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TORTURA, COACÇÃO E ESQUIZOFRENIA GEOGRÁFICA: O CASO DA DETENÇÃO DE TRÊS CIDADÃOS MANIFESTANTES DE MATUTUÍNE

No dia 6 de fevereiro de 2025, em frente à fábrica da Dugongo Cimentos no distrito de Matutuíne, três cidadãos foram detidos enquanto exerciam o seu direito constitucional à manifestação, um direito garantido pela Lei-Mãe e constantemente violado pela Polícia da República de Moçambique (PRM) e seus órgãos afins, como a UIR e a FDS.

Alguns dias antes, familiares do menor Leonardo Mpasso haviam-se dirigido à esquadra de Matutuíne para saber sobre o seu paradeiro, pois havia sido levado por militares no dia 29 de Janeiro, no contexto das manifestações. Na esquadra, as únicas respostas que obtiveram foram de que à guarda da polícia não tinha registo de ninguém com esses dados. Como o menor continuava desaparecido (e continua até hoje), a comunidade decidiu então fazer uma manifestação no dia 6 como forma de pressionar a polícia para devolver Leonardo ao seio familiar.

É importante aqui esclarecer o contexto mais amplo destas manifestações: as comunidades de Mudada, Mudissa e Mabilibili, no distrito de Matutuíne têm organizado várias manifestações nos últimos anos a protestar contra a violação dos seus direitos por parte da Dugongo Cimentos. Estas violações incluem: os reassentamentos indignos e sem o devido consentimento das famílias, a perda de terras e machambas e consequente perda de meios de subsistência, a poluição ambiental e sonora, a exumação de corpos de forma desumana e desrespeitando as tradições locais, e as constantes intimidações e ameaças de que são vítimas por levantarem a sua voz perante estas injustiças. A todas estas questões que se arrastam há vários anos, desde que foram impedidos de praticar agricultura, construir habitações e realizar cerimónias tradicionais nas suas terras em 2007, juntaram-se os protestos contra a fraude eleitoral e contra o elevado custo de vida, de particular impacto em famílias que viviam com o que produziam nas terras que agora lhes foram usurpadas.

Entretanto, o que era para ser uma manifestação pacífica a exigir informações sobre o paradeiro do Leonardo transformou-se num verdadeiro pesadelo para Salomão (tio de Leonardo), Armando Chirindza e Orlando Artur, que foram colocados num Mahindra e acabaram permanecendo cerca de 48 horas sob a custódia da PRM.

Uma equipa da Justiça Ambiental dirigiu-se imediatamente à esquadra de Matutuíne, onde fomos informados pela Oficial de Permanência que ninguém havia sido detido naquele dia. Esta mentira durou pouco: poucos minutos depois, testemunhámos os três cidadãos em causa a serem retirados dali, desrespeitados e tratados brutalmente, despidos e com olhos vendados, enquanto eram colocados na parte de baixo de outro Mahindra e conduzidos por um forte aparato da UIR para um destino desconhecido. Este tem sido o modus operandi da PRM, que, ao prender cidadãos, faz isso da forma mais desumana possível, violando um dos princípios mais básicos da existência humana, o princípio da dignidade da pessoa humana.

Desde quinta-feira, 6 de fevereiro, dúvidas, incertezas e medos pairavam na comunidade de Matutuíne e entre os familiares dos cidadãos detidos. Não havia certeza se eles voltariam com segurança para seus lares. Em vários pontos do país, no contexto das manifestações pós-eleitorais, muitos cidadãos que são vistos sob custódia da polícia acabam por desaparecer sem deixar rastro, havendo inúmeros relatos de assassinatos e torturas. Mais tarde viríamos a descobrir que de Matutuíne foram levados para a 18a Esquadra da PRM, localizada nas proximidades do Comando da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), na zona conhecida como “Brigada Montada”, tendo sido pisados e maltratados durante todo o caminho. Chegados lá, foram agredidos brutalmente e tratados de forma degradante, espancados, torturados com água quente incluindo nos órgãos genitais, violando o artigo 40 da Constituição de Moçambique, que proíbe tortura e tratamentos cruéis, e violando princípios fundamentais de Direitos Humanos.

No dia seguinte, 7 de Fevereiro, enquanto a equipe da JA!, desta vez acompanhada por advogados da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados (OAM-CDH), buscava informações sobre o paradeiro dos cidadãos, fomos surpreendidos com a informação que os mesmos se encontravam na 2ª Esquadra da Matola. Várias dúvidas surgiram: porquê a 2ª Esquadra da Matola? Por que nos foi negado acesso a informações sobre o que aconteceu desde o momento em que esses cidadãos foram retirados do Comando Distrital de Matutuíne? Qual o motivo para o uso desproporcional da força e a presença de um forte contingente militar para conduzir três cidadãos desarmados que, evidentemente, não representavam nenhum perigo?

Chegados à 2ª Esquadra, soubemos que os cidadãos estavam sob regime de “depósito” e que havia um pedido “especial” em seu nome. É sabido que, tratando-se de um regime de depósito, os detidos deveriam ter um despacho de condução: a transferência de detidos de um local para outro não deve ser realizada de forma arbitrária. No caso em questão, não houve qualquer fundamento legal que justificasse, nem uma guia de marcha que legitimasse a transferência dos detidos de Matutuíne para a Matola. Os agentes não souberam explicar as razões de terem recebido esses “hóspedes” em suas celas, e aparentemente os autos de notícia tinham ficado em Matutuíne. Após muita insistência para vermos os 3 cidadãos, finalmente trouxeram-nos ao nosso encontro. Marcas das agressões eram visíveis em seus corpos, com hematomas e marcas de violência nos braços, nas costas e no rosto. Durante a conversa com eles, demonstraram a sua revolta pela forma como foram tratados e violentados. “Nunca esperei viver isto que está a acontecer no nosso país, levamos muita porrada”, disse-nos Armando. Até então, ninguém sabia dizer quais eram as acusações levantadas contra eles. Mais tarde nesse dia, pelas 18h, os 3 cidadãos foram obrigados a assinar documentos que nem tiveram oportunidade de ler.

Buscamos compreender as razões pelas quais os detidos foram coagidos a assinar o auto de notícia sem a devida leitura, sob intensa coacção física e moral. Esta conduta, nos termos da lei, torna nulas todas as provas obtidas por meio de tortura, coacção ou qualquer forma de ofensa à integridade física ou moral da pessoa, nos termos do n.º 3 do artigo 65 da Constituição da República.

No sábado, 8 de fevereiro, fomos novamente surpreendidos com a notícia de que o julgamento já havia ocorrido no Tribunal Judicial do Distrito de Boane, e que os cidadãos já estavam a regressar às suas casas. Haviam sido condenados a uma pena de 3 dias, convertida em multa, pelo crime de coacção motim.

A situação causou-nos ainda mais espanto. Sendo um processo especial, nos termos da lei, qualquer tribunal do distrito teria competência para julgar o caso. Não entendemos a razão pela qual os detidos foram transferidos de um distrito para serem julgados por um tribunal distrital em outro distrito. Considerando que os alegados crimes foram cometidos no distrito de Matutuíne, deveriam ser julgados no Tribunal Judicial do Distrito de Matutuíne. Estamos então diante de uma manifesta ‘esquizofrenia geográfica’ da PRM, ao deter os cidadãos num distrito, transportá-los aleatoriamente e sem qualquer documentação para outro distrito, e posteriormente julgá-los num terceiro distrito por um tribunal sem competência para tal!

Os parâmetros seguidos pela PRM violam também de forma flagrante os princípios da prisão preventiva, como estabelece o artigo 64 da CRM, que determina que qualquer pessoa privada de liberdade deve ser informada, de forma imediata e compreensível, sobre as razões de sua prisão ou detenção, bem como sobre os seus direitos. No entanto, neste caso específico, tal procedimento foi completamente descartado, uma vez que os detidos só tomaram conhecimento das acusações que lhes eram imputadas no momento da sua libertação.

Afinal, que país é este? Que terra sem lei é esta? Dúvidas não restam que a actuação da PRM no caso da detenção destes três cidadãos apresenta várias irregularidades e graves violações dos direitos humanos. Salomão Júlio, Armando Chirindza e Orlando Artur estavam a exercer o seu direito constitucional à manifestação, além de buscarem informações sobre o paradeiro do menor Leonardo Mpasso. No entanto, foram detidos de forma violenta e desumana, sendo torturados e coagidos a assinar documentos que nem puderam ler. Além disso, o julgamento apressado e a conversão da pena de prisão em multa sem considerar a gravidade dos abusos sofridos pelos detidos ilustram a falta de respeito pelo Estado de Direito e pela protecção dos direitos fundamentais. Ao cabo, este cenário revela o carácter criminoso e impune da PRM e até do nosso judiciário.

Não foram apenas esses cidadãos que foram violentados, mas todos nós, a vila de Matutuíne, o país inteiro e o Estado de Direito, que mais uma vez nos mostraram que as leis só se aplicam quando é conveniente para a nossa elite política. Além do mais, infelizmente sabemos muito bem que isto não é um caso isolado. Um pouco por todo o país, e em particular desde o início das manifestações pós-eleitorais, mais de 320 pessoas já foram mortas, muitas destas assassinadas pela polícia. Não se sabe de nem um agente policial, Comandante ou Ministro que tenha sido responsabilizado por estas mortes e pelas graves violações processuais e de Direitos Humanos que têm sido denunciadas diariamente por vários actores sociais. É uma tirania contra o povo, numa tentativa absurda de conter o descontentamento social provocado pelas últimas eleições fraudulentas, e por vários anos de um modelo de governação excludente e elitista e de um sistema sócio-económico focado na acumulação de capital, que depende da exploração dos(as) trabalhadores(as) e da natureza.

É urgente interromper este ciclo de violência, desgovernação e censura em que estamos mergulhados, e abrir espaço para uma cidadania activa, que recupere a confiança nas instituições do Estado através da responsabilização daqueles que atropelam as leis e os direitos fundamentais, independentemente de quem sejam. Seguiremos em luta por justiça, pela responsabilização dos agentes envolvidos nestes crimes e seus superiores, e por um Moçambique diferente: com justiça social, económica, ambiental e de género.

E se a soberania reside no povo, a esperança também. Ao retornar a casa, sendo recebido por toda a comunidade de Mudada, e depois de tudo que havia passado, Orlando enviou-nos uma mensagem inequívoca: “a população aqui de Mudada está firme e consciente, não vamos recuar. Nós não temos armas, mas também não temos medo. A nossa luta é justa!”

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Crise pós-eleitoral em Moçambique e protestos nas multinacionais

A crise eleitoral que se verifica em Moçambique desde a realização das eleições em Outubro de 2024, são resultado de um longo período de revolta e insatisfação, generalizada pelas condições de vida precárias, desigualdade social e de género, desemprego juvenil, índices de criminalidade nos principais centros urbanos, extrema vulnerabilidade aos fenómenos climáticos, dependência contínua de apoios económicos externos e violência política. Num contexto em que muitas foram as promessas de que a exploração dos nossos recursos naturais iria satisfazer as necessidades de mais de 30 milhões de moçambicanos, desde que iniciaram os licenciamentos e concessões as multinacionais estrangeiras e seus megaprojectos. No entanto, passados 20 anos para alguns destes projectos, os jovens moçambicanos e não só, veem as suas expectativas frustradas.

Aliado a isso, as diferentes classes sociais, profissionais e comunitárias começam a mostrar uma coragem destemida, e a sair às ruas para expressar a saturação social dos quase 50 anos de opressão. As comunidades afectadas pela indústria extractiva, encontraram a oportunidade para também fazer exigências sobre os benefícios que supostamente obteriam, porém, tais benefícios ficaram só escritos no papel, porque a miséria, o sofrimento e a falta de esperança são as únicos impactos da indústria extractiva que os moçambicanos nas zonas rurais directamente afectadas, sentem na pele a cada nascer do sol.

No distrito de Larde, na localidade de Topuito, decorre a extracção de areias pesadas pela empresa irlandesa Kenmare, que após 20 anos de exploração, reassentamentos injustos e destruição de meios de subsistência das comunidades circunvizinhas, nenhum benefício plausível e expressivo, trouxe para a vida daquelas comunidades que tem sido utilizadas como peças de xadrez para ceder espaço a exploração. A invasão do acampamento da Kenmare no dia 06 de Dezembro, no âmbito das manifestações pós-eleições, foi a demonstração clara da insatisfação da comunidade de Topuito e de Larde, que não conseguem perceber como e nem porquê, perderam suas terras para uma empresa que não trouxe nenhuma mudança positiva nas suas vidas.

A gota de água, reside na pior de todas as falsas promessas que o governo e a Kenmare fizeram as comunidades, que é a construção de uma ponte de ligação entre a localidade de Topuito e a Vila sede do Distrito de Larde. Tudo remonta a 2016, quando a Kenmare decidiu alargar a área de extracção de areias pesadas abrangido deste modo a floresta sagrada da comunidade, onde se situava o Monte Felipe. Esta floresta, de acordo com a crença local, era onde residiam os espíritos protectores e provedores da chuva, para além da capacidade de cura que eram atribuídas as águas que jorravam de uma fonte que existia no monte, representados por uma enorme serpente que habitava naquele monte.

De forma prolongada a comunidade resistiu a permitir actividades da empresa naquele ponto, porque se acreditava que a destruição do Monte Felipe e da floresta traria azar para a comunidade e que a liderança local não sobreviveria a tal sacrilégio. No entanto, com o apoio incondicional do governo a nível provincial foi feita uma reunião com os líderes tradicionais que culminou com a entrega do local sagrado a Kenmare, facto interessante de ressaltar é que, imediatamente após a assinatura dos documentos, o régulo morreu. Terá sido a fúria dos espíritos, ou outra razão qualquer?! Não se sabe.

O facto é que em troca do local sagrado estava prevista a construção da ponte de conexão entre a localidade de Topuito e a Vila sede do distrito de Larde. Importa referir que para além de desempenhar um papel cultural e tradicional sagrado, servia igualmente de “farol” que permitia aos pescadores em alto mar identificar terra firme e não se perderem no seu caminho de regresso a casa. O consenso a alcançar era no sentido de expansão da área a explorar, mas preservando-se um espaço mínimo de respeito pelos valores e crenças da comunidade, no Monte Felipe, mas como sempre, o interesse das comunidades mais uma vez foi negligenciado e hoje nada resta do monte Felipe, a não ser o monte de areia branca e insípida que sobra após serem sugadas todas as suas propriedades pela ambição capitalista desmedida das máquinas.

É por esta e outras razões que o acampamento foi invadido, o avião perseguido, os carros levados a força para fazer parte da manifestação em Moma e a Kenmare forçada a assinar o acordo de arranque da construção da ponte prometida em 2016. Da mesma forma, que a Kenmare forçou aos líderes tradicionais a cederem o monte com o apoio do governo, desta vez foi forçada a cumprir com a sua palavra e a fazer o mínimo depois de anos de toneladas de areias pesadas exploradas e de milhões de lucros amealhados.

Na referida segunda-feira, dia 09 de Dezembro, dia em que supostamente se lançaria mais uma vez a primeira pedra para a construção da ponte, a comunidade foi surpreendida com um forte contingente militar que não hesitou em abrir fogo contra os manifestantes e a empresa declarou a imprensa que a situação estava controlada.

Muitos questionam de onde vem tanto ódio, tanta raiva que se vê no semblante dos manifestantes? Esta vem de anos de exploração sem retorno, falsas promessas e corrupção descarada. É importante ressaltar que situações semelhantes ocorreram em Palma, na península de Afungi, onde após meses aguardando por receber a sua compensação a comunidade de Macala e de Mangala, teve que bloquear os portões da empresa TotalEnergies, durante duas semanas para que finalmente se começasse a prestar atenção as preocupações e reclamações da comunidade que já vem sendo apresentadas a empresa que tem vindo a ignorá -las desde o ano passado.

Há quem pode questionar o que os investimentos estrangeiros tem a ver com os problemas eleitorais, uma vez que só trazem mais postos de trabalho e dividendos para o país?! No entanto, estes tem tudo a ver com a representação de poder e exploração das camadas sociais mais desfavorecidas, representam a exclusão no acesso ao emprego para os jovens locais. Estes investimentos cometem atropelos as leis e são protegidas por este governo, actuam em parceria para destruir os meios de subsistência das comunidades e difundir falsas promessas.

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“A terra é dos moçambicanos, não é da França” ‘The land belongs to Mozambicans, not to France’

CONTINUA O PROTESTO de duas semanas contra a TotalEnergies e o seu projecto de gás Projecto de GNL de Moçambique e violações ao reassentamento

Comunidades de Afungi, Distrito de Palma, Cabo Delgado, Moçambique

15 de novembro de 2024
Justiça Ambiental, Moçambique

Manifestações fecham os portões das instalações da TotalEnergies Afungi

Esta manhã, membros das comunidades de Macala e Mangala, reuniram-se novamente desde o
início da manhã para continuar a sua manifestação de duas semanas contra as violações dos
seus direitos à terra pelo projeCto de gás Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies. A
manifestação de ontem contou com a presença de pelo menos 400 pessoas. Esta manhã, o
número de manifestantes já é elevado e continua a aumentar. Após as tentativas de ontem dos

governos distrital e provincial para os convencer a abandonar a zona, a situação está a agravar-
se. Esta manhã, famílias de uma terceira comunidade, a Aldeia de Reassentamento de Quitunda,

estão a engrossar as fileiras.

“tal como estamos a parar a produção de alimentos,
a empresa também deve parar as suas actividades”

“just as we are stopping food production,
the company should stop their activities as well”

Num contexto de greves nacionais e manifestações com o objectivo de exigir justiça eleitoral, o
povo moçambicano aproveita este momento para manifestar o seu descontentamento face à
injustiça social a que está sujeito. Um povo visivelmente cansado e revoltado sai à rua para
manifestar a sua indignação perante um sistema de saúde precário, uma educação de má ou
inexistente qualidade, um sistema de transportes deficiente, o aumento da criminalidade, a falta de
acesso ao emprego para jovens e adultos, e para que se busquem medidas que acabem com a
fome que paira sobre as famílias moçambicanas, numa altura em que – durante 20 anos – os
projectos de exploração dos recursos naturais foram a promessa de um Moçambique melhor para
todos os moçambicanos.
O cenário em Afungi hoje: os manifestantes dividiram-se em quatro grupos e obstruíram a
circulação em quatro dos portões de acesso às instalações da TotalEnergies Afungi.
O processo de reassentamento em Afungi está em curso desde 2019, com o plano inicial de
reassentar 556 famílias e, desde então, muitas mais famílias foram reassentadas, mas poucas
destas famílias receberam terras de substituição para machambas que possam utilizar. Além
disso, há aqueles que cederam as suas terras para machambas para as famílias reassentadas,
mas não foram compensados até à data. Esses são os principais grupos que têm reivindicado
seus direitos nos portões da empresa.
A Justiça Ambiental diz: “O processo de reassentamento tem sido caracterizado por um
grande número de irregularidades, o que causou o descontentamento que culminou nestas
manifestações.”
As comunidades afirmam que suas preocupações estão relacionadas a:
 Recusa de pagamento de indemnizações pelos acordos assinados entre o projecto e cerca de
445 agregados familiares, relativos à ocupação de terrenos destinados às famílias reassentadas
em Quitunda. Estes acordos foram assinados entre Outubro de 2023 e Fevereiro de 2024. De
acordo com a cláusula 4.5 (a) destes acordos, as famílias afectadas são obrigadas a ceder as
suas terras e todos os bens nelas existentes a favor do projecto no prazo de 30 dias após a
assinatura destes acordos.
 Recusa de assinar acordos para o pagamento de indemnizações pelas terras que o projecto
mapeou e levantou, pertencentes a 158 agregados familiares nas mesmas duas comunidades. O
mapeamento foi realizado entre Outubro de 2023 e Março de 2024 pela empresa.
As comunidades de Macala e Mangala fizeram várias reclamações ao projecto sobre estas
questões. Em Agosto de 2024, os representantes da TotalEnergies na área de reassentamento
reuniram-se com as famílias afectadas e informaram-nas de que o projecto não lhes pagaria
qualquer compensação. Esta decisão foi tomada sem respeito ou consulta das comunidades, e a
empresa não apresentou uma razão para a decisão.
Este pronunciamento não só criou um clima de incerteza e desespero entre os membros
destas duas comunidades, como também causou grandes frustrações.
É regra estabelecida pelo projecto em todas as comunidades afectadas que as famílias afectadas
suspendam imediatamente qualquer actividade relacionada com a produção agrícola ou a
manutenção dos campos afectados. Esta regra visa combater o oportunismo, por um lado, e
garantir que o projecto compensa as propriedades afectadas no momento do mapeamento. Esta
regra também tem sido cumprida pelas famílias afectadas.
Nas comunidades de Macala e Mangala, 445 famílias assinaram acordos de compensação e 158
famílias afectadas ainda não o fizeram. Todas as 603 famílias afectadas pelo projecto foram
proibidas de utilizar as suas terras a partir de Outubro de 2023. Trata-se de terras que o projecto
já utilizou – fazendo estradas no meio do que costumavam ser importantes campos agrícolas. Os
manifestantes explicam que as frustrações nas suas comunidades também têm muito a ver com o
tempo perdido.

Os membros da comunidade dizem que consideram esta situação injusta para eles e
ameaçadora para as suas vidas, porque a terra ocupada pelo projecto é a única fonte da
sua sobrevivência.

Em Setembro de 2024, os membros das comunidades de Macala e Mangala escreveram uma
carta ao governo do distrito de Palma apresentando estas preocupações e frustrações. A carta
também informava o comando distrital da PRM (polícia) e o administrador distrital sobre a intenção
das comunidades de realizar uma manifestação. As manifestações foram adiadas pelo
administrador do distrito, que disse estar a discutir as queixas com o governo provincial.

No dia 02 de Novembro de 2024, os membros das comunidades de Macala e Mangala iniciaram
as suas manifestações. Nesse dia, fecharam as estradas que foram construídas através dos seus
campos e colocaram cartazes a explicar o seu descontentamento. Isto não teve um impacto
negativo no trabalho e no movimento do projecto e dos seus empreiteiros.

Em 8 de Novembro de 2024, os manifestantes reuniram-se no portão principal que dá acesso ao
campo do projecto. Nesse dia, a manifestação forçou o encerramento da entrada e saída do
pessoal do projecto e dos seus contratantes. Os membros da comunidade só interromperam o seu
protesto após negociações com o Administrador Distrital no local.
A manifestação recomeçou no dia 11 de Novembro de 2024, durando o dia inteiro. No final do
dia, o administrador disse aos manifestantes que o Governador da Província de Cabo Delgado se

encontraria com eles a 14 de novembro de 2024 para negociações que poderiam dar respostas
às exigências das duas comunidades.
Neste momento, 15 de Novembro de 2024, o governador e o administrador encontram-se no
interior do acampamento da TotalEnergies Afungi, e as informações sobre o que ali está a ser
discutido só serão conhecidas quando regressarem à população.
Há uma indicação clara de que as comunidades afectadas pelo gás tencionam permanecer
nos portões. Agora, aguardamos notícias.
Contact: Kete Mirela Fumo / kete.ja.mz@gmail.com

Antecedentes
O projecto Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies, recebeu direitos de terra sobre cerca
de 7.000 hectares de terra na Península de Afungi, bem como direitos sobre áreas costeiras, para
as suas infra-estruturas e operações. O projecto é obrigado a compensar as pessoas afectadas.
Apesar de a TotalEnergies ter declarado, em Maio de 2024, que todas as indemnizações tinham
sido pagas, é evidente que não é esse o caso. Os testemunhos das pessoas afectadas podem ser
consultados aqui [https://stopmozgas.org/from-the-ground/video-testimonies/].
Há queixas registadas em todas as comunidades afectadas pelo projecto relativamente à falta de
habitação, machambas (terrenos agrícolas) e pagamentos parciais ou inexistentes de
compensações. Nas comunidades de Quitunda, Senga, Mangala, Macala, Maganja e Palma-sede
há pessoas que ainda não receberam indemnizações ou que já receberam parte das
indemnizações, e outras que ainda não assinaram acordos. Estão a surgir evidências de ainda
mais violações dos direitos das populações relacionadas com as actividades do projecto.

Justiça Ambiental! (JA!) / Amigos da Terra Moçambique: JA! é uma organização da sociedade
civil em Moçambique que apoia a justiça ambiental a nível comunitário, nacional e internacional.
JA! vê o ambiente como um conceito holístico e, portanto, a justiça ambiental como o acto de usar
o ambiente como um veículo para garantir a equidade e a igualdade em toda a sociedade. Em
apoio ao desenvolvimento sustentável, consideram o conceito de igualdade em grande escala e,
como tal, valorizam os direitos das gerações futuras a um ambiente saudável e seguro, na mesma
medida em que esse direito é valorizado pela humanidade. A JA! recebeu o Silver Rose Just
Transition Award 2023 pela sua luta por uma transição justa e contra os projectos de combustíveis
fósseis e a apropriação de terras em Moçambique. Em 2024, a directora da JA!, Anabela Lemos,
será homenageada com o Right Livelihoods Award. Justiça Ambiental! (JA!) é a palavra
portuguesa para Justiça Ambiental! e ‘JA’ significa ‘agora’ em português.

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Activistas por todo o mundo apelam aos bancos e investidores que parem de financiar a TotalEnergies

[Nova Iorque/Frankfurt/Paris, 2 de Outubro de 2024] – Na quarta-feira, 2 de outubro, activistas climáticos vão protestar em Nova Iorque, onde a TotalEnergies recebe os seus principais investidores. Esta semana, estão também a decorrer acções nas sedes dos investidores e bancos da TotalEnergies em Frankfurt e Paris. Os activistas apelam aos investidores e bancos para que assumam o compromisso imediato de deixar de emitir ou comprar novas obrigações da TotalEnergies, bem como de suspender todo o apoio às empresas que desenvolvem novos projectos de petróleo e gás.

As obrigações representaram mais de dois terços do financiamento externo da TotalEnergies nos últimos anos (1). Em 2024, a TotalEnergies angariou 7,25 mil milhões de dólares através de obrigações, que a empresa reembolsará na totalidade ao longo de décadas (2). 

No início deste ano, cerca de 60 ONGs apelaram aos bancos e investidores para que deixassem de conceder empréstimos à TotalEnergies, devido à “estratégia de destruição do clima” do gigante energético (3). Na sequência da carta, os bancos franceses BNP Paribas e Crédit Agricole anunciaram que deixariam de participar em emissões de obrigações convencionais para empresas do sector do petróleo e do gás (4). 

Movimentos de justiça climática, organizações e activistas – incluindo 350.org, Justiça Ambiental, Liveable Arlington, MilieuDefensie, Stop Total France, Toxic Bonds Network e urgewald – estão a pedir a outras instituições financeiras que sigam o exemplo e deixem de apoiar – incluindo a participação na emissão e compra de novas obrigações – a TotalEnergies e outras empresas que desenvolvem novos projectos de petróleo e gás.

Enquanto os investidores da TotalEnergies apertam as mãos durante o seu Dia do Investidor, em Nova Iorque, por causa do apoio financeiro que financiará a expansão petrolífera da empresa 40 anos no futuro, os activistas recordam-lhes o que isso significa para o clima. Denunciarão, em particular, o projeto EACOP, que a TotalEnergies continua a promover apesar da forte repressão de que são alvo as comunidades e os activistas que se opõem ao projecto (5). Até agora, 27 bancos comerciais comprometeram-se publicamente a não apoiar o projeto EACOP (6). Até agora, o projeto tem sido financiado por capital próprio dos seus acionistas, incluindo a TotalEnergies (7). É provável que as obrigações sejam importantes para o desenvolvimento de tais projectos, uma vez que permitem à empresa angariar grandes quantias de dinheiro sem condições relativas à sua utilização (8). 

Molly Ornati da 350Brooklyn.org : “No Uganda, os membros da comunidade e os activistas são constantemente intimidados, presos e processados por defenderem os seus direitos básicos. As manifestações que se limitam a exigir uma indemnização justa, o fim das deslocações e o fim da destruição do ambiente são recebidas com violência policial e detenções. Embora os bancos internacionais de todo o mundo tenham virado as costas ao projeto EACOP, continuam a permitir que a empresa avance com os seus projectos de petróleo e gás através de outros métodos de financiamento, como as obrigações. Os financiadores devem parar imediatamente de distribuir cheques em branco à TotalEnergies”.

Os manifestantes vão também denunciar o projecto Mozambique LNG, suspenso há 3 anos e recentemente alvo de críticas devido a relatos de alegadas atrocidades cometidas pelas forças armadas moçambicanas perto das instalações do projecto (9), e os projectos de gás de xisto da TotalEnergies no Texas (10).

Ranjana Bhandari, directora da Liveable Arlington em Arlington, Texas, onde residem 400 000 habitantes expostos às operações de fracking urbano da Total, declarou  “As actuais operações de fracking do gigante francês de energia TotalEnergies’ estão a colocar em risco milhares de famílias e crianças na cidade de Arlington, em todo o Texas, e em outros locais do país e do mundo. É altura dos consumidores e investidores exigirem que bancos americanos como o Citi, o JP Morgan e o Bank of America deixem de financiar estas obrigações de longo prazo que estão a prejudicar os próprios residentes das cidades onde estes bancos estão a operar.” 

Anabela Lemos, da Justiça Ambiental, Moçambique: “O projecto de gás da TotalEnergies em Cabo Delgado está associado à apropriação de terras, à perda de meios de subsistência e a violações dos direitos humanos, além de um conflito violento. A TotalEnergies está agora a planear co-desenvolver a controversa mega-barragem de Mphanda Nkuwa no rio Zambeze. Mesmo antes do início da construção, as comunidades locais relatam intimidações e violações dos direitos humanos com o intuito de forçá-las a aceitar o projecto. Se a barragem avançar, este hotspot de biodiversidade poderá sofrer danos irreversíveis e milhares de famílias perderão as suas terras, os seus meios de subsistência e o seu futuro.  Os financiadores são eticamente obrigados a recusar-se a apoiar o rasto de destruição da TotalEnergies em todo o mundo”.

FIM

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Contactos de imprensa: 

Anabela Lemos, Justiça Ambiental, anabela.ja.mz@gmail.com

Ranjana Bandhari, Liveable Arlington, liveablearlington@gmail.com 

Melanie Smith, 350.org US melanie.smith@350.org 

Sobre as acções:

  • Nova Iorque: a acção tem lugar às 8h00 na sede do Citibank. A imprensa é bem-vinda. O Citi é o mais importante subscritor das obrigações actuais da TotalEnergies (11), o principal banco nos EUA entre 2021 e 2023 (12) e participou na subscrição da emissão de obrigações de 3 mil milhões de dólares da TotalEnergies em 10 de setembro de 2024. 
  • Frankfurt: na quinta-feira, 26 de outubro, teve lugar um protesto em frente à sede do Deutsche Bank em Frankfurt. O Deutsche Bank é o terceiro mais importante subscritor das obrigações em curso da TotalEnergies (11), o principal banco na Alemanha entre 2021 e 2023 (12) e participou na subscrição da emissão de obrigações de 4,25 mil milhões de dólares da TotalEnergies em 5 de abril de 2024.  A DWS, a filial de gestão de activos do Deutsche Bank, é o primeiro investidor da TotalEnergies na Alemanha (12). 

Fotografias estão disponíveis mediante pedido para os contactos de imprensa. 

Notas : 

(1) Entre 2016 e 2023, 69,8% do financiamento da TotalEnergies provém de obrigações, de acordo com dados da Banking On Climate Chaos, 2024

(2) A maturidade média (data em que a obrigação se vence e deve ser reembolsada pela empresa emissora) das obrigações emitidas pela TotalEnergies entre 2020 e 2024 foi de 22 anos, em comparação com 6 anos para as obrigações emitidas entre 2000 e 2004, de acordo com um recente estudo do AFII, 2024.

(3) The Brussels Times, Nearly 60 NGOs call on banks and investors to stop lending to TotalEnergies, 2024

(4) Reclaim Finance, BNP Paribas and Crédit Agricole Say No to Bonds for the Oil and Gas Sector, 2024

(5) #STOPEACOP, Uganda Silences EACOP Critics: Activists and Affected Communities Detained, 2024

(6)  #STOPEACOP Who’s Behind EACOP?, 2024

(7) Os acionistas do projeto são a TotalEnergies, a China National Offshore Corporation, a Uganda National Oil Company e a Tanzanian Petroleum Development Corporation.

(8)  Reclaim Finance, TotalEnergies and financial markets: Financial institutions engaged for decades of pollution, 2024

(9) Politico, All must be beheaded”: Allegations of atrocities at French energy giant’s African stronghold, 2024

e Diz Não ao Gás em Moçambique, Apelo a que sejam investigados os relatos de atrocidades cometidas nas imediações do projecto Mozambique LNG da TotalEnergies, 2024

(10) Liveable Arlington

(11) Para uma visão mais global dos subscritores e facilitadores mais importantes da TotalEnergies desde 2016, consulte o relatório Banking on Climate Chaos

(12) Defund TotalEnergies, Who is financing TotalEnergies? 

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DECLARAÇÃO DE MAPUTO CONTRA IMPUNIDADE CORPORATIVA E POR DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA CLIMÁTICA

15 de Agosto de 2024

Somos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, comunidades de base, campones@s, advogad@s, académic@s, especialistas, trabalhador@s e outros, de diferentes províncias de Moçambique e também da África do Sul, Zimbabwe, Botswana, Suazilândia, Quénia, República Democrática do Congo, Ruanda, Togo, Uganda, Nigéria, Tunísia, Camarões, Argélia, Senegal, e aliados do Japão, México, Portugal, Estados Unidos da América e outras partes do mundo.

Reunimo-nos no 8º Workshop de Maputo sobre impunidade corporativa e direitos humanos em Maputo, Moçambique, de 12 a 15 de agosto de 2024, organizado pela Justiça Ambiental JA! O nosso workshop foi realizado em várias línguas incluindo português, xangana, nyungwe, makonde, swahili, makua, isiZulu, árabe, inglês, francês, espanhol.

Reconhecemos as lutas por justiça e pela sobrevivência dos nossos povos e das nossas comunidades, especialmente as nossas mulheres e crianças. Somos contra o apartheid, a ocupação, a guerra, os conflitos, a militarização e o genocídio, na Palestina, em Cabo Delgado, no Sudão, na República Democrática do Congo, no Bangladesh e em todo o lado. Reiteramos a nossa solidariedade incondicional com os povos que resistem em todo o mundo.

Percebemos que o sistema capitalista, colonial, patriarcal, classista, racista e desigual é um inimigo dos povos e do planeta, coloca o lucro acima da vida e apodera-se dos territórios e bens comuns.

  Discutimos economia política africana, colonialismo e o violento poder das empresas transnacionais. Percebemos que o norte global, facilitado pela nossa classe política, continua a perpetuar o mito que África permanecerá pobre se não explorarmos os nossos combustíveis fósseis, arrastando assim muitos países africanos para uma armadilha económica perpétua de dependência nos combustíveis fósseis, o que por sua vez exacerba a crise climática. Os nossos governantes africanos utilizam indevidamente o conceito de “direito ao desenvolvimento” para continuarem a enriquecer. Reiteramos o nosso direito humano individual e colectivo a uma vida digna, a um desenvolvimento que responda adequadamente às realidades sociais e culturais no contexto Africano, no entanto não é isso que nos está a ser oferecido. Os nossos Estados têm a obrigação legal de proteger, respeitar, promover e cumprir os direitos humanos dos seus cidadãos.

Sabemos muito bem que os direitos humanos não são apenas um conceito importado, estão profundamente ligados às histórias e vidas africanas, tal como afirmado na Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Denunciamos os impactos que já estão a afectar a vida e os meios de subsistência das nossas populações, desde as mudanças climáticas aos combustíveis fósseis, ao extractivismo, à usurpação de terras e à desapropriação. O nosso povo está a sofrer com as múltiplas crises que nada fez para criar.

Denunciamos a arquitectura estrutural da impunidade e do poder não regulamentado das empresas transnacionais e as formas como estas espalham negacionismo e desinformação. Denunciamos a captura corporativa das nossas democracias, causando a diminuição do espaço cívico e o aumento dos ataques aos defensores ambientais e de direitos humanos. Rejeitamos os acordos de “livre” comércio e de investimentos que retiram a soberania dos nossos Estados.

Denunciamos a arquitectura da injustiça climática. Os países do Norte global criaram a crise climática e devem agir primeiro e mais rapidamente para a enfrentar. Mas o que está a acontecer é o contrário. Temos de eliminar progressivamente os combustíveis fósseis e apoiar uma transição justa que garanta a soberania no Sul global. Os nossos governos devem fazer tudo que fôr possível para proteger as pessoas e todas as formas de vida que já estão a ser afectadas pela crise climática, incluindo nas negociações climáticas, onde se tem permitido que os lobbies dos combustíveis fósseis dominem as agendas e criem barreiras à acção.

Afirmamos a necessidade de reduzir as emissões na fonte. Não há florestas ou sumidouros de carbono que possam compensar essas emissões. As florestas, as nossas terras e os nossos rios são a nossa vida, não são novos mercados para o capital. As florestas africanas não podem ser capturadas. Não deve haver nada sobre nós sem nós. Reiteramos o nosso direito a dizer não.

KODAK Digital Still Camera

A NOSSA VISÃO

Estamos a construir a nossa visão do mundo em que queremos viver, do mundo que queremos deixar para os nossos filhos. As nossas demandas são as seguintes:

  1. Sobre Impunidade Corporativa e a Crise Climática:
  • Exigimos um Tratado Vinculativo das Nações Unidas para regular empresas transnacionais em questões de direitos humanos, que seja forte e efectivo, para que estas sejam responsabilizadas pelos crimes que cometem.
  • Exigimos que as actuais injustiças financeiras, como a desigualdade, a dívida, a evasão fiscal e salarial e os fluxos financeiros ilícitos, sejam desmanteladas, juntamente com as instituições que as promovem.
  • Apoiamos as lutas contra a energia suja e os combustíveis fósseis que desafiam a impunidade do sistema. Juntamo-nos ao apelo para a criação de uma Comissão Mundial dos Povos sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, rápida, justa, completa e financiada, para discutir a forma como esta eliminação deve acontecer, e apoiamos o processo rumo a um tratado pela não proliferação dos combustíveis fósseis.
  • Rejeitamos todas as falsas soluções incluindo mercados de carbono, REDD, geoengenharia, net zero, gás “natural”, hidrogénio, mega-barragens, plantações industriais e tácticas dilatórias.
  1. Sobre Direitos, Soberania, Reparações:
  • Exigimos sistemas de energias renováveis de propriedade social.
  • Exigimos o reforço dos quadros legais baseados nos direitos, incluindo os direitos sobre a terra e os direitos florestais.
  • Apoiamos a gestão florestal comunitária e a agroecologia camponesa rumo à soberania alimentar.
  • Exigimos justiça reparadora e reparações para as comunidades cujos direitos foram violados.
  • Reiteramos que não há justiça climática sob ocupação, apartheid, conflito e militarização.
  • Denunciamos e rejeitamos a banalização da guerra e dos conflitos e a desumanização (por exemplo na Palestina, Sudão, República Democrática do Congo, Saara Ocidental, Cabo Delgado e em todo o lado).
  1. Sobre Economias Feministas:
  • Apelamos à recuperação da esfera pública para garantir os direitos dos povos e apoiar os serviços públicos.
  • Apoiamos uma nova economia para os povos e o planeta – uma economia solidária e circular que valorize e centralize o trabalho de cuidados e a autonomia do corpo; uma economia que centralize a sustentabilidade e a abundância da vida colectiva, em oposição ao lucro e ao ganho individual. Da extracção à regeneração.

Acima de tudo, a nossa visão baseia-se nos nossos valores humanos de solidariedade, cooperação, Ubuntu e Eti-uwem. Continuaremos a lutar, a resistir, a mobilizar-nos, a organizar-nos e a transformar as nossas sociedades. Reiteramos o nosso direito a dizer NÃO!

AS ORGANIZAÇÕES / COLECTIVOS PRESENTES:

Advocacy Coalition for Sustainable Agriculture (ACSA) – Uganda 

ALTERNACTIVA – Acção pela Emancipação Social – Moçambique

Alternative Information and Development Centre (AIDC) – South Africa

Associação de Cooperação Para o Desenvolvimento – Moçambique

Associação de Jovens Combatentes Montes Errego (AJOCME) – Moçambique

Associação dos Jornalistas Ambientais – Moçambique 

Associação LaVatsongo – Moçambique 

Bairro Bagamoio Moatize – Moçambique

Basilwizi Trust – Zimbabwe 

Centre Congolais pour le Développement Durable (CODED) – République Démocratique du Congo

Centre pour la Justice Environnementale – Togo

Centro de Jornalismo de Investigação Moçambicano (CJIM)

Centro para Desenvolvimento Alternativo (CDA) – Moçambique 

Don’t Gas Africa

Dynamique pour le Droit, la Démocratie et le Développement Durable (D5) – République Démocratique du Congo

Earthlife Africa

Entembeni Crisis Forum (ECF) – South Africa

Environmental Rights Action, FoE Nigeria

Environment Governance Institute – Uganda

Fair Finance Coalition – Southern Africa

FishNet Alliance Network – Africa

Fórum Mulher – Moçambique 

Friends of the Earth Africa

groundWork, Friends of the Earth South Africa

Health of Mother Earth Foundation – Nigeria / Africa

Hikone – Moçambique

Justiça Ambiental JA! – Moçambique

KULIMA – Moçambique 

La Via Campesina Southern and Eastern Africa

Missão Tabita – Moçambique

Mukadzi-Colaboratório Feminista – Moçambique 

Natural Justice – Africa

No REDD in Africa Network (NRAN)

Observatório das Mulheres – Moçambique

Oilwatch Africa

Power Shift Africa

Resource Rights Africa – Uganda

Right to Say No Campaign – South Africa

Rural Women’s Assembly (RWA) – Southern Africa

South Durban Community Environmental Alliance (SDCEA) – South Africa

Southern Africa Campaign to Dismantle Corporate Power – África Austral

Southern Africa Green Revolutionary Council (SAGRC)

Support Centre for Land Change (SCLC) – South Africa 

União Nacional de Camponeses (UNAC) – Moçambique

Uganda Land Owners Association

WoMin African Alliance

ZIMSOFF – Zimbabwe

350Africa.org

Amigos da Terra Internacional

Afrikagrupperna

Campanha Global para Reivindicar a Soberania dos Povos, Desmantelar o Poder Corporativo e Acabar com a Impunidade

Climáximo – Portugal 

FIAN International

Friends of the Earth Japan

Global Forest Coalition

International Rivers (IR)

Oilwatch International

Transnational Institute (TNI)

World Rainforest Movement (WRM)

EM SOLIDARIEDADE:

Actions Internationales pour le Développement et le Climat AidClimat

Africa Climate Movements Building Space

Africa Network for Environment and Economic Justice (ANEEJ)

Associação Consciente Sociedade – Moçambique

Associação Homens pela Mudança (HOPEM) – Moçambique

Bio Vision Africa (BiVA)

CHePEA

Centre de Recherches et d’Appui pour les Alternatives de Développement – Océan Indien (CRAAD-OI)

Coligação de 4 Bairros da Localidade Canhavane – Moçambique 

Egyptian Organization for Environmental rights

Enviro Vito NPO – South Africa

Foundation for Environmental Rights Advocacy and Development FENRAD – Nigeria

Grassroots International

Green Advocates International

Innovation pour le Développement et la Protection de l’Environnement – République Démocratique du Congo

JOINT – Liga das ONGs em Moçambique

Legal Rights and Natural Resources Center – FoE Philippines

Les Amis de la Terre – Togo

Ligue des Jeunes Paysans de la République Démocratique du Congo (LJP-RDC)

Malamba-Mazuene, Inhambane – Moçambique

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) – Brasil

Muyissi Environnement – Gabon

National Association of Professional Environmentalists (NAPE) – Uganda

PENGON – Friends of the Earth Palestine

Protecting Our Environment Today (POET)

Thenjinosi Community Development Project – South Africa

University of Johannesburg – Centre for Social Change, South Africa

West Coast Food Sovereignty and Solidarity Forum – South Africa

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Tudo Menos Natural: Ameaças à Expansão da Infraestrutura de Gás Natural Liquefeito (GNL) aos Ecossistemas Costeiros e Marinhos


O gás natural liquefeito (GNL) está a ver uma rápida expansão em todo o mundo. Maioritariamente extraído do solo através de fraturamento hidráulico ou outras formas de perfuração, o GNL é composto principalmente por gás metano. Quando arrefecido, o gás torna-se líquido e pode ser armazenado e transportado por mar usando navios-tanque especiais.

Quando o metano é queimado para obter energia, produz menos dióxido de carbono do que outros combustíveis fósseis, como o petróleo ou o carvão. No entanto, o metano é em si mesmo um potente gás com efeito de estufa, responsável por quase um terço de todo o aquecimento global que estamos a experimentar hoje (UNEP 2024).

Se os planos atuais se concretizarem, nos próximos anos os governos em todo o mundo gastarão mais de 1 bilião de dólares em nova infraestrutura de gás. As consequências negativas desta expansão serão múltiplas — especialmente para os oceanos do mundo.

Um investimento tão massivo arrisca aprisionar o mundo numa economia de combustíveis fósseis, quando a ciência é clara ao afirmar que não podemos investir em nova infraestrutura de combustíveis fósseis se quisermos manter o aquecimento abaixo de 1,5 ºC (IEA 2021). Construir infraestrutura cara que pode operar durante décadas dificultará a rápida transição para a energia renovável que o planeta necessita para evitar as piores consequências das alterações climáticas.

Algumas dessas consequências já são evidentes nos oceanos do mundo. As alterações climáticas ameaçam o sustento de milhões de pessoas que precisam de ecossistemas marinhos bem preservados para alimentação e rendimento.

Os últimos 10 anos foram os mais quentes dos oceanos desde pelo menos o século XIX, com 2023 a ser o ano mais quente já registado (NASA 2024). Ondas de calor marinhas destrutivas estão a tornar-se mais frequentes e intensas em todo o mundo. Episódios massivos de branqueamento de corais estão a destruir recifes e toda a vida natural que eles suportam. E as espécies estão a ser deslocadas dos seus habitats, movendo-se para águas mais frias e profundas, perturbando as cadeias ecológicas e impactando as pescas.

Mas além dos seus impactos climáticos, os planos de GNL também representam uma ameaça direta aos oceanos e às comunidades costeiras. Grande parte da infraestrutura proposta será construída em regiões icónicas, conhecidas pela sua beleza e extraordinária riqueza natural. As novas instalações aumentarão a intensidade do tráfego marítimo e a poluição sonora em corredores de migração marinha, áreas de acasalamento e criação, e importantes zonas de pesca.

A nossa análise mostra o que estes planos significam para algumas regiões selecionadas do nosso planeta:

  • Nos Estados Unidos, a contínua expansão do GNL ao longo da Costa do Golfo impactará desproporcionalmente as comunidades de cor em alguns dos estados mais pobres do país. Estas comunidades já experienciam má qualidade do ar devido às instalações de GNL em operação e sofrem regularmente com chuvas torrenciais e inundações causadas por furacões e tempestades alimentadas pelas alterações climáticas;
  • No México, a nova infraestrutura de GNL ameaça “o aquário do mundo”, lar de 40% de todos os mamíferos marinhos e muitas espécies em perigo de extinção. Se os planos atuais avançarem, vários novos terminais serão construídos numa região que é um santuário de baleias e está listada como Património Mundial da UNESCO;
  • Nas Filipinas, a construção de novos terminais de GNL adicionará mais pressão à Passagem da Ilha Verde, um dos lugares marinhos mais biodiversos do mundo. A região, muitas vezes chamada de “Amazónia dos Oceanos”, já é uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo e foi atingida por um derramamento de petróleo em 2023 com consequências devastadoras;
  • Na África Oriental, os desenvolvimentos de gás em Moçambique já causaram o deslocamento forçado de comunidades locais, estão ligados a conflitos violentos em curso e ameaçam várias espécies marinhas criticamente em perigo. A expansão offshore ocorrerá ao longo de uma costa cheia de mangais, recifes de coral e pradarias marinhas;
  • E, no Brasil, há planos para construir novos terminais de GNL ao longo da costa atlântica, uma região já repleta de infraestrutura de petróleo e gás. As populações de baleias serão particularmente afetadas, pois os novos desenvolvimentos sobrepõem-se às suas áreas de reprodução e rotas de migração.

O impulso global para o GNL é uma má notícia para os oceanos do mundo, a biodiversidade, o clima e as pessoas.

Em vez de apostar em soluções de curto prazo com impactos diretos para os animais marinhos e as comunidades costeiras, bancos e empresas devem redirecionar os recursos económicos para energias renováveis e soluções de longo prazo.

Ao mesmo tempo, os governos e as organizações internacionais devem garantir que as regiões ricas em biodiversidade sejam protegidas e os direitos das populações locais sejam respeitados.

Agradecimentos

A Earth Insight, Say No to LNG, CEED Philippines e Justiça Ambiental! agradecem ao Port Arthur Community Action Network (PACAN) e à ARAYARA pelo apoio e feedback útil nas versões iniciais deste relatório.

Citação Sugerida

Earth Insight & Say No to LNG. (2024). Tudo Menos Natural: Ameaças à Expansão da Infraestrutura de Gás Natural Liquefeito (GNL) aos Ecossistemas Costeiros e Marinhos. CC BY-ND 4.0

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