A manifestação recomeçou no dia 11 de Novembro de 2024, durando o dia inteiro. No final do
dia, o administrador disse aos manifestantes que o Governador da Província de Cabo Delgado se

encontraria com eles a 14 de novembro de 2024 para negociações que poderiam dar respostas
às exigências das duas comunidades.
Neste momento, 15 de Novembro de 2024, o governador e o administrador encontram-se no
interior do acampamento da TotalEnergies Afungi, e as informações sobre o que ali está a ser
discutido só serão conhecidas quando regressarem à população.
Há uma indicação clara de que as comunidades afectadas pelo gás tencionam permanecer
nos portões. Agora, aguardamos notícias.
Contact: Kete Mirela Fumo / kete.ja.mz@gmail.com

Antecedentes
O projecto Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies, recebeu direitos de terra sobre cerca
de 7.000 hectares de terra na Península de Afungi, bem como direitos sobre áreas costeiras, para
as suas infra-estruturas e operações. O projecto é obrigado a compensar as pessoas afectadas.
Apesar de a TotalEnergies ter declarado, em Maio de 2024, que todas as indemnizações tinham
sido pagas, é evidente que não é esse o caso. Os testemunhos das pessoas afectadas podem ser
consultados aqui [https://stopmozgas.org/from-the-ground/video-testimonies/].
Há queixas registadas em todas as comunidades afectadas pelo projecto relativamente à falta de
habitação, machambas (terrenos agrícolas) e pagamentos parciais ou inexistentes de
compensações. Nas comunidades de Quitunda, Senga, Mangala, Macala, Maganja e Palma-sede
há pessoas que ainda não receberam indemnizações ou que já receberam parte das
indemnizações, e outras que ainda não assinaram acordos. Estão a surgir evidências de ainda
mais violações dos direitos das populações relacionadas com as actividades do projecto.

Justiça Ambiental! (JA!) / Amigos da Terra Moçambique: JA! é uma organização da sociedade
civil em Moçambique que apoia a justiça ambiental a nível comunitário, nacional e internacional.
JA! vê o ambiente como um conceito holístico e, portanto, a justiça ambiental como o acto de usar
o ambiente como um veículo para garantir a equidade e a igualdade em toda a sociedade. Em
apoio ao desenvolvimento sustentável, consideram o conceito de igualdade em grande escala e,
como tal, valorizam os direitos das gerações futuras a um ambiente saudável e seguro, na mesma
medida em que esse direito é valorizado pela humanidade. A JA! recebeu o Silver Rose Just
Transition Award 2023 pela sua luta por uma transição justa e contra os projectos de combustíveis
fósseis e a apropriação de terras em Moçambique. Em 2024, a directora da JA!, Anabela Lemos,
será homenageada com o Right Livelihoods Award. Justiça Ambiental! (JA!) é a palavra
portuguesa para Justiça Ambiental! e ‘JA’ significa ‘agora’ em português.

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