Monthly Archives: Março 2023

Sabias que está a decorrer o processo de Revisão da Lei de Terras?

O processo de revisão da Politica Nacional de Terras de 1995 foi lançado em 2017 pelo Presidente da República na IX sessão do Fórum de Consulta sobre Terras (FCT). Para conduzir este processo de revisão, foi criada em 2018, a Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras (CRPNT), que constitui “um órgão para a coordenação, elaboração e condução do processo das consultas sobre a revisão da Política Nacional de Terras e Estratégia de Implementação e do respectivo quadro regulador e institucional”.

Apesar da imensa contestação da sociedade civil, devido ao processo de auscultação, à metodologia utilizada, aos propósitos pouco claros do processo de revisão e ainda à fraca qualidade do diagnóstico, a Política de Terras e a sua Estratégia de Implementação foi aprovada pelo Conselho de Ministros a 1 de Novembro e publicada em Boletim da República a Resolução n.º 45/2022, a 28 de Novembro, que aprova a Política de Terras e a Estratégia de sua Implementação e revoga a Resolução n.º 10/95, de 28 de Fevereiro.

O objectivo geral da Política de Terras é “… assegurar e garantir o acesso, uso e aproveitamento e posse da terra pelas comunidades locais, cidadãos nacionais e estrangeiros, na sua capacidade de utilizadores e investidores, bem como promover o seu uso racional e sustentável, contribuindo para o desenvolvimento socioeconómico, criação do bem-estar para as actuais e futuras gerações de moçambicanos”.

Após a aprovação da Política de Terras segue agora o processo de revisão da Lei de Terras, e neste processo a sua opinião e participação é importante

A terra em Moçambique é considerada como o meio universal de criação de riqueza e do bem estar social, e o uso e aproveitamento desta é direito de todo o povo moçambicano, e o povo moçambicano somos todos nós.

Os moçambicanos lutaram para libertar o Homem e a Terra, e desde a independência a gestão da terra tem sido um assunto de extrema importância, por se tratar de um recurso fundamental para constituição de qualquer riqueza. A procura por terra por vários segmentos da sociedade e particularmente para mega projectos e mega investimentos tem crescido muito, contribuindo para escassez de terra férteis, e um crescente e grave aumento dos casos de conflitos de terra entre estes supostos projectos de “desenvolvimento” e as comunidades e populações que dependem directamente desta terra. Na grande maioria dos casos de conflitos de terra, os mais pobres e vulneráveis, que são as comunidades rurais, são os que mais sofrem pela perda do seu mais precioso recurso .

Porquê que deves participar no processo de revisão da Lei de Terras?

A nossa participação, como cidadãos deste país, é fundamental para assegurar que as nossas preocupações são consideradas e integradas na futura Lei de Terras, assegurando assim que os nossos direitos não são atropelados para dar espaço a outros interesses.

Quando falamos nos nossos direitos, não nos referimos apenas ao nosso direito à Terra como moçambicanos e conforme previsto na Constituição, mas também ao nosso direito a fazer parte do processo de construção do nosso país, que envolve a discussão e tomada de decisão dos modelos de desenvolvimento a seguir.

Discutir e comentar leis pode parecer assustador, por vezes acreditamos que não temos espaço no processo porque não conhecemos a Lei de Terras, ou qualquer outra em discussão, e que por isso não teremos nada de valioso a acrescentar ou ainda que por muito que estejamos presentes em todos os momentos desta importante discussão as nossas opiniões não serão levadas em conta. E por fim, porque historicamente estes processos são levados a cabo e decididos sem a nossa participação e assim nos habituamos. Embora, sejam argumentos válidos, o actual contexto do nosso país obriga-nos a lutar pelo nosso espaço, para sermos ouvidos e para fazer valer os nossos direitos! É nossa obrigação e direito acompanhar e contribuir para todos estes processos, sob o risco de acordarmos amanha e já não haver mais nada a decidir ou discutir sobre a gestão e o destino dos nossos recursos, pois o nosso futuro já foi decidido por nós, sem qualquer consideração pelo que queremos, pensamos ou acreditamos.

Nada para nós sem nós!

E como podes contribuir para este processo?

O processo de revisão da lei de Terras está a sob a coordenação da Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras, e é a esta comissão que devem ser encaminhados os comentários e questões referentes à Lei de Terras, ou à gestão de Terras.

Através dos contactos disponíveis:

Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras

Website: http://www.crpnt.gov.mz

E-mail: info@crpnt.gov.mz

Facebook: https://www.facebook.com/crpnt.gov.mz

Instagram: https://www.instagram.com/crpnt_mta

Tel: (+258) 21 496 930

Existe um calendário para realização dos encontros de auscultação pública, no entanto este já está desactualizado, bem como a página de internet da CRPNT, e neste momento não há informação sobre o ponto de situação do processo.

A falta de informação pública neste processo, já foi denunciada em vários momentos por várias organizações da sociedade civil, esta limita sobremaneira e/ou impede a participação pública no mesmo.

A Lei de Terras, agora em revisão, deve priorizar as necessidades e bem-estar do povo moçambicano, entre estas assegurar terra para produção de alimentos com o objectivo final de alcançar a soberania alimentar.

A tua voz é importante, não deixes de participar!

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Posicionamento sobre o 18 de Março

Nunca foi tão evidente o fechamento da democracia em Moçambique como no último dia 18 de Março, em particular nas cidades de Maputo, Beira, Nampula, e outras. É uma realidade que precisamos urgentemente de resistir e combater. Desde 2008 que a liberdade de expressão, manifestação e do associativismo têm sido reprimidas, mas foi em 2020 que o governo e os seus parceiros internacionais encontraram na Covid19 um pretexto quase plausível para restringir as liberdades dos cidadãos, com o anúncio de um conjunto de medidas que deram origem a restrições na mobilidade das pessoas e bens, restrições nas reuniões públicas, privadas e a limitação do direito à manifestação, direito este, que nos é constitucionalmente conferido através dos artigo 51 da Constituição da República que supostamente rege o Estado Moçambicano.

Sábado, 18 de Março é uma data que ficará na história do nosso país, como um dia em que as nossas forças policiais, munidas de blindados, cães de raça e armas de gás lacrimogénio, impediram uma marcha pacífica com uma brutalidade e agressividade nunca antes vista. O que assistimos nas ruas de Maputo revoltou-nos a todos.

O povo Moçambicano, na sua maioria jovens, com alguma ou nenhuma afiliação partidária ou institucional, pessoas ligadas a organizações da sociedade civil ou não, decidiram marchar para comemorar a vida e obra do nosso rapper e activista social, Edson da Luz, mais conhecido por Azagaia, que perdeu a vida no dia 9 de Março de 2023.

Foram seguidos todos os trâmites legais para garantir que a marcha decorreria sem problemas. De acordo com a lei Moçambicana, as marchas não necessitam de ser autorizadas, mas deve ser submetida uma carta a dar informação às autoridades. Assim foi feito, e a maioria dos municípios deu a luz verde às marchas, com itinerário bem definido. Em Maputo, o ponto de partida seria na estátua do Eduardo Mondlane, e iríamos marchar até à praça da Independência, junto da estátua do Samora Machel, dois símbolos do poder popular e de liberdade do nosso país.

Logo cedo, naquela manhã, começaram a circular relatos de que estavam posicionados carros blindados em vários pontos da cidade, mas isso não nos preocupou, porque já estamos habituados à presença de fortes contingentes policiais quando se trata do exercício da nossa cidadania. Pensámos que talvez fosse para garantir a nossa segurança. Pensamento ingénuo e inocente, típico de quem acredita que ainda se pode viver uma democracia em Moçambique.

Em todos os acessos à estátua de Eduardo Mondlane, o local de início da marcha, havia um forte contingente policial que foi travando os grupos de jovens que pretendiam chegar ao local de concentração. Segundo ‘ordens superiores’, não nos era permitido estar em grupos, mesmo sabendo que tínhamos autorização para nos agruparmos, nos reunirmos e juntos marchar. Sem qualquer aviso prévio, a polícia começou a disparar balas de gás lacrimogénio para todos os lados, e nesse momento começamos todos a correr. No entanto, a vontade de usufruir do nosso direito à manifestação, como tão bem promovido e defendido pelo Azagaia, era grande. Precisávamos desta última homenagem a uma das poucas vozes, senão a única dos últimos tempos, que nos representava, que cantava as nossas dores, angústias e revoltas sem temer as represálias. Era essa vontade que nos fazia escondermos-nos em esquinas próximas à praça, em grupos menores com as nossas camisetas, estampadas com o rosto do nosso jovem herói do povo, que armado de papel e caneta lutou pela nossa liberdade. Os nossos punhos mantinham-se no ar, mas o grito de povo no poder foi rapidamente engolido pela agressividade que se abatia contra todos nós.

Por todo o mundo o gás lacrimogéneo tem sido usado como um mecanismo de controle e para dispersar protestos, mas ainda assim, a sua utilização obedece a normas segundo as quais este não pode ser atirado directamente para as pessoas. Entretanto, no dia 18 de Março, a PRM disparou várias vezes as balas de gás lacrimogéneo directamente para os participantes. Um membro da equipe da JA! foi atingido de raspão nas costas ao desviar-se de uma bala de gás que foi apontada directamente para o seu corpo, uma jovem ao nosso lado foi atingida nos dois tornozelos. Registou-se ainda o caso do jovem Inocêncio que perdeu o olho esquerdo após ser atingido por uma destas balas que supostamente não matam mas podem causar sérios danos nos pulmões, pele e olhos. Uma destas balas incendiou uma viatura. Um dos organizadores da marcha foi torturado durante horas em Nampula. Outra violência gratuita aconteceu no Parque dos Madgermanes, um ponto da cidade que representa um símbolo de protesto e de resistência pela luta dos antigos trabalhadores da extinta RDA que têm vindo a protestar pelos seus direitos há mais de 30 anos. Vários jovens se juntaram lá cantando a música de Azagaia que deu nome à marcha: “Povo no Poder”, ou mesmo “A Marcha”. Os jovens simplesmente aglomeravam-se entoando alguns dos grandes sucessos do seu ídolo Azagaia de forma pacífica, mas mais uma vez os ataques da polícia vieram e desta vez com ainda mais brutalidade. Desceu sobre o parque uma cortina de fumo de gás lacrimogéneo e todos fugiram em direcção à Praça da Independência. Nem mesmo os jovens que se refugiavam dentro da Catedral de Maputo escaparam à fúria dos agentes da PRM.

A rua é o único lugar para onde podemos ir protestar quando nos tiram o poder e nos violam os direitos, e a polícia responde envenenando o ar?

Igualmente repudiáveis são as perseguições e intimidações sofridas por alguns membros de organizações da sociedade civil desde o dia do velório do Azagaia, com policias à paisana que se dirigiam a pessoas pelo nome para intimidar e questionar se eram os mentores daquelas acções. Além da brutalidade e violência da polícia, acções de contra inteligência e vigilância foram levadas a cabo por alguns agentes não uniformizados. Estes tiravam fotos às pessoas que estavam na marcha, registavam matrículas de viaturas e chegaram mesmo a seguir algumas pessoas até suas casas, numa autêntica acção de intimidação que não podemos mais tolerar.

Azagaia já bem dizia na letra da música A Marcha:

Agora que estamos juntos, vou contar-vos um segredo

Eles não podem connosco

Eles agora é que tem medo

E na nossa causa justa, eles não podem se infiltrar…”

No meio de tudo isto, somos ainda surpreendidos pelo comunicado de imprensa da PRM, onde tentam de forma maquiavélica justificar a sua actuação brutal contra cidadãos indefesos numa manifestação pacífica. A PRM justifica a sua brutalidade contra cidadãos indefesos alegando ter utilizado proporcionalidade de força perante ‘manifestantes que arremessavam objectos contundentes’, numa ‘tentativa de golpe de Estado’. Um completo absurdo, uma mentira grosseira, e um insulto a quem lá esteve no dia. As inúmeras imagens e relatos dos acontecimentos comprovam dezenas de vezes que a PRM agiu fora da lei e com tremenda brutalidade. É uma postura criminosa e condenável a todos os níveis, desde os agentes que levaram a cabo as acções repressivas nas ruas do nosso país, e acima de tudo os superiores que deram as ordens, que devem ser julgados e condenados. Aos agentes da polícia e da UIR que reprimiram e massacraram os cidadãos no dia 18, nenhuma ordem superior justifica os vossos actos, pois a Constituição da República consagra o direito de resistência a ordens ilegais. Façam a vossa parte e marchem também pelo vosso direito de resistência, pela vossa obrigação de proteger o povo.

E a comunidade internacional, os doadores e parceiros do desenvolvimento, as supostas referências de direitos humanos e democracia, não se pronunciam perante estes acontecimentos, ficam apenas a murmurar nos corredores, porque não convém criticar o governo do qual dependem para continuar a explorar o nosso gás, areias pesadas, carvão ou rubis.

É importante que permaneçamos juntos, fortes e firmes na causa do povo. Esta será a real homenagem a Azagaia, o homem que lutou para descolonizar as nossas mentes.

Continuaremos a marchar e a cantar por liberdade e justiça! Abaixo a repressão e os ataques aos Moçambicanos e Moçambicanas que acreditam num país melhor!

Povo no poder!

Justiça Ambiental JA!

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Declaração de Imprensa do Dia Mundial da Água 2023

22 de Março de 2023


Nossa água, nosso direito: os africanos pedem aos líderes que “acelerem a
mudança” para longe da falsa solução de privatização da água no Dia Mundial da
Água

Em comemoração ao Dia Mundial da Água 2023, a sociedade civil, os trabalhadores e os
ativistas comunitários que lideram a Coalizão Nossa Água, Nossa Direito (OWORAC)
pedem aos líderes locais, nacionais e regionais que prestem atenção às lições da história
abandonando de uma vez por todas a falsa solução de privatização da água sob qualquer
pretexto.


A OWORAC (sigla em inglês) – composto por ativistas e sindicalistas em Camarões,
Gabão, Gana, Quênia, Moçambique, Nigéria, Senegal e Uganda, entre outros países
africanos – condena o aumento alarmante dos esforços neocoloniais para entregar o
controle de serviços essenciais a corporações multinacionais que buscam para explorar
nossa necessidade de água para lucrar.
O tema do Dia Mundial da Água deste ano é “Acelerando a Mudança”. É bastante claro,
a partir de décadas de experiências fracassadas com a privatização da água, que
devemos acelerar a mudança desse modelo de exploração para a propriedade e
controle públicos. Devemos também acelerar os investimentos públicos e garantir a
responsabilidade dos funcionários públicos que têm a obrigação de servir aos interesses
das massas, não de poucos privilegiados.

Esta semana, enquanto os governos, a sociedade civil e o sector empresarial se reúnem
na cidade de Nova York para a Conferência das Nações Unidas sobre a Água, a realidade
diária da crise da água é sentida por centenas de milhões em todo o continente africano.
O papel contínuo das corporações de privatização da água e seus representantes na
definição da agenda e das prioridades da Conferência da Água da ONU e da Água da
ONU de forma mais ampla minam a legitimidade desses espaços. O envolvimento da
AquaFed, a organização que representa esta indústria abusiva no cenário mundial, na
coordenação do Dia Mundial da Água é totalmente inapropriado e deve terminar. Prevenir
a captura corporativa é essencial para que o continente cumpra o Objetivo de

Desenvolvimento Estratégico 6, que defende a disponibilidade e gestão sustentável de
água e saneamento para todos até o ano 2030.


Anabela Lemos, Directora da Justiça Ambiental (JA!) em Moçambique referiu que:
“É urgente que se evite a cooptação destes espaços de tomada de decisões pelas
grandes empresas, que vêem a água como um recurso económico e não como um direito
humano. O envolvimento de empresas e corporações que focam os seus objectivos no
lucro mancham o processo e abrem espaço para a privatização de ainda mais recursos
naturais, que pode ocorrer também na forma de poluição, vedações e limitações no
acesso a rios e cursos de água, e controlo de fontes de água das populações locais. A
água deve ser vista como um bem comum, essencial à vida, e não como um recurso ao
serviço do lucro de algumas empresas poderosas!”

O OWORAC, lançado em outubro de 2021 em resposta ao aprofundamento da crise
global da água e ao capitalismo de desastres para os quais a pandemia abriu as portas,
detalhou os impactos mundiais reais da privatização da água nas comunidades em seu
relatório África deve levantar e resistir à privatização da água. Relatos perturbadores dos
abusos de corporações multinacionais como Veolia e Suez, ambas membros da AquaFed,
levaram comunidades em todo o continente a rejeitar a privatização da água em suas
diversas formas, incluindo as chamadas “parcerias público-privadas”.

Akinbode Oluwafemi, Diretor Executivo de Responsabilidade Corporativa e Participação
Pública da África (CAPPA), falando em nome do OWORAC, disse:

“O tema da comemoração do Dia Mundial da Água deste ano reforça a necessidade de
governos a procurar soluções comprovadas para a crise da água no continente dentro do
reino de opções democráticas controladas pela comunidade e financiadas publicamente.
A privatização da água é um fracasso opção que apenas coloca os lucros acima das
pessoas.”

Sani Baba, secretário regional para África e países árabes da federação sindical global
Public Services International (PSI), disse:

“A privatização da água rouba das comunidades o direito à vida e ao bem-estar, da
mesma forma que rouba dos trabalhadores o direito ao trabalho decente. Os governos
africanos devem se recusar a ceder aos ditames do Banco Mundial e de outras
instituições que desejam colonizar nossos recursos hídricos”.

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Mano Azagaia – Até sempre!

Ontem, dia 14 de Março, teve lugar no Conselho Municipal da Cidade de Maputo a cerimónia de despedida do mano Azagaia. O conselho municipal e arredores ficaram inundados de pessoas, desde familiares, amigos, colegas e fãs para prestar a sua última homenagem, até alguns dos próprios “vampiros” lá estiveram para se certificar que o “incomodo” partiu… Mas estes últimos foram surpreendidos, pois Azagaia partiu, mas antes de o fazer tocou fundo em cada um de nós, acordou em muitos a voz que tem sido calada pela opressão e pela intimidação e todos entoavam…povo no poder…povo no poder… povo no poder…

Foi uma cerimónia muito emocionante, as inúmeras imagens a circular na internet demonstram claramente o quanto Edson da Luz, Azagaia, era amado e admirado por tantos, de todas as idades, cores, estratos sociais… Azagaia cantava as vergonhosas verdades do nosso país consciente das consequências mas pronto a dar a cara pelo que acreditava! Azagaia cantava o que todos nós sentimos num momento em que cada vez temos menos espaço para manifestar as nossas inquietações, a nossa revolta a assistir os “vampiros” a afundar o país que tanto amamos! Azagaia é povo!

O povo juntou-se à família e aos amigos, seguiu o cortejo fúnebre ao longo de todo o trajecto. O povo assustou o sistema, os “vampiros” ficaram incomodados com tanto “povo” junto, tantos a cantar “povo no poder”. E quando os “vampiros” se enchem de medo, medo do povo, medo do povo unido e de olhos abertos usam das suas armas e poder para nos calar! E mais uma vez a Unidade de Intervenção Rápida surge com todo o seu aparato militar, carros blindados e armados até aos dentes, apenas para impedir a passagem do cortejo fúnebre. Esta UIR serviu apenas para travar e manchar um momento tão difícil e doloroso, obrigar a esposa, filhas e familiares a parar, a travar as lágrimas e engolir o choro, para sair dos carros e implorar perante estes que a deixassem enterrar o seu marido! Que demonstração tão vergonhosa de força bruta, de intimidação ao povo, de completa falta de “educação” e carácter! A quem serve esta unidade? Que situação neste cortejo merecia este aparato? Quando o povo se junta seja lá para o que for, neste caso para chorar e despedir-se do seu irmão, a UIR sai para a rua para travar, para oprimir, para mostrar que quem manda é que tem as armas!

E onde estão eles quando somos assaltadas, violadas, assassinadas? Onde está a UIR quando tantos e tantos moçambicanos são raptados? Quando clamamos pela ajuda da Polícia nunca os vemos, não tem meios, não tem combustível, não tem recursos humanos suficientes para garantir a nossa segurança mas sempre tem para garantir a nossa opressão. Quando o povo se junta, a UIR está sempre pronta! Juntamo-nos para celebrar a vida e obra do Azagaia, para chorar a sua morte e lá vem eles, com as suas armas, blindados, arrogância e força bruta… Vieram para fazer o quê? Garantir a segurança e manutenção do poder dos “vampiros”?

Estamos mais uma vez indignados com a actuação das forças policiais! Mas mais ainda com quem dá as ordens para que estes “cobardes armados” actuem contra o povo!

Eu falo em nome da declaração universal dos direitos humanos

Falo em nome da constituição que rege os moçambicanos

Eu nem sequer sou formado em direito

mas sei que me manifestar neste país é meu direito

contra policia violenta, disparo o artigo quarenta

se a lei não representa eu preparo o oitenta

depois o trinta e cinco, quarenta e oito, quarenta e três

aprendam de uma vez estado não são só vocês

ilustres funcionários com interesses partidários

Perto de exonerá-los por esse tipo de comentários

Capaz de provocar uma febre nacional

Imaginem se se convocar uma greve geral

Haverá tanta policia, para tanta justiça?

Gás lacrimogéneo para tanto oxigénio?

Haverá tanta água, para tanta mágoa?

Até quando a ditadura numa nação democrata? “ Azagaia, MIR Música de Intervenção Rápida

A opressão nunca conseguiu suprimir nas pessoas o desejo de viver em liberdade” – Dalai Lama

Apenas a opressão deve temer o exercício pleno das liberdades” – José Julián Martí Pérez

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Líderes das comunidades da região de Mphanda Nkuwa recebem ‘ordens superiores’ para não serem capacitados sobre os seus direitos

O ambiente é de medo e indignação, nas comunidades que terão que ser reassentadas se o projecto hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa for implementado. Após a grave situação em Dezembro do ano passado, em que foram feitas ameaças e acusações infundadas aos membros das comunidades de Chirodzi-Nsanangue e Chococoma por terem participado num Workshop da Justiça Ambiental (JA!) em Maputo, desta vez são os líderes locais que estão a ser intimidados para que não autorizem quaisquer reuniões desta organização Moçambicana nas suas comunidades.

Em Janeiro deste ano, uma equipa da JA! esteve a trabalhar no distrito de Marara, como parte do seu trabalho contínuo de monitoria dos impactos dos megaprojectos e capacitação das comunidades locais sobre diversos temas. No entanto, em alguns dos locais onde esteve a trabalhar, deparou-se com várias tentativas de sabotar e impedir o trabalho que tem vindo a fazer há mais de 22 anos. Os líderes das comunidades de Chirodzi-Nsanangue e Chococoma informaram à JA! que receberam orientações da Chefe da Localidade de Chococoma para não deixar a comunidade reunir-se com esta organização, deixando claro que temiam as consequências que poderiam sofrer caso não cumprissem estas ordens. A comunidade, por outro lado, manifestou-se indignada com estes acontecimentos, e pediu que a JA! desse continuidade aos trabalhos, especificando os assuntos a respeito dos quais gostariam de ser capacitados.

A equipa da JA! decidiu então questionar a Chefe da Localidade a respeito das alegações dos líderes, que se recusou a prestar quaiquer informações, e afirmou apenas que cumpre orientações que lhe chegam do Chefe do Posto Administrativo de Chococoma, seu superior hierárquico. O Chefe do Posto, por sua vez, também chutou a bola para a frente, afirmando que este assunto ‘‘está lá em cima’’ e que não poderia carimbar qualquer papel ou credencial da Justiça Ambiental, pois tinha recebido ordens superiores para não o fazer. Tudo indica que esta instância superior é o Administrador do Distrito de Marara, que se manifestou indisponível para receber a JA, e que por sua vez também estará, muito provavelmente, a receber ‘‘ordens superiores’’.

É sempre bom relembrar que nenhuma organização ou associação legalmente registada precisa de autorização do governo para trabalhar em qualquer ponto do país. No entanto, por uma questão de protocolo e respeito, as equipas da Justiça Ambiental a trabalhar nas zonas rurais costumam apresentar-se às autoridades locais, sempre que possível.

Até 2022, estas visitas à Administração do Distrito de Marara não criavam qualquer turbulência. Desde que os ventos da barragem de Mphanda Nkuwa chegaram ao local, em meados de 2022 (entre 2019 e 2022, o assunto era debatido apenas em Maputo e a nível internacional), tudo mudou. Ameaças e intimidações às comunidades que terão que concordar em sair das suas terras para dar lugar ao megaprojecto, além da disseminação de informações falsas sobre a JA! começaram a acontecer recorrentemente, tanto em público, como dirigidas especificamente a membros da comunidade que sejam mais vocais ou críticos ao projecto.

Está bastante claro o que incomoda tanto às autoridades locais: é que o trabalho da JA! tem-se focado em capacitações em torno dos direitos sobre a terra, direitos humanos, liberdade de expressão e opinião, legislação sobre reassentamento, acesso à justiça, e estudos sobre os impactos climáticos, ambientais, sociais e económicos das mega-barragens. Naturalmente que, para convencer centenas de famílias a deixarem as suas terras à beira do rio, abandonarem as suas machambas férteis, e abdicarem dos seus vastos terrenos para pastagem do gado, é conveniente que estas famílias pensem que não têm poder de decisão e muito menos direitos por reivindicar. É conveniente que aceitem casas de reassentamento mal construídas, e que não exijam muito dinheiro de compensação, afinal o governo tem se gabado perante investidores internacionais que é muito fácil e lucrativo fazer negócios no nosso país. Neste sentido, o trabalho da JA é uma pedra no sapato do governo e dos investidores internacionais. O Administrador do Distrito de Marara chegou a dizer, num encontro com a JA, que não podemos ir lá falar sobre direitos, sobre leis, ou mencionar os impactos de outros megaprojectos. ‘‘Não devemos nos focar no passado e sim no presente. O projecto da barragem não deve ser crucificado pelos pecados dos anteriores projectos de carvão da Jindal, não podemos ser pessimistas e pensar que vão acontecer aqui em Marara’’, acrescentou na altura.

Infelizmente, todas as pistas indicam que a barragem de Mphanda Nkuwa está a seguir pelo mesmo caminho sinuoso que levou tantos outros megaprojectos a falhar no nosso país. O Gabinete de Implementação (GMNK) continua a ignorar as cartas da Justiça Ambiental a pedir os termos de referência dos estudos necessários e demais informações relevantes, fugindo desavergonhadamente do escrutínio público. A justificativa para uma barragem desta envergadura, com esta magnitude de impactos, sem que se tenha equacionado outras opções, continua fraquíssima. A crescente repressão e as tentativas de silenciar vozes críticas indicam que não há interesse em ouvir e lidar com as legítimas preocupações das comunidades locais, e que o projecto está disposto a atropelar a lei e os direitos humanos. A barragem de Mphanda Nkuwa reúne todos os ingredientes para um megaprojecto igual aos outros que temos visto em Moçambique: altamente lucrativo para as nossas elites nacionais e para as grandes empresas transnacionais, e uma desgraça para milhares de pessoas, justamente aquelas que mais precisam desse desenvolvimento que nunca chega. E nunca chegará, se continuarmos a fazer o bolo com os mesmos ingredientes.

É por estes e tantos outros motivos que a JA submeteu, em Dezembro último, uma petição com mais de 2.600 assinaturas à Assembleia da República para travar o controverso projecto de Mphanda Nkuwa, a respeito da qual ainda não temos resposta. É por estes motivos também que a JA seguirá firme e comprometida a trabalhar como sempre trabalhou, a denunciar e expôr os impactos de um modelo de desenvolvimento que não nos serve, e a trabalhar em conjunto com todos aqueles que têm o compromisso de construir um país democrático e para todos, no qual todos tenhamos voz, direitos e dignidade.

Para mais informações sobre a petição ou sobre os estudos realizados sobre os impactos do projecto de Mphanda Nkuwa, visite www.justica-ambiental.org ou entre em contacto pelo jamoz2010@gmail.com / +258 84 3106010.

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