Portucel – A eterna espera pela tão prometida vida melhor

Uma vez mais a equipe da JA! visitou e manteve encontros com membros das comunidades afectadas pelas plantações da Portucel nos Distritos do Ile e Namarroi no âmbito do trabalho de monitoria dos impactos destas plantações na vida das comunidades afectadas. Nestas visitas, a equipe da JA! manteve encontros restritos, nas comunidades de Hapala (Posto Administrativo de Socone) e Mutaliua (Sede do Distrito de Namarroi) por um lado para evitar cansar os membros das comunidades que já partilharam vezes sem conta as suas queixas e reclamações em relação à empresa, e pouco ou nada muda, e por outro lado devido às restrições e cuidados necessários dada a pandemia da COVID-19, que não nos permite reunir muitas pessoas num mesmo local e momento.

Uma vez mais ouvimos e sentimos as lamentações destas comunidades, visivelmente agastadas por tudo a que tem sido sujeitos, acreditaram sim nas promessas de vida melhor mas nunca souberam que podiam dizer não, pois em momento algum a sua opinião contou. Na comunidade de Hapala, o medo de falar é visível, todos se queixam de actos de intimidação por parte de alguns funcionários da Portucel, de determinados líderes locais e inclusive alguns membros do governo local. Queixam-se ainda que estes mesmos funcionários, guardas e pessoal identificado da Portucel não tem respeito por eles, nem tão pouco pelos seus líderes que os defendem, que os insultam e fazem questão de dizer que eles não são nada, referindo que a terra é do estado e o estado entregou à Portucel, portanto não tem nada que reclamar…

“Somos insultados, chamam-nos ‘Namukwuaneba’ quando reclamamos que não estamos satisfeitos, que a empresa prometeu muita coisa e nada cumpriu, queremos a nossa terra de volta, estamos a sofrer”. Muitos são os relatos de insatisfação, de desespero por reaver as suas terras!

Durante a nossa visita de cortesia ao líder de Hapala, que tem desde sempre defendido e dado voz às queixas da comunidade, reparamos que este estava mais quieto e calado do que o seu habitual e percebemos que poderia não ter a mesma abertura para falar pois estava acompanhado, quando para nossa surpresa ouvimos o som do “click” de uma foto. O acompanhante, também liderança local, muito atrapalhado tirou-nos uma foto às escondidas, explicamos que não precisava fazer às escondidas, a nossa visita não é segredo, pode reportar a quem quiser, pois continuaremos a elevar a voz destas comunidades. Mais tarde explicaram-nos outros membros da comunidade que este senhor tem essa função, informar tudo quanto se passa e todas as visitas feitas! Triste realidade. Se nos tivesse dito, não havia problema algum, até teria direito a sorriso!

Em Namarroi, as queixas são muito similares, reforçam sempre que não cederam as suas terras, estas foram arrancadas. Lamentam ainda que embora a Portucel faça imensa publicidade sobre as suas acçoes de “responsabilidade social” estes afirmam que na sua comunidade, apenas 37 pessoas beneficiam de sementes, explicando que são mais de 1000 famílias afectadas. São unanimes ao afirmar que querem a sua terra de volta, e informaram nos ainda que em algumas áreas desbravadas pela Portucel mas não plantadas a comunidade já começou a reocupar, contra a vontade da empresa.

Temos feito estas visitas ano após ano, a várias comunidades afectadas, procuramos ouvir todos e perceber onde estão os que realmente melhoraram de vida, onde estão estes benefícios de que tanto se fala… não encontramos, são tao pouco que não os encontramos, mas os desgraçados que tudo perderam estão por todo o lado!

Curiosamente, fizemos a nossa passagem de cortesia pelo Posto Administrativo de Socone, e ao contrário de tantas outras vezes desta vez fomos bem recebidos, fomos convidados a falar sobre o que vimos nestas comunidades e fomos ouvidos sem acusações, sem discussões, sem tentar nos convencer que está tudo bem. Foi uma conversa bastante positiva, tivemos oportunidade de apresentar todas as situações verificadas, solicitamos a sua intervenção e ficou a promessa de melhor servir o povo. Estamos atentos!

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One thought on “Portucel – A eterna espera pela tão prometida vida melhor

  1. Rsantos diz:

    Sem dúvida, é uma vergonha que a Portucel não cumpra com o que prometeu Obtiveram extensões de terra, para plantar eucalipto que já ninguém quer em Portugal, que vai arrasar com estes solos,.Retiraram as comunidades das suas terras,e contrapartidas nenhumas,onde estão os benefícios para o povo, escritos nalgum lado,onde ninguém sabe nem quer saber como é usual por aqui…esquecidos no fundo de uma gaveta…guardados talvez por um funcionário demasiado zeloso!!!

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