Declaração de Maputo em Solidariedade com o povo Palestino e Saharaui

Demandas dos participantes do 9º Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos para a libertação da Palestina e do Saara Ocidental, Maputo, 1 de Agosto 2025

Como pessoas e organizações de 30 países que se reuniram em Maputo para construir solidariedade internacional e traçar estratégias de resistência à exploração das nossas terras e mares por empresas transnacionais, reconhecemos a conivência destas na ocupação de territórios de povos indígenas em todo o mundo. Isto é evidente tanto na Palestina como no Saara Ocidental.

Estamos profundamente solidárias com o povo Palestino, que está a sofrer um genocídio. A situação em Gaza deteriorou-se a níveis sem precedentes. A ocupação israelita está a usar a fome em massa como arma de guerra, negando aos civis o acesso a alimentos essenciais, água e produtos médicos, provocando desnutrição generalizada e mortes evitáveis. Áreas residenciais, hospitais e escolas têm sido alvo de ataques aéreos implacáveis, resultando na morte de mais de sessenta mil civis, particularmente mulheres e crianças. Mais de 1,5 milhões de pessoas foram submetidas a deslocamentos forçados, apenas para enfrentar novos ataques. Enquanto isso, uma guerra silenciosa é travada na Cisjordânia (West Bank) e Israel prossegue com a anexação. E conforme destacado no último relatório da Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, intitulado “Da economia da ocupação à economia do genocídio”, corporações têm contribuído materialmente e lucrado com o genocídio em curso, ao fornecer a Israel as armas e maquinaria necessária para destruir casas, escolas, hospitais, locais de lazer e culto, meios de subsistência e bens produtivos, para segregar e controlar comunidades, e para restringir o acesso aos recursos naturais.

Como organizações comprometidas com os direitos humanos e a justiça, exortamos a todos os governos, organizações da sociedade civil, instituições e indivíduos a tomarem medidas decisivas contra o genocídio em curso.

O Saara Ocidental continua a ser uma colónia em África, com a maioria das suas terras ocupadas por Marrocos desde 1975, após a saída repentina e a descolonização não concluída do território pela Espanha, a antiga potência colonial. O povo Saharaui continuou a sua luta por independência e continua a enfrentar violações de direitos humanos, incluindo tortura e desaparecimentos. As suas terras e recursos estão a ser explorados tanto por Marrocos como por empresas transnacionais, sem o consentimento do povo Saharaui, o que é contra o direito internacional.

Para a Palestina, o Saara Ocidental e outros territórios ocupados ou atormentados por conflitos incessantes, como na República Democrática do Congo, Sudão, Cabo Delgado em Moçambique, condenamos todas as formas de colonização e denunciamos a cumplicidade das empresas transnacionais. Apelamos ao reconhecimento de que os países e cidadãos de todo o mundo que beneficiam dos recursos saqueados de territórios ocupados são cúmplices dessas ocupações e das violações brutais de direitos humanos. Estamos firmemente solidários com todos os povos que resistem à expropriação e destruição dos seus territórios. Unimos forças para exigir um futuro onde a vida esteja sempre acima do lucro.

Em relação à Palestina, apelamos ao seguinte:

  1. Cessar-fogo imediato: uma cessação incondicional e permanente de todas as operações militares em Gaza.
  2. Acesso humanitário irrestrito: que se abram as fronteiras e que se permita que as organizações humanitárias entreguem suprimentos essenciais ao povo de Gaza e que o povo de Gaza tenha acesso a esses suprimentos em segurança.
  3. Responsabilização por crimes de guerra: que sejam investigados de forma independente todos os crimes de guerra e violações do direito internacional, bem como a respectiva responsabilização dos perpetradores.
  4. Liberdade e protecção para os prisioneiros Palestinos e fim do tratamento desumano nas prisões Israelitas.
  5. Livre circulação dos Palestinos: reconhecer e garantir o direito do povo Palestino à livre circulação.
  6. Fim da ocupação e afirmação dos direitos e da liberdade dos Palestinos: defendemos os direitos humanos inalienáveis dos Palestinos à liberdade, justiça, regresso e autodeterminação, bem como a retirada completa das tropas estrangeiras e dos ocupantes ilegais do território palestino.
  7. Boicote, desinvestimento e sanções económicas: apelamos aos governos para que cortem relações diplomáticas, implementem embargos comerciais e sanções económicas à ocupação Israelita. Apelamos também ao boicote académico e desportivo, bem como ao desinvestimento em empresas Israelitas.
  8. Estados devem cumprir as suas obrigações ao abrigo da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio.

Ademais, acreditamos que a única solução justa e duradoura é a criação de um único Estado democrático, desde o rio até ao mar, para o qual os refugiados Palestinos possam regressar, onde os colonatos Israelitas sejam desmantelados, e todos os habitantes gozem de direitos de cidadania iguais num país descolonizado que garanta liberdade e dignidade para todos através de um processo de verdade e reconciliação que aborde as injustiças históricas e proporcione reparações pela expropriação dos Palestinos.

Em relação ao Saara Ocidental, apelamos ao seguinte:

  1. Fim da ocupação ilegal: pelo fim da ocupação Marroquina dos territórios do Saara Ocidental.
  2. Respeito pelo direito à autodeterminação do povo Saharaui, que deve poder decidir livremente o seu futuro político, incluindo o reconhecimento da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) como o governo legítimo do Saara Ocidental.
  3. Regresso dos refugiados Saharauis, garantindo assim o direito de aqueles que vivem em campos de refugiados regressarem à sua terra natal em condições seguras e dignas.
  4. Liberdade para os presos políticos: libertação de todos os presos Saharauis ilegalmente detidos pelas forças de ocupação.
  5. Protecção dos recursos naturais: pelo fim da pilhagem dos recursos naturais do Saara Ocidental por parte das forças de ocupação e das empresas transnacionais.
  6. Protecção dos direitos humanos: garantir a monitoria e a protecção dos direitos humanos nos territórios ocupados por organismos internacionais independentes.
  7. Liberdade de circulação para todos Saharauis: garantir e assegurar o direito de circulação de todo o povo Saharaui.
  8. Estados Africanos devem cumprir com os seus compromissos regionais e internacionais: a União Africana e os seus Estados membros devem assegurar o cumprimento dos objectivos do Acto Constitutivo da União de respeito e protecção dos direitos do Povo Saharaui, ao abrigo da Carta Africana de Direitos do Homem e dos Povos, e demais instrumentos relevantes de direitos dos povos.

A luta continua!

ASSINATURAS

Organizações nacionais

  1. Justiça Ambiental (JA!) – Friends of the Earth Moçambique
  2. Palestine Environmental NGOs Network (PENGON), Friends of the Earth Palestine
  3. National Union of Sahrawi Women (UNMS) – Western Sahara
  4. Les Amis de la Terre – Togo / Friends of the Earth – Togo
  5. Sikkim Indigenous Lepcha Tribal Association (SILTA) – North East India
  6. Affected citizens of Teesta (ACT) Sikkim – North East India
  7. Climáximo – Portugal
  8. Centre for Financial Accountability (CFA) – India
  9. Sustainable Development Institute (SDI) – Liberia
  10. Núcleo para Desenvolvimento Comunitário de Cabo Delgado (NUDEC) – Moçambique
  11. Centre Congolais pour le ( Droit du ) Développement Durable (CODED) – R.D. Congo
  12. Magamba Network – Zimbabwe
  13. Buni Media – Kenya
  14. Journal Rappe – Senegal
  15. Mouvement Africain pour les Droits Environnementaux dans la région de l’Est BURKINA Faso (MADEE) – Burkina Faso
  16. Natural Resource Women Platform (NRWP) – Liberia
  17. Plataforma da Sociedade Civil da Província de Manica (PLASOC) – Moçambique
  18. Zimbabwe Smallholder Organic Farmers Forum (ZIMSOFF) – Zimbabwe 
  19. Health of Mother Earth Foundation (HOMEF) – Nigeria 
  20. International Labour, Research & Information Group (ILRIG) – South Africa
  21. Help Initiative For Social Justice and Humanitarian Development – Nigeria
  22. Palestine Solidarity Campaign (PSC) Gauteng – South Africa
  23. Landless Peoples Movement – South Africa
  24. West Coast Food Sovereignty and Solidarity Forum – South Africa
  25. South Durban Community Environmental Alliance (SDCEA) – South Africa
  26. Environmental Defenders Network (EDEN) – Nigeria
  27. Jeunes Volontaires pour l’Environnement (JVE) Côte d’Ivoire 
  28. Advocacy Coalition for Sustainable Agriculture (ACSA) – Uganda
  29. Friends of the Earth Japan – Japan
  30. South African BDS Coalition – South Africa
  31. Ondjango Feminista – Angola 
  32. Associação Observatório de Políticas de Género – Angola 
  33. Healthcare Workers 4 Palestine – South Africa 
  34. African Water Commons Collective – South Africa
  35. Women on Mining and Extractives – Sierra Leone
  36. ATTAC CADTM – Togo
  37. Civic Forum on Housing and Habitat – Zambia 
  38. All Youth Foundation for Community Development – Yemen 
  39. Centre for Social Change, University of Johannesburg – South Africa
  40. Community Action Movement – Nigeria
  41. Missão Tabita, Zambézia – Moçambique
  42. Les Amis de la Terre – Belgique (ASBL) – Belgium
  43. groundWork, Friends of the Earth South Africa
  44. Participatory Action Research Coalition – India
  45. Rights not Recuse Trust – Namibia
  46. Amigas de la Tierra España / Friends of the Earth Spain
  47. Young Women of Africa (YWOA) 
  48. Amigas da Terra Brasil / Friends of the Earth Brazil
  49. Center for Labour and Social Studies (CLASS) – Nepal
  50. The Grail – International Women Movement – Moçambique
  51. Grana Nostra – Collectif Algérien Pour la Biodiversité – Algérie
  52. National Sudanese Women Association (NSWA) – Sudan 
  53. Friends of the Earth Denmark (NOAH) – Denmark
  54. Associação para Promoção dos Direitos de Transgéneros de Moçambique (ANTRA) – Moçambique
  55. Sahabat Alam Malaysia / Friends of the Earth Malaysia (SAM) – Malaysia
  56. Lawyers’ Environmental Action Team (LEAT) / Friends of the Earth Tanzania
  57. Centre For Alternative Research and Studies (CARES) – Mauritius
  58. Censat Agua Viva / Friends of the Earth Colombia
  59. Community Development Advocacy Foundation (CODAF) – Nigeria 
  60. Legal Rights and Natural Resources Center – Friends of the Earth Philippines
  61. Lok Shakti Abhiyan – India
  62. Centre For Studies on Climate Justice – Bhubaneswar, India
  63. Centre for Citizens Conserving Environment & Management (CECIC) – Uganda
  64. Afrikagrupperna – Sweden 
  65. Sahrawi Organization Against Moroccan Occupation – Western Sahara
  66. Association of Sahrawi Human Rights Defenders in Western Sahara
  67. Association for the Protection of Sahrawi Prisoners in Moroccan prisons – Western Sahara
  68. Association for the Monitoring of the Resources and for the Protection of the Environment in Western Sahara (AMRPENWS) – Western Sahara
  69. Sahrawi Association of Victims of Grace Human Rights Violations Committed by the Moroccan State (ASVDH) – Western Sahara
  70. Sahrawi Association for the Protection and Promotion of Sahrawi Culture and Heritage – Western Sahara
  71. Union Nationale des Femmes Algériennes – Western Sahara
  72. Committee for the Defense of the Self-Determination of the People of Western Sahara (CODAPSO) – Western Sahara
  73. Committee for the Protection of Sahrawi Human Rights Defenders – Western Sahara
  74. Sahrawi Observatory for Child Protection – Western Sahara
  75. Sahrawi Committee of Arbitrarily Dismissed Employees and Workers by Moroccan State – Western Sahara
  76. Committee of the Families of the Abducted – Western Sahara
  77. Committee for the Protection of Natural Resources and Defense of the Settlement Plan – Western Sahara
  78. Port Arthur Community Action Network (PACAN) – United States of America
  79. MA’AN Development Center – Palestine
  80. Arab Agronomists Association (AAA) – Palestine
  81. Rural Women Development Society (RWDS) – Palestine
  82. Union Nationale des Femmes Algériennes (UNFA) – Algérie
  83. Friends of the Earth – Grenada (West Indies) 
  84. Ramani Collective – Kenya
  85. Coletivo Refúgio Humanitário Palestina Brasil
  86. Sunflower Association – Palestine
  87. Comitê Capixabas pela Palestina – Brasil
  88. Zelena akcija / Friends of the Earth Croatia

Organizações internacionais / regionais

  1. La Via Campesina Southern and Eastern Africa (LVC – SEAF)
  2. Convergence Globale des Luttes pour la Terre, l’Eau et  les Semences Paysannes Ouest africain (CGLTE-OA)
  3. Green Advocates International (GAI)
  4. Amigos da Terra África / Friends of the Earth Africa
  5. Housing and Land Rights Network – Habitat International Coalition – Switzerland and Egypt
  6. Global Campaign to Reclaim Peoples’ Sovereignty, Dismantle Corporate Power and Stop Impunity
  7. Africa Just Transition Network (AJTN) – Africa
  8. South Asian Solidarity Collective
  9. Oilwatch Africa
  10. No REDD in Africa Network (NRAN)
  11. Oilwatch International
  12. Laudato Si Movement Africa
  13. Third World Network (TWN)
  14. Womin African Alliance
  15. Asia Peoples Movement on Debt and Development (APMDD)
  16. Transnational Institute (TNI) – Netherlands / International
  17. Natural Justice: Lawyers for Communities’ and the Environment – Africa

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9 Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos

9oWorkshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos

29 de Julho a 1 de Agosto 2025, Hotel Glória, Maputo – Moçambique

Em 2025, no meio de enormes mudanças geopolíticas, crises e genocídios televisionados e invisibilizados em todo o mundo, o continente africano continua a ser um importante local de reprodução do brutal capitalismo fóssil global – mas também de luta e resistência contra ele. Aquilo a que estamos a assistir não é novo: desde a privatização dos bens comuns às crises eleitorais e constitucionais à austeridade a retrocessos nos direitos das mulheres à intensificação das formas de extracção e ecocídio às guerras e à repressão dos activistas políticos e ambientais… estamos sim a viver formas de acumulação alargadas e aceleradas, ao mesmo tempo que somos atingidos por um colapso climático e ecológico total para o qual contribuímos muito pouco. Estes e outros fenómenos estão ligados ao capitalismo, seja porque o capitalismo os alimenta e deles beneficia, seja porque são consequências mais ou menos directas do capitalismo, seja simplesmente porque são o seu terreno fértil.

As crises profundas na região africana têm as suas raízes, entre outros factores, na forma como a riqueza da nossa terra e do nosso povo continua a ser pilhada internacionalmente por empresas transnacionais, facilitada por estruturas de acumulação herdadas do colonialismo. Para enfrentar a ameaça existencial da crise climática, a nossa resposta tem de ser radicalmente descolonial, anti-patriarcal e anti-capitalista.

Esperamos que o 9º Workshop de Maputo sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos sirva como um espaço de intercâmbio entre movimentos e organizações em torno da protecção dos direitos das comunidades e do ambiente. É um apelo para nos envolvermos verdadeiramente no nosso compromisso colectivo de mudar o sistema actual. Como é que nos reconectamos com os nossos valores africanos para construir um paradigma de desenvolvimento que seja centrado nos povos e em linha com a visão africana da dignidade humana? Que formas de solidariedade (transnacionais, transversais, feministas, etc.) são necessárias neste preciso momento, e como aprofundá-las? Como é que estamos a planear as nossas necessidades imediatas e a nossa sobrevivência, e a fortalecer os nossos movimentos a partir de dentro, tendo em conta as crises que antecipamos no futuro? O que podemos aprender do movimento “fees must fall” na África do Sul, dos ventos do anti-imperialismo vindos do Sahel, ou das revoltas juvenis no Quénia e em Moçambique?

O despertar de uma política Panafricana de libertação é urgente – e pode muito bem já estar a caminho.

Para informações adicionais e para se registar: impunidade.corporativa@gmail.com / +258 84 3106010

Membros da Friends of the Earth International processam EXIM por aprovar ilegalmente US$ 4,7 bilhões para apoiar o desastroso projecto de GNL em Moçambique

WASHINGTON – A Friends of the Earth U.S. e a Justiça Ambiental/Friends of the Earth Moçambique, com representação da EarthRights International, entraram com uma acção judicial ontem à noite contestando a aprovação ilegal do Banco de Exportação e Importação dos EUA de quase US$ 5 bilhões em financiamento para o projecto GNL Moçambique. O projecto deslocou milhares de pessoas locais, foi palco de alegadas violações dos direitos humanos, está rodeado por um conflito violento e causará uma destruição ambiental significativa. No entanto, conforme alegado na acção judicial, o EXIM apressou a aprovação sem realizar as avaliações ambientais e económicas necessárias, nem permitir a participação exigida do público e do Congresso. O EXIM não cumpriu o seu próprio estatuto e a lei federal, criando um precedente perigoso para decisões futuras.

Em Fevereiro de 2025, o presidente Trump nomeou ilegalmente membros para o Conselho de Directores do EXIM sem a devida confirmação do Senado, em violação aos procedimentos legais de nomeação. Apenas semanas depois, em Março, esse conselho “interino” indevidamente constituído aprovou em definitivo um empréstimo massivo para apoiar um projecto controverso liderado pela gigante petrolífera francesa TotalEnergies. A decisão foi tomada apesar do conflito armado e da crise humanitária em curso na região, bem como da própria declaração de força maior feita pela TotalEnergies mais de quatro anos antes — medida que interrompeu as operações e deixou o projecto paralisado desde então. Ignorando esses alertas, o Conselho do EXIM avançou com o subsídio ao empreendimento, desconsiderando evidências concretas de destruição ambiental, danos às comunidades locais e investigações internacionais em andamento sobre graves violações de direitos humanos no local do projecto.

O porta-voz da JA, afirmou:

“ Continuar a financiar projectos de gás em Cabo Delgado seria uma traição a Moçambique e à humanidade. Seria uma falta de respeito pela justiça que é devida às pessoas que sofreram violações dos direitos humanos. Seria ignorar as vozes das famílias que estão a suportar os fardos mais pesados – que perderam as suas terras, o acesso ao mar e os seus meios de subsistência. Seria uma falta de compromisso com as leis nacionais, as normas internacionais e quaisquer esforços para lidar com a crise climática. O GNL em Moçambique beneficiaria apenas as empresas de combustíveis fósseis e uma pequena elite política. ”

“ Existem procedimentos e processos legais em vigor para garantir que o Banco de Exportação e Importação dos EUA não desperdice o dinheiro dos contribuintes em projectos arriscados, afectados por insurreições violentas”, afirmou Kate DeAngelis, diretora adjunta de Política Económica da Friends of the Earth US. “No entanto, o EXIM – tal como o resto da Administração Trump – acredita que pode operar fora da lei. Não ficaremos de braços cruzados enquanto a Administração Trump corta os cuidados de saúde e a ajuda em caso de catástrofes para poder dar esmolas às empresas de combustíveis fósseis.”

“A decisão ilegal do Conselho de Administração do EXIM de subsidiar este projecto, sem sequer considerar os riscos para a população local, para não falar das graves alegações de que a segurança do projecto cometeu um massacre no local do projecto, é mais do que imprudente. A EXIM precisa de fazer o seu trabalho e considerar realmente os danos que este projecto irá causar à população local”, afirmou Richard Herz, da EarthRights International.

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O processo judicial de hoje visa responsabilizar a EXIM por violar a lei federal ao forçar discretamente a aprovação final que não cumpriu os requisitos processuais exigidos pelo Congresso e por aprovar um financiamento que viola os limites substantivos que o Congresso impôs à EXIM. Se for bem-sucedida, a acção judicial anulará a aprovação ilegal da EXIM, impedirá que os fundos sejam desembolsados e obrigará a EXIM a cumprir as suas obrigações antes de tomar uma decisão sobre o empréstimo pendente.

A Friends of the Earth US e a Justiça Ambiental/Friends of the Earth Moçambique entraram com a acção judicial contra a EXIM no tribunal federal distrital do Distrito de Columbia. Elas estão a ser representadas nesta questão pela organização sem fins lucrativos EarthRights International.

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FOGÕES EFICIENTES TRANSFORMAM VIDAS E DESAFIAM ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO NAS COMUNIDADES DO MONTE MABU

Em meio à biodiversidade única do Monte Mabu, na província da Zambézia, Moçambique, uma inovação simples está a gerar impactos profundos — ambientais, sociais e culturais. A introdução dos fogões foguete, feitos com tijolos de argila de fácil acesso local, está a revolucionar o cotidiano das comunidades de Limbue, Nangaze, Namadoe e Nvava.

Estes fogões, altamente eficientes na conservação de calor e com baixo consumo de lenha, oferecem múltiplos benefícios, nomeadamente, (i) redução do uso de biomassa, portanto reduz a pressão sobre as florestas locais; (ii) melhoria da saúde das mulheres, ao minimizar a exposição ao fumo; (iii) aumento da ergonomia e segurança durante o preparo das refeições; e (iv) por serem acessíveis, de baixo custo e de fácil replicação.

Os efeitos vão além da sustentabilidade ambiental. Um dos impactos mais transformadores tem sido o envolvimento crescente dos homens na culinária — um espaço tradicionalmente reservado às mulheres nessas comunidades. Os fogões foguete estão a quebrar barreiras culturais e contribuir para a equidade de gênero.

Durante as oficinas comunitárias de construção e uso dos fogões, foi possível homens e mulheres aprender sobre cuidados de higiene na preparação e conservação de alimentos e ainda o  sobre (i) fabrico de sabão a partir de cinza e soda cáustica; (ii) produção de compotas a partir de frutas da época; (ii) processamento e conservação de alimentos com métodos acessíveis e locais.

Para a Justiça Ambiental, é motivo de orgulho contribuir com soluções que respeitam o meio ambiente, promovem equidade e melhoram a qualidade de vida das comunidades locais.

Pequenas inovações, quando feitas com as pessoas e para as pessoas, geram grandes transformações.

Estamos comprometidos com um futuro mais justo, sustentável e participativo.

#JustiçaAmbiental #Sustentabilidade #EmpoderamentoComunitário #EquidadeDeGênero #InovaçãoSocial #FogõesFoguete #MonteMabu #Moçambique #DesenvolvimentoSustentável

COMUNIDADES DO MONTE MABU BUSCAM SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS PARA PROTEGER SUA FLORESTA E CONSTRUIR UM FUTURO RESILIENTE

No coração da Zambézia, em torno da imponente floresta do Monte Mabu, um movimento
de esperança e transformação está em curso. Com o apoio da Justiça Ambiental,
comunidades de Nvava, Limbue, Namadoe e Nangaze estão assumem indo o protagonismo
na defesa dos seus recursos naturais e na construção de alternativas sustentáveis de meio
de subsistência.


Há cerca de 10 anos, estas comunidades trabalham no fortalecimento vêm fortalecendo
das suas associações comunitárias com o objetivo de gerir de forma autónoma e
responsável a floresta em sua volta. Agora, numa nova etapa deste compromisso, a Justiça
Ambiental está a realizar uma série de oficinas práticas e inclusivas, envolvendo
directamente pelo menos 100 membros destas comunidades ao longo dos meses de junho e
julho.


As oficinas abordam temas estratégicos que articulam saberes ancestrais e inovações
adaptadas ao contexto local, nomeadamente, (i) resgate de sementes locais para fortalecer
a soberania alimentar com espécies adaptadas ao solo e ao clima da região; (ii) sistemas
agroflorestais que geram alimentos e renda em harmonia com a floresta, conservando
ecossistemas; (iii) produção caseira de produtos alimentares e de limpeza, a exemplo do
sabão artesanal utilizando cinzas, um recurso acessível, para produzir um produto essencial
a baixo custo; (iv) uso sustentável de plantas medicinais no resgate de conhecimentos
tradicionais de forma a fortalecer a autonomia em cuidados de saúde; (v) processamento da
produção local (frutas e legumes), através de técnicas de secagem, fermentação, destilação,
pasteurização e armazenamento, qualificando a segurança alimentar e agregando valor à
produção sazonal e (vi) técnicas de bioconstrução com materiais locais incluindo fabrico de
fogões ecológicos de alta eficiência, que reduzem o consumo de lenha e as emissões de
fumo, protegendo a saúde e a floresta e trazendo melhoria para as condições de vida das
mulheres em particular.

Além de preservar a biodiversidade única do Monte Mabu, estas acções geram alternativas
concretas de renda e melhoram a qualidade de vida das famílias, diminuindo a dependência
da exploração predatória da floresta.


Este trabalho conta com a contribuição técnica das brasileiras Ana de Carli e Lisiane Brolese,
que trazem sua ampla experiência em bioconstrução e agroecologia voltada à resiliência
climática. Um destaque especial tem sido dado à componente de género, assegurando que
as mulheres — muitas vezes as principais guardiãs da floresta — tenham voz, formação e
poder de decisão nas transformações em curso.

Monte Mabu não é apenas uma montanha: é um símbolo de resistência, de sabedoria
comunitária e de esperança diante dos desafios globais das mudanças climáticas. Cada
oficina realizada é um passo firme na construção de um modelo de desenvolvimento local
que coloca a vida e a natureza no centro.


A Justiça Ambiental continua firme no seu compromisso em fortalecer as comunidades,
proteger as florestas, garantir um futuro justo e sustentável para todos.

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Dois activistas detidos “por não se apresentarem ao governo local” enquanto documentavam impactos da poluição do carvão no Corredor de Nacala

Dois activistas que colaboram com a Justiça Ambiental (JA!) foram interpelados pela Polícia da República de Moçambique (PRM), na comunidade de Nachiropa, e levados ao Comando Distrital da PRM em Nacala-a-Velha, na província de Nampula, no último domingo 25 de Maio. Os activistas estavam nessa comunidade a pedido de membros da própria comunidade, com o objectivo de documentar e recolher depoimentos das famílias afectadas pela poluição do carvão que é transportado em carruagens sem cobertura ao longo da linha férrea Moatize-Nacala, conhecida como o Corredor Logístico de Nacala.

As comunidades que vivem ao longo deste corredor denunciam contaminação dos cursos de água e do solo, dificuldades na produção agrícola, desaparecimento do peixe no mar e consequentemente dificuldades na prática da pesca (principal actividade de subsistência de muitas famílias em Nachiropa e arredores), problemas de saúde, em particular doenças respiratórias e perda de visão. Referem também que estes impactos vêm acontecendo perante os olhos do governo distrital, que nada faz para mudar este cenário.

“Na altura em que fomos detidos pela PRM, estávamos a fazer o nosso trabalho normalmente com a comunidade, que se havia aglomerado no local onde estávamos a fazer entrevistas. De repente, vimos a chegada de um carro de marca Mahindra com 8 policiais armados lá dentro. Chegaram em alta velocidade, e os policiais imediatamente saltaram do carro e rodearam-nos com uma abordagem bastante agressiva. A comunidade ficou revoltada, pois interpretou aquela acção da polícia como uma tentativa de impedir que o seu sofrimento fosse documentado, e começaram a gritar e expulsar os agentes do local. Acusaram a polícia de querer vê-los a continuar a sofrer com a poeira do carvão” – afirmou Charles de Moniz, um dos activistas da JA!

Os activistas conseguiram acalmar os ânimos da comunidade. Em seguida, foram escoltados pela PRM até ao Comando Distrital em Nacala-a-Velha. Chegando no Comando, viram todos os seus pertences serem confiscados, incluindo os seus materiais de trabalho, e foram interrogados pelo comandante Lélio Leonardo Massave, que afirmou que estavam ali porque não se haviam apresentado ao governo local, e isso havia levantado ‘suspeitas’ em relação ao seu trabalho – sem que fundamentasse quais seriam essas suspeitas.

“Mesmo depois de terem visto as imagens que gravámos no local e vasculharem os nossos pertences, decidiram manter-nos detidos lá no Comando durante seis horas. A dada altura, parecia que nos tinham abandonado lá, pois o Comandante e a maioria dos agentes saíram. Não nos deram nenhuma explicação a respeito das acusações contra nós, nem qual era a base legal para a nossa detenção. Apenas nos diziam que não devíamos estar a trabalhar sem nos apresentarmos ao governo local para informar o que iríamos fazer. Também nos perguntaram se sabíamos que havia terrorismo em Cabo Delgado” – reiterou Charles.

Por volta das 14h, os dois activistas foram postos em liberdade pelo Chefe das Operações, sem esclarecimentos adicionais, mas não sem que este recomendasse que pedissem autorização ao governo local quando pretendessem voltar a trabalhar com a comunidade do bairro de Nachiropa.

Ora, é bem sabido que qualquer cidadão tem o direito de circular livremente em todo o território nacional, e de se envolver em questões de seu interesse ou de interesse público, como é o caso da protecção e preservação do meio ambiente. Esta actuação da polícia viola direitos fundamentais e princípios básicos de liberdade de expressão, direito à informação e participação democrática, além de configurar abuso de autoridade e detenção ilegal, uma vez que os cidadãos não foram informados das acusações que tinham contra si.

É igualmente grave esta perseguição às organizações da sociedade civil e aos activistas ambientais, sociais e políticos em Moçambique, particularmente aquelas/es que trabalham para documentar e denunciar os impactos devastadores dos grandes investimentos estrangeiros. Adicionalmente, a exigência de que organizações da sociedade civil se apresentem às autoridades governamentais antes de desenvolverem as suas actividades constitui uma clara violação dos direitos constitucionais de associação e liberdade de movimento. Nenhuma organização da sociedade civil que esteja a operar em conformidade com a lei precisa de autorização do governo local para realizar as suas actividades. Esta prática não só contradiz os princípios estabelecidos na Constituição da República, que garante o direito de associação, como também contraria as normas internacionais de direitos humanos, conforme já foi alertado pela ONU ao governo Moçambicano. Estas exigências burocráticas e ilegais servem como mecanismos de controlo e intimidação, abrindo espaço para que o governo monitore, restrinja e até impeça o trabalho legítimo de organizações que documentam violações ambientais e de direitos humanos.

Esta repressão não é acidental, nem fruto de um mal-entendido, mas sim uma manifestação clara do alinhamento entre o Estado moçambicano e as empresas transnacionais, onde a defesa dos lucros corporativos prevalece sobre os direitos fundamentais dos cidadãos e a protecção ambiental. Mais uma prova deste conflito de interesses é a oferta recente, por parte da Nacala Logistics (empresa responsável pelo transporte ferroviário ao longo do Corredor de Nacala) de viaturas e motorizadas à PRM de Nacala-a-Velha, para “manter intactos os activos da empresa”. Ou seja, a empresa que polui o meio ambiente e deteriora a vida das populações que vivem ao longo da linha férrea é a mesma que forneceu veículos à PRM, que os usa para deter activistas ambientais e sociais a trabalharem em defesa destas comunidades e do meio ambiente!

Esta postura do governo, a trabalhar em conluio com a PRM em defesa dos interesses das empresas, não apenas impede o exercício legítimo da cidadania ativa, como também cria um ambiente de impunidade para as práticas predatórias destas empresas, perpetuando um modelo de desenvolvimento que sacrifica o bem-estar das comunidades locais e a sustentabilidade ambiental em favor de uma elite política e económica que beneficia directa e exclusivamente destes megaprojectos. Até quando esta impunidade?

Porque é que as instituições financeiras devem educadamente virar as costas ao Coral North FLNG da ENI


Actualização do ReCommon e da Justiça Ambiental!

Investimento do seu projecto Coral North FLNG, mas agora afirma que ainda está em negociações com bancos privados para o financiamento e parece colocar a culpa do atraso nas autoridades moçambicanas. Enquanto isso, um investidor foi processado por uma organização da sociedade civil, e quatro bancos privados já excluíram o financiamento para o projecto.

A Coral North FLNG, uma plataforma flutuante planeada para extrair e liquefazer gás ao largo da costa de Moçambique, ainda está em busca de financiadores. Embora a ENI tenha declarado em Janeiro que estava pronta para tomar a decisão final sobre o investimento do projecto, na semana passada, no contexto da sua AGM, admitiu aos acionistas que “as negociações com as instituições financeiras privadas estão em andamento”. Quando questionada sobre as razões do atraso no fecho do negócio, a ENI apenas respondeu que o plano de desenvolvimento foi aprovado pelas autoridades moçambicanas em Abril de 2025, o que implica que elas seriam as responsáveis pelo atraso.

A ENI lidera o trabalho na Coral South FLNG, o único projecto operacional na Bacia do Rovuma. Trata-se de uma planta de processamento flutuante ancorada em alto-mar que vem exportando GNL desde Novembro de 2022. A Coral North FLNG seria uma réplica, cravando suas garras no fundo do mar a apenas 10 quilômetros de distância, agravando os impactos na ecologia da área.

Respondendo às perguntas durante a AGM, a ENI confirmou também que “parte das necessidades do projecto está planeada para ser financiada por meio de dívida” e com “apoio de diversas Agências de Crédito à Exportação”, como ocorreu com a Coral South FLNG. No entanto, diferentes actores do sector financeiro privado estão se afastando do financiamento do petróleo e gás não convencionais no segmento upstream, a fim de alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Pelo menos quatro dos bancos que apoiaram o primeiro projecto BNP Paribas, Crédit Agricole, UniCredit e ABN Amro, afirmam que não estão mais interessados em financiar a réplica, pois esta não está em conformidade com sua política actualizada sobre mudanças climáticas.

Pouco mais de três anos após a chegada do enorme navio à região de Cabo Delgado, a Coral South tem registado múltiplos casos de queima excessiva – a queima do excesso de gás extraído, que resulta em emissões significativas de carbono. Sendo uma réplica, a Coral Nortth estaria provavelmente sujeita a problemas semelhantes.

Uma investigação publicada em Abril pela organização italiana da sociedade civil, ReCommon revelou que as emissões totais da Coral South foram avaliadas em níveis sete vezes superiores aos declarados na original avaliação de impacto ambiental (AIA).

Somente entre Junho e Dezembro de 2022, as emissões de queima do projecto Coral South FLNG foram responsáveis ​​por 11,2% das emissões anuais de Moçambique, reflectindo um aumento de 11,68% em comparação a 2021.

Prosseguir com o desenvolvimento de gás na Bacia do Rovuma, ignora as conclusões do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, que indicam que o investimento em infraestrutura adicional de gás é incompatível com o objectivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. A análise da Agência Internacional de Energia também revela que, em um cenário de 1,5 °C, a capacidade existente de exportação de GNL já seria suficiente para atender à demanda actual e futura.

Com a demanda de gás em declínio em todo o mundo, a Coral North apresenta alto risco financeiro, levando a organização da sociedade civil sul-coreana Solutions for Our Climate (SFOC) a tentar interromper o investimento estatal no projecto. Em Fevereiro, a Korea Gas Corporation (KOGAS) anunciou a decisão de investir US$ 562 milhões no projecto por meio de capital próprio e num empréstimo à sua subsidiária, KG Moçambique. Em Março, a SFOC processou a KOGAS, argumentando que o investimento é economicamente arriscado para a Coreia do Sul e que o projecto contribuiria significativamente para os impactos das mudanças climáticas e, portanto, violaria os direitos das futuras gerações a um ambiente saudável. Entre 2008 e Abril de 2024, a KOGAS já havia investido cerca de US$ 1 bilhão no desenvolvimento de gás em Moçambique, mas recusou-se a divulgar o estudo preliminar de viabilidade (PFS) para a Coral North. A SFOC também tem um processo em andamento contra a KOGAS para a divulgação do PFS.

Dois outros projectos na Bacia do Rovuma, estão a planear instalações de processamento em terra significativamente maiores, com a intenção de canalizar gás de poços localizados a cerca de 50 km da costa: a Mozambique LNG e o Rovuma LNG. Os impactos ambientais dos quatro projectos de gás, em conjunto, ao longo de toda a sua vida útil, podem ser devastadores para a Bacia do Rovuma e para o Oceano Índico Ocidental. A Avaliação de Impacto Ambiental do Projecto Coral Norte foi criticada por não cumprir as normas legais e científicas na avaliação dos riscos ambientais e climáticos.

O projecto Mozambique LNG, liderado pela gigante francesa dos combustíveis fósseis TotalEnergies, continua sob escrutínio internacional. O projecto está sob força maior desde Abril de 2021, após um violento ataque de insurgentes. Actualmente, está sob investigação após denúncias de um massacre de civis supostamente cometido perto do complexo de gás de Afungi em meados de 2021, pelas forças de segurança pública. A Mozambique LNG compartilha direitos de uso da terra e algumas infraestruturas com o projecto Rovuma LNG, liderado pela ExxonMobil, tendo a ENI e a China National Petroleum Corporation como principais parceiras. O projecto também permanece sem uma decisão final de investimento.

O desenvolvimento de projectos de GNL em Moçambique também apresenta sérias preocupações quanto à erosão da soberania, devido aos acordos legais que limitam a capacidade do governo de regular esses projectos e obter receitas justas. Desde que a exploração de gás começou, por volta de 2010, a indústria tem sido associada a uma dívida significativa motivada pela corrupção, e o Governo apoia a participação da sua empresa petrolífera nacional em projectos de GNL, criando risco fiscal sem retorno garantido. As comunidades locais já perderam terras agrícolas e o acesso ao mar devido ao desenvolvimento da infraestrutura, e centenas de famílias foram obrigadas a se deslocar.

As receitas do gás até o momento somam pouco mais de US$ 200 milhões, dos quais 40% são destinados ao Fundo Soberano, criado para garantir estabilidade e economia para as futuras gerações. Na semana passada, o Tribunal Administrativo de Moçambique relatou inúmeras irregularidades na Conta Financeira do Estado de 2023, que representam um suposto desvio de US$ 33 milhões das receitas do gás do Rovuma. Além disso, a sociedade civil moçambicana tem levantado preocupações sobre a alocação dos fundos para projectos sociais e económicos, conforme previsto no Orçamento do Estado.

O desenvolvimento da indústria de GNL em Moçambique só promete mais danos — destruição ecológica e impacto das mudanças climáticas, destruição dos meios de subsistência da população e aumento da privação de direitos e desigualdades. Este é um negócio arriscado para investidores financeiros públicos e privados.

FIM

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Comunicado de Imprensa

OSC’s denunciam irregularidades no processo de revisão da lei de terras e anunciam o boicote à X Sessão do Fórum de Consulta sobre Terras

As organizações da sociedade civil abaixo mencionadas, anunciam a sua decisão de se abster de participar na X Sessão do Fórum de Consulta sobre Terra. Este boicote resulta das irregularidades persistentes no processo de consulta pública para a revisão da Lei de Terras (Lei 19/97, de 1 de Outubro), pois apesar da participação activa e o esforço daquelas desde o início do processo e da insistência na melhoria e cumprimento de normas relativas ao processo de consulta pública, particularmente a consulta às comunidades rurais, pouco ou nada tem sido acolhido ou discutido pela Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras.   

A decisão das OSC decorre de falhas críticas no processo de revisão, que comprometem a transparência, a inclusão, descentralização, prestação de contas e cumprimento das normas constitucionais, legais e dos padrões internacionais relativos a participação pública. As principais preocupações incluem:

– Marginalização das comunidades rurais: As consultas têm sido centradas nas zonas urbanas, excluindo mais de 65% da população rural de Moçambique, incluindo mulheres e pessoas deslocadas em regiões como Cabo Delgado. Este facto viola o direito constitucional dos moçambicanos e moçambicanas à participação na vida da Nação (Artigo 73 CRM) e a obrigação do Governo de criar mecanismos adequados para assegurar a participação pública, e sobretudo das comunidades locais, na elaboração de políticas e legislação sobre recursos naturais (artigo 8 da Lei N.20/97, de 1 de Outubro – Lei do Ambiente).

– Falta de transparência: A informação sobre o processo é de difícil acesso, disponível apenas em Português e em linguagem sofisticada, portanto, inacessível à grande maioria da população. Os documentos relevantes não estão disponíveis ao público em geral, na sua maioria são partilhados apenas via internet, uma vez mais inacessível a grande parte da população. Os contributos do público são habitualmente ignorados sem justificação e os documentos essenciais, como o glossário do AnteProjeto 3 da Lei de Terras, continuam indisponíveis, impedindo um envolvimento significativo.

– Consultas superficiais: O processo dá prioridade a resultados pré-determinados, como a digitalização do registo predial, em detrimento de um diálogo genuíno. A dependência do governo em relação às OSC para financiar e facilitar a participação rural, associada a um calendário de consultas irrealista, torna o Fórum de Consulta sobre Terras uma formalidade e não uma plataforma de co-criação de políticas.

– Ausência de mecanismos de prestação de contas (accountability): O Draft a ser apresentado ao Fórum de Consulta sobre Terra não reflete nem as contribuições das Organizações da Sociedade Civil que conseguiram participar do processo, nem ao relatório de consultas públicas elaborado pela Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras, o que demonstra total falta de interesse na participação pública, preparação para receber contribuições do público e cultura democrática.

Ademais, nenhuma das propostas de artigos do Draft submetido ao Fórum de Consulta sobre Terra porta fundamentação.

– Riscos de violação de disposições constitucionais e de direitos humanos: o Anteprojecto de Lei de Terras introduz disposições copiadas da Lei Angolana de Terras mas se esqueceu de verificar as disposições supremas da Constituição Angolana. A título de exemplo, o Anteprojeto de Lei de Terras copiou da Lei Angolana os domínios privados e particulares de terras sem sequer verificar os arranjos constitucionais feitos por aquele país para permitir a criação de regimes dominiais privativos. A Constituição moçambicana dispõe sobre domínio público, do Estado, das Autarquias Locais e Comunidades Locais. Para que uma lei criasse tais domínios privativos e particulares, dever-se-ia, antes de mais assegurar que a Lei suprema do Estado, cria condições para tal.  Outros riscos resultam dos artigos 137º, 139º e 140º do Anteprojecto que permitem que os projectos privados extingam os direitos de uso da terra existentes (DUAT), arriscando deslocações forçadas e contradizendo as protecções constitucionais (Artigo 111º CRM) incluindo o próprio texto do Anteprojecto que pretende dar garantias do direito de propriedade ao DUAT, de apenas ser limitado em caso de interesse, utilidade e necessidade pública. A eliminação do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI), previsto nas versões anteriores põe ainda mais em risco os direitos das comunidades.

O Fórum de Consulta sobre Terra, tal como está atualmente estruturado, não cumpre os padrões básicos de inclusão e transparência. Enquanto organizações da sociedade civil que defendem direitos e inclusão, não vamos participar nem tão pouco legitimar o processo até que o governo se comprometa com um processo genuinamente participativo que respeite os direitos de todos os moçambicanos.

“Não podemos legitimar um processo que exclui as próprias comunidades cujas vidas dependem da terra”

As OSCs exigem que ao Governo de Moçambique e aos financiadores do processo, entre estes o Banco Mundial para a:

– Suspensão do Fórum e definição de uma metodologia e calendário de consultas pública que possa assegurar a inclusão das comunidades rurais, garantindo a equidade de género e a acessibilidade linguística;

– Publicação de toda a documentação detalhada e uma metodologia para incorporar os contributos do público, em linguagem acessível e nas principais línguas locais; 

– Assegurar que o processo de revisão da Lei de Terras, resulte numa Lei de Terras que reflicta e defenda os interesses legítimos dos moçambicanos e salvaguarde os direitos históricos das comunidades sobre a terra.

Nossa Terra Nossa Vida! 

Nada Para Nós Sem Nós!

Maputo, 28 de Abril de 2025|

  • Acção Académica para Desenvolvimento das Comunidades Rurais – ADECRU
  • Alternactiva Acção pela Emancipação Social
  • Associação dos Jovens Combatentes do Monte Errego – AJOCME
  • Justiça Ambiental – JA!
  • Missão Tabita
  • Natural Justice 
  • Plataforma da Sociedade Civil da Província de Manica

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COMUNIDADES DE HAMELA E MUGULAMA EXIGEM DIVÓRCIO À PORTUCEL  

Por: JA, Missão Tabita e AJOCME

No passado dia 8/04/2025, houve um encontro na Comunidade de Hamela, posto Administrativo de Ile Sede, convocado pelo líder de Hamela a pedido da empresa Portucel.  No encontro estiveram presentes uma equipe da Portucel, composta pelos senhores Pereira, Chico, Quembo, o filho do Sr. Raul e uma senhora, 1 representante da empresa chinesa Mumu Madeira e membros da comunidade. O Líder de Hamela, apesar de ter convocado o encontro não participou no mesmo pois tinha outra agenda no mesmo dia. A equipe da Portucel informou que pretende dar início ao corte do eucalipto para venda à empresa chinesa Mumu Madeira. Por sua vez, o representante da empresa Mumu Madeira explicou que só vão iniciar o corte do eucalipto após acordo com a comunidade e a cerimónia tradicional, ao que pediu aos membros da comunidade para listar as necessidades para a realização da cerimónia. A comunidade concordou e propôs uma lista de produtos. 

De seguida, alguns membros da comunidade aproveitaram a oportunidade para questionar sobre as promessas feitas pela Portucel à sua chegada a comunidade e que até ao momento nada foi feito. O Sr. Quembo respondeu que a Portucel não vai indemnizar as famílias afetadas antes de explorar o eucalipto, ou seja, não vai realizar as promessas feitas pois ainda estão a investir e ainda nem venderam o eucalipto, explicou ainda que a empresa também apoiou o distrito na construção de um bloco operatório. A sua resposta não agradou a comunidade, que afirmou que assim que for cortado o eucalipto vai retomar as suas terras, e que não querem mais a Portucel na sua área. Os membros da comunidade informaram ainda que se até ao dia 5 de Maio a Portucel não trouxer respostas concretas a todas as promessas feitas, esse será o dia da assinatura do divórcio entre a comunidade e a Portucel, acrescentando que a empresa não é responsável pela construção de hospital, essa é responsabilidade do governo, mas a empresa é responsável por cumprir todas as promessas que fez quando chegou à comunidade a pedir terras, e por causa dessas promessas a comunidade cedeu as suas terras. 

A decisão da comunidade provocou desentendimento entre os representantes da Portucel e a comunidade, e a equipe da Portucel saiu muito frustrada do encontro. Mas antes de sair, um dos representantes da Portucel registou o nome de 5 pessoas influentes da comunidade, que levantaram as suas questões e demonstraram a insatisfação da comunidade com a empresa, lembrando inclusive as muitas promessas feitas e em nada cumpridas. O registo dos seus nomes levantou preocupação em toda a comunidade e em particular nas famílias destas pessoas, que se questionavam o que a empresa pretende fazer com os nomes recolhidos. Enquanto isso, o senhor Cezar João Coroma agente de Ligação da Portucel, ameaçou membros da comunidade, afirmando que quem falar mal da Portucel e a ameaçar retomar as suas terras, vai ser preso.

O representante da empresa MUMU MADEIRA, por ver a situação, explicou que a empresa Mumu Madeira é apenas o cliente que pretende comprar os eucaliptos, pelo que não estão envolvidos no conflito. O mesmo prometeu ainda que irá empregar os membros da comunidade para o trabalho de corte dos eucaliptos, e propôs o pagamento de 400 mts por dia, num contrato de 1 mês em que o pagamento será feito a cada 15 dias, o trabalho será rotativo para permitir que todos da comunidade possam ter a oportunidade de ganhar algum valor. Apesar do encontro ter terminado em conflito com a Portucel, a comunidade concordou com a proposta do representante da empresa Mumu Madeira. 

O líder da Comunidade ficou preocupado com a informação que os membros da comunidade transmitiram sobre o encontro, por essa razão solicitou um encontro com a comunidade na presença da chefe da localidade, que por sua vez veio acompanhada pelo chefe do posto.  


O encontro solicitado pelo líder da comunidade teve lugar na sexta feira dia 11 de abril,  e nesta ocasião o chefe do posto tentou sem sucesso manipular a comunidade, tentando convence-los que a relação com a empresa era boa e que a mesma trazia benefícios, mas a comunidade contrariou-o e referiram as várias promessas feitas pela Portucel que nunca foram cumpridas, como a construção de escola, de hospital, a  abertura de furos de água, o melhoramento de vias de acesso e que as suas vidas iam melhorar, referiram ainda que na reunião do dia 8, a Portucel mobilizou-se para intimidar a comunidade a aceitar o replantio, ameaçaram a comunidade. Os membros da comunidade afirmaram perante o Chefe do Posto e a Chefe da Localidade que não querem mais a Portucel na sua área, que vão retomar as suas terras assim que forem cortados os eucaliptos e que acabaram as negociações com a Portucel. 

O chefe do posto pediu à comunidade para deixar as empresas trabalhar, deixar a Portucel e a Mumu Madeira cortar o eucalipto e continuar a trabalhar. 

A comunidade manteve-se firme, assim que for cortado o eucalipto pretendem retomar as suas terras e já não há espaço para negociação. 

“A comunidade de Hamela decreta tolerância Zero ao Eucalipto” 

O chefe do Posto prometeu apresentar todas as preocupações à Portucel. 


Devolvam as nossas terras!!!

O breve texto que se segue, é apenas um dos muitos exemplos dos desafios que as comunidades rurais e em particular as mulheres camponesas enfrentam, a usurpação de terra às comunidades para dar lugar aos grandes projectos tem exacerbado a situação vulnerável destas mulheres, que como é sabido dependem directamente da terra. Apesar disso, terra fértil continua a ser usurpada de comunidades rurais. 

A Portucel entrou em Moçambique carregada de promessas de vida melhor, os discursos floreados ao longo do processo de terras conseguiram enganar muitas comunidades, que chegaram a acreditar que realmente iam ter um bom emprego e a sua vida e dos seus iria melhorar. No entanto, após quase 14 anos de Portucel em Moçambique, basta uma visita as comunidades afectadas para qualquer um perceber que as plantações industriais não vão jamais melhorar a condição de vida das comunidades rurais, não é possível arrancar a terra de que dependem completamente e esperar que um emprego sazonal e mal pago para meia dúzia de pessoas na comunidade tenha algum impacto visível na vida da comunidade… o único erro destas comunidades foi ter acreditado! 

Hoje, as comunidades afectadas já perceberam que nada vai melhorar, foram enganados e já não querem mais a Portucel nas suas áreas. Em Dezembro de 2024, quando a Portucel iniciou o corte dos eucaliptos, duas mulheres camponeses viram finalmente as suas terras livres de eucalipto e decidiram retomar as suas áreas. Prepararam uma pequena parcela e lançaram milho e feijão bóer. Muito rapidamente um dos agentes de ligação da Portucel, o senhor Nacope soube do sucedido e foi ameaça-las, tendo inclusive alertado os seus chefes. As duas mulheres camponesas foram interrogadas várias vezes, foram ameaçadas e proibidas de voltar à machamba onde haviam plantado milho e feijão bóer, porque segundo a Portucel a terra pertence à Portucel, que tem o DUAT. Ficou claro para ambas, que se voltarem às suas machambas serão presas e por medo não voltaram mais. Várias outras famílias, tiveram a mesma vontade, de retomar as suas áreas, pois pensaram que já que a Portucel não cumpriu com o prometido, e já cortou o seu eucalipto, então as terras serão retomadas pelos seus legítimos donos, mas todos recuaram ao saber do sucedido com as duas mulheres. Todos ficaram com medo. Mas não restam dúvidas que os membros da comunidade já não querem os eucaliptos nas suas terras, já se aperceberam que nada na sua vida vai melhorar, mas o medo de ser preso, ameaçado, torturado ou morto ainda é maior do que a revolta. 

Na nossa visita, em conversa com as duas mulheres vimos e sentimos as lágrimas que tentavam esconder, mas teimavam escorrer… 

Em várias comunidades por onde passamos, a mensagem é a mesma, queremos nossa terra de volta, a Portucel pode ir embora com os eucaliptos deles.  

A Luta Continua! 

Portucel chegou a hora de se retirarem! Adeus, até nunca mais! 

A libertação da Palestina é uma causa Africana

Declaração da Amigos da Terra África em Solidariedade com a Palestina

No dia 15 de maio, o mundo assinalará o 77º aniversário da Nakba – palavra árabe que significa “catástrofe” – que comemora a deslocação em massa de mais de 700.000 palestinianos após a criação do Estado de Israel em 1948. Apoiado pelo Plano de Partilha das Nações Unidas, Israel foi esculpido na Palestina histórica sem o consentimento da sua população indígena árabe. O plano favoreceu desproporcionadamente a minoria judaica, deixando a maioria palestiniana despojada e sem Estado. As aldeias foram eliminadas, as famílias desenraizadas e teve início uma crise de refugiados que se prolonga até aos dias de hoje. A Nakba não foi um acontecimento isolado, mas o início de uma campanha contínua de deslocação, ocupação e apartheid.

Do ponto de vista ambiental, a agressão militar de Israel também perpetrou um ecocídio generalizado – a destruição sistemática do ecossistema natural. As terras agrícolas foram dizimadas, os olivais arrasados, as fontes de água poluídas e as infra-estruturas essenciais destruídas. O bloqueio impede os palestinianos de gerirem os seus resíduos, de terem acesso a água potável e de praticarem a agricultura – violando o seu direito a um ambiente saudável. Esta devastação ambiental não é um dano colateral, faz parte de uma estratégia mais alargada que visa tanto as pessoas como os ecossistemas.

Desde a operação Tufan Al-Aqsa de 7 de outubro de 2023, a campanha sistemática de Israel de deslocação, ocupação e terror adquiriu um novo e horrível sentido de determinação. Israel lançou uma ofensiva militar implacável e desproporcionada, tornando flagrante o genocídio em curso e eliminando qualquer pretensão de contenção que ainda restasse. A escala e a brutalidade dos ataques não deixaram dúvidas quanto à intenção de Israel, pois comunidades inteiras em Gaza foram sujeitas a ataques aéreos indiscriminados, deslocações forçadas e castigos colectivos. O ataque deliberado a infra-estruturas civis – hospitais, escolas e até campos de refugiados – revela um esforço sistemático não só para esmagar qualquer forma de resistência, mas também para apagar um povo, a sua história e o seu futuro. O que antes era uma ocupação secreta foi agora exposto pelo que realmente é: uma violenta campanha de limpeza étnica.

Apesar dos protestos internacionais, os apelos ao cessar-fogo foram ignorados ou explorados. Os comboios de ajuda humanitária foram bloqueados ou atacados, as tréguas foram violadas e a destruição segue o seu rumo impunemente. Gaza enfrenta a fome, as deslocações em massa e a destruição de comunidades inteiras.

Enquanto isso, o Norte Global – especialmente os EUA, a Alemanha e o Reino Unido – continua a oferecer a Israel cobertura política, ajuda militar e imunidade diplomática. Outros, incluindo grande parte da UE e os principais organismos internacionais, permanecem em silêncio. A sua cumplicidade, activa ou passiva, permite esta catástrofe.

O Sul Global conhece a dor do colonialismo e das deslocações forçadas. Como africanos, vemos ecos das nossas próprias lutas na situação dos palestinianos – e com esse reconhecimento vem a responsabilidade. A nossa solidariedade deve ser mais forte e mais orientada para a acção.

Há muito tempo que África mantém laços históricos profundos com a Palestina. Desde as lutas anticoloniais até às experiências partilhadas de opressão, as nações africanas têm apoiado consistentemente o direito da Palestina à autodeterminação. A União Africana deve recordar esta história, honrando os laços de solidariedade entre África e a Palestina. É imperativo que a União Africana se mantenha firme no seu compromisso com a justiça, assegurando que as vozes dos oprimidos não sejam silenciadas por conveniência política ou interesses económicos.

Nos últimos anos, várias nações africanas reforçaram a sua posição de apoio aos direitos dos palestinianos. A África do Sul, moldada pela sua própria luta anti-apartheid, intentou uma acção legal contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ). Mas a liderança moral também exige responsabilidade económica. Enquanto fornecedor de carvão a Israel, a África do Sul deveria pôr um fim a essas exportações – seguindo o exemplo da Colômbia – para ajudar a cortar a linha de vida da máquina de guerra de Israel. Um embargo energético enviaria uma mensagem poderosa, cortando o apoio à agressão militar e reforçando o compromisso de África com a justiça climática e uma transição energética justa.

Outros países sem laços comerciais directos também têm um papel a desempenhar. Os boicotes económicos aos produtos israelitas são vitais. Os consumidores de todo o mundo devem pressionar as empresas cúmplices da ocupação. Rejeitar a cumplicidade económica é uma forma pacífica e poderosa de resistência, como defende o movimento global BDS.

Os recursos de África – há muito explorados pelas potências imperiais – não devem ser utilizados para sustentar a opressão. A unidade continental é essencial para reivindicar o nosso poder e construir um futuro assente na justiça.

A Amigos da Terra África está lado a lado com o povo palestiniano. Apelamos às nações, comunidades e movimentos africanos para que tomem medidas e ajudem a acabar com o genocídio perpetrado por Israel, desmantelar o apartheid e exigir justiça e dignidade para todos.

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