Category Archives: Activismo

Direitos para os povos, regras para as empresas transnacionais! – Primeiras impressões sobre o rascunho actualizado do tratado sobre empresas transnacionais e direitos humanos

Campanha Global para Reivindicar a Soberania dos Povos, Desmantelar o Poder Corporativo e Pôr Fim à Impunidade

Setembro 2023

A Campanha Global para Reivindicar a Soberania dos Povos, Desmantelar o Poder Corporativo e Pôr Fim à Impunidade (Campanha Global) é uma rede global de mais de 250 movimentos sociais, organizações da sociedade civil, sindicatos e comunidades afectadas pelas actividades das empresas transnacionais (ETNs). Tendo participado activamente nas negociações por um instrumento juridicamente vinculativo para regular as actividades das empresas transnacionais no âmbito do direito internacional dos direitos humanos, tal como mandatado pela Resolução 26/9, a Campanha Global gostaria de expressar as suas profundas preocupações relativamente ao Rascunho Actualizado do Tratado publicado em Julho de 2023 pelo Presidente do Grupo de Trabalho Intergovernamental de Composição Aberta (OEIGWG), o Embaixador da Missão Permanente da República do Equador.

É alarmante que o processo que conduziu ao rascunho actualizado tenha sido marcado por um nível inaceitável de arbitrariedade por parte do Presidente. Por exemplo, as semanas que antecederam a 8ª sessão do OEIGWG foram repletas de incoerências que levantam importantes preocupações processuais e éticas. Em primeiro lugar, o Presidente divulgou uma série de “Propostas Sugeridas pelo Presidente para artigos seleccionados do Instrumento Juridicamente Vinculativo” não solicitadas e inoportunas, completamente alheias ao processo de negociação, que depois foram impostas como um documento paralelo para as negociações. Além disso, apesar da redacção clara da Resolução 26/9, que afirma que o futuro Tratado se aplicará às empresas transnacionais e outras empresas de carácter transnacional, o Presidente procura alargar o âmbito para todos os tipos de empresas, incluindo PMEs e empresas públicas sem actividade transnacional. Em vez de facilitar as negociações sobre este assunto, o Presidente, através das suas “Directrizes para o Trabalho Intersessional“, ditou a sua própria interpretação incoerente tanto do mandato do Presidente como do processo de negociações da ONU, e arrogou-se ilegalmente os poderes de um juiz.

Embora o Presidente deva facilitar o desenrolar das negociações, mantendo a imparcialidade e baseando-se numa compreensão abrangente das propostas e manifestações das delegações – tal como estabelecido pelas estipulações da ONU sobre o “papel substantivo do presidente” – este novo texto revela que o Presidente ultrapassou consideravelmente o seu mandato. É evidente que a abordagem do Presidente se inclina mais para o julgamento do que para a facilitação, uma vez que ele escolhe as propostas em vez de consolidar as contribuições textuais apoiadas pela maioria dos Estados que têm estado activos no processo. Com este último rascunho, o Presidente faz-nos recuar pelo menos três anos nas negociações, beneficiando as empresas transnacionais e os seus aliados, em detrimento dos movimentos sociais, dos trabalhadores, dos camponeses e das comunidades afectadas.

De facto, embora o rascunho actualizado incorpore agora algumas exigências e propostas que vieram de alguns Estados e organizações da sociedade civili, uma análise inicial do texto revela que o seu conteúdo foi significativamente enfraquecido, incluindo nos artigos 6º a 9º; estes artigos constituirão, uma vez corrigida a sua redacção, pilares fundamentais do futuro Tratado. A Campanha Global efectuará uma análise técnica e jurídica aprofundada do rascunho actualizado, artigo por artigo, que será divulgada antes da 9ª sessão. No entanto, gostaríamos de destacar aqui algumas questões preocupantes e prementes relacionadas com o rascunho actualizado:

1) Várias propostas importantes de Estados empenhados foram excluídas ou enfraquecidas, mesmo tendo sido amplamente apoiadas por outros Estados e pela sociedade civilii. Ao mesmo tempo, foram mantidas propostas apresentadas por apenas um ou alguns Estados, não obstante a ausência de um apoio significativo por parte de outras delegaçõesiii.

2) Disposições fundamentais foram enfraquecidas ou inexplicavelmente suprimidas, apesar de nenhuma delegação tê-lo solicitado explicitamenteiv.

3) Propostas-chave para a elaboração de um instrumento forte e eficaz provenientes dos movimentos sociais e das comunidades afectadas foram suprimidas, enquanto as dos representantes das empresas transnacionais foram impostasv.

Tendo em conta o que foi apresentado acima, apelamos ao Presidente para que facilite as negociações na 9ª sessão em conformidade com o mandato da Resolução 26/9 do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, e com base no rascunho revisto e actualizado do Tratado com o registo das alterações (a única base legítima para as negociações), que inclui todas as propostas apresentadas pelos Estados nas duas últimas sessões. Exortamos igualmente aos Estados empenhados no processo a favor de um Tratado vinculativo a manterem-se vigilantes e a oporem-se a qualquer tipo de estratégia de desvio.

Por último, mas não menos importante, apelamos também ao Presidente para convocar uma consulta internacional inclusiva com todas as missões Estatais e assegurando também a participação de organizações da sociedade civil antes da 9ª sessão, para discutir o programa, a agenda e a metodologia para a 9ª sessão.

É tempo de transparência, de coerência, de colaboração e, acima de tudo, é tempo de justiça.

i O direito à informação, as acções colectivas, a participação nas reparações, as medidas cautelares, a lei aplicável, entre outros.

ii A maior parte das contribuições construtivas e importantes feitas pelos Estados empenhados do Sul Global não foram retidas. Para mais informações, ver a contribuição escrita da Campanha Global de Março de 2023, onde destacamos estas importantes propostas: https://www.stopcorporateimpunity.org/written-contribution-in-the-framework-of-the-inter-sessional-period/

iii Por exemplo, a palavra “obrigações” foi substituída por “responsabilidade”, tal como solicitado pelos EUA (seguido por alguns outros países). Esta proposta ignora o facto de que as empresas transnacionais já têm obrigações no âmbito da legislação em matéria de direitos humanos. Além disso, o conceito de “impacto negativo nos direitos humanos” foi integrado no artigo 1º e ao longo de todo o Tratado, apesar deste conceito ser juridicamente inadequado para este tipo de instrumento e para os seus objectivos.

iv Parágrafos essenciais foram inexplicavelmente suprimidos e/ou fortemente enfraquecidos, incluindo a proibição do recurso ao forum non conveniens nos artigos 7º e 9º, a disposição sobre sanções em caso de infracção (6.7) e sobre a influência indevida das ETNs (6.8). No artigo 7.º, outras disposições importantes sobre a inversão do ónus da prova (7.5) e a aplicação de medidas correctivas (7.6) foram também enfraquecidas pela nova redacção. Quanto ao artigo 8.º, cada disposição passa a incluir “Sem prejuízo dos princípios jurídicos do Estado…”. É importante referir que estas alterações reduzem substancialmente a capacidade do futuro instrumento de combater a impunidade das empresas e de assegurar mecanismos eficazes de responsabilidade jurídica, obstruindo assim o acesso à justiça.

v Por exemplo, o rascunho actualizado não estabelece obrigações internacionais nem mecanismos eficazes de responsabilidade jurídica para as ETNs, transformando o futuro Tratado num mero conjunto de orientações para os Estados desenvolverem a sua própria legislação em matéria de devida diligência. A partir daí, Estados poderosos próximos das ETNs argumentariam que já não há necessidade de um instrumento juridicamente vinculativo, uma vez que a lei de devida diligência seria suficiente para responsabilizar as ETNs. O rascunho actualizado nem sequer incorpora elementos do que poderia ser a base de uma legislação nacional sólida, que certamente não pode basear-se apenas nos mecanismos de diligência devida. Para consultar as principais propostas dos movimentos sociais e comunidades afectadas, aqui representadas pela Campanha Global, consulte: https://www.stopcorporateimpunity.org/frontiers-of-an-effective-binding-treaty/ e https://www.stopcorporateimpunity.org/written-contribution-in-the-framework-of-the-inter-sessional-period/

Tagged ,

“A conexão das coisas”

Nos dias que correm em que nos Atlas (Marrocos), estão a morrer diariamente muitas pessoas pelos efeitos do terramoto e na Líbia outras muitas, muitas mais pessoas morrem devido ao colapso de barragens…

Alguns dirão “morreram”, até pode ser que já não estejam a morrer os que já morreram mas os que estão subterrados (enterrados) mas à espera que alguém os possa encontrar???

Que fim de vida mais horrível esperando uma ajuda que chega tarde ou nem sequer chega.

Gostaria de poder simplificar algo tão complicado quanto (como tão) importante… mas podemos tentar, ou morrer na tentativa (já diziam os mais velhos).

Falar de barragens para milhares de pessoas que nunca viram uma é verdadeiramente complicado mas vou tentar usar alguma analogia (já estou a complicar com esta comparação) com o que todos vemos, queremos e gostaríamos de ver, as cidades.

Para todos que vivem na cidade, já viram como a água da chuva corre nas estradas, desde as zonas altas até as baixas. Na parte alta não tem muita força mas na zonas baixas já chega com mais força e traz com ela todo o tipo de “lixo” que encontra pelo caminho. Essa é a simples explicação de como a parte alta da cidade de Maputo (só um exemplo) se limpa com a chuva e tudo vai parar à baixa da cidade ou, se for bastante chuva, à baía de Maputo. Plásticos, papeis, restos de comida, trapos e até vidros são arrastados misturados com as areias e lamas.

Bem. Agora vamos aplicar isto a uma barragem.

Antes de mais nada temos que escolher o melhor sitio , por exemplo para por em uma bacia com agua, tal como a bacia de lavar a roupa lá em casa (para os que não têm tanque), é melhor colocar sobre uma mesa dura ou no chão, para não cair com o peso. Pois, as barragens precisam de uma zona com montanhas e de pedra (rocha) para colocar a tampa (muro da barragem).

Não sei quantos já viram uma barragem de perto e prestaram atenção à porta por onde sai a água, e todo aquele chão e paredes de betão (cimento com pedra e ferro) que vão até mais a frente.

Esse corredor de cimento serve para que a água, por causa da força (velocidade) que leva não cave logo a parede da barragem (a tampa). Ia ser como abrir a tampa de um bidão cheio deitado de lado na areia, aquela água sai com muita velocidade e cava a areia que está perto da boca.

Agora chega o mais interessante!!!

O que é que isto tudo tem a ver com Marrocos e Líbia???

TUDO!! E nada!

Nada, porque não estamos em nenhum desses sítios. (comecei pelo mais fácil, que preguiçoso!)

E TUDO!! porquê???

Porque temos que aprender com os erros dos outros para não fazer o mesmo.

Onde está Cahora Bassa, no rio Zambeze (já ouvi.). Mas aonde no rio Zambeze? Na zona de montanhas, ou não?!

Essa é a bacia, alguidar, tanque…o que quiserem chamar. É aquele bidão com tampa. E está nas montanhas de pedra (a mesa).

Bidão da Líbia e montanha de Marrocos!!!

Se a terra está seca, não absorve a água, a água corre na superfície com mais força e velocidade, levando a areia, plásticos, vidros, pedrinhas, carros, casas…tudo.

Se tem plantas, no sitio das raízes a água vai entrar para baixo, diminui a velocidade e a força da água.

Mas se construirmos casas na zona onde a água da chuva passava como em Belo Horizonte e Matola-Rio (são só exemplos, podia ser Líbia) quando a água baixar e não encontrar o caminho dela, vai sentar aí até ter mais agua para ter mais força para cavar outro caminho. Cortando estradas, derrubando muros e casas, levando areia e terra (mais aquele “lixo” da zona) até conseguir chegar às zonas baixas.

Outros vão estar a perguntar, e Marrocos saiu de onde?

Desculpem, quase que esquecia… lembram que Cahora Bassa está nas montanhas de pedra? Pois… pois… O Atlas é uma família de montanhas de pedra… ahammmm… como a nossa mesa onde esta o bidão de Cahora Bassa.

Se nas montanhas é onde costuma haver mais terramotos e é onde vamos por mais barragens o que pode acontecer se alguém tropeçar na perna da mesa que tem a nossa bacia de lavar cheia de água????

Vou mudar de tema…ou não…

As “Mudanças Climáticas” servem de desculpa para justificar a falta (ou excesso) de água.

Servem de justificação para novas barragens (para garantir água ou para parar as cheias).

Servem para chorar que os pobres precisam eletricidade…

Senhoras e senhores (já não devíamos ser crianças), vamos enganar a quem???

Os pobres vão continuar pobres até terem dinheiro para pagar a eletricidade e impostos… ahhhh, a continuar pobre.

As cheias e secas vão ser piores, porque a barragem ou vai soltar mais água do que a chuva para tentar não rebentar, ou vai fechar a água para ter reserva suficiente durante a seca para vender eletricidade que… se a machamba não tem água não produz para vender , logo não teremos dinheiro para pagar a eletricidade, e assim vamos continuar pobres.

Como disse não é fácil simplificar algo que ninguém quer compreender…tenho dito.

TJ

Tagged ,

Um Novo Normal em Palma?

Dois anos depois do violento ataque dos insurgentes ocorrido no dia 24 de Março de 2021 na vila sede de Palma, distrito situado a norte da Província de Cabo Delgado, a área ficou completamente isolada e todos que por lá permaneceram a querer sair por onde fosse possível e seguro. Mas fugir só podia acontecer por via aérea ou marítima, porque pela via terrestre os insurgentes e os militares ainda trocavam fogo intenso. Este cenário contribuiu para a morte de muitas pessoas que perderam a vida em naufrágios ou sem comida e água nas ilhas em que se abrigavam para descansar antes de seguir viagem. Nas matas de Pundanhar, Nangade e Namoto, jazem corpos de idosos e crianças que fugiam com seus pais e filhos em busca de zonas seguras, estas matas nunca mais serão encaradas da mesma maneira.

Por esta razão, durante cerca de 2 anos, a Vila de Palma ficou praticamente abandonada, uma vez que todas as pessoas que se encontravam naquele local procuraram por abrigo na Vila de reassentamento de Quitunda1 e seus arredores, devido ao nível de presença militar neste local. Devido à proximidade com os projectos de gás, esta zona merece especial e reforçada atenção dos militares.

Durante o ataque a Palma, infraestruturas, bens e serviços públicos e privados foram destruídos, a Vila sede de Palma testemunhou anos de trabalho serem destruídos em uma questão de horas. Alguns dias depois do ataque, a Total, principal companhia transnacional a liderar a exploração do gás, decretou Força Maior2 devido à falta de condições para permanecer no local.

Durante o tempo de vigência desta Força Maior as comunidades afectadas pelo projecto do gás têm vivido momentos terríveis. A comunidade de Quitupo, que havia ficado por reassentar, teve que viver dentro da cerca da Total durante 1 ano, com vigilância militar permanente na entrada e saída da aldeia. Os que tencionavam fugir da fome que assolava o distrito encontravam o obstáculo do forte controle militar e da penosa luta para atravessar matas e mares em busca de um local seguro. Se, por um lado, havia fome pela falta de comida, quando esta estivesse disponível nos poucos locais de comércio que resistiram, os preços eram absurdos e completamente fora das capacidades das comunidades locais. As poucas pessoas que conseguiam ter uma porção de terra segura para machamba sofriam com os constantes roubos de mandioca e outras culturas. As frequentes revistas que sofriam nos postos de controle militar atormentaram as comunidades que eram interpelados em cada deslocação sua, e como sempre, as mulheres e raparigas foram as mais lesadas de todo este momento de dor que se viveu em Palma com as frequentes agressões e violações sexuais.

As prisões arbitrárias e ameaças contínuas a jovens comerciantes intensificou-se, as perseguições aos beneficiários das compensações por perda de terras ocupadas pelo projecto de gás não pararam. As autoridades de justiça já foram informadas sobre casos de violação sexual e prisões arbitrárias, que por vezes culminam com o desaparecimento dos indivíduos presos. Pelo menos 2 casos de desaparecimento com provas concretas e testemunhas foram encaminhados para investigação, e estão pendentes desde 2020. Muitos outros existem por denunciar, mas as pessoas afectadas têm medo da polícia e dos militares, e muito pouca esperança no sistema de justiça.

É extremamente lamentável que estes casos não estejam a ser tratados com a celeridade e importância de que necessitam. Durante os últimos 2 anos, SERNIC alegou falta de meios para chegar ao distrito a fim de proceder à investigação no terreno e ouvir os acusados, visto que as vítimas e suas testemunhas já tinham sido ouvidas.

Hoje, estamos diante de um cenário diferente, a Vila de Palma tenta reerguer-se sob a constante ameaça que paira sobre si. Em Palma vive-se um novo normal, diferente do que se vive no pós-pandemia da Covid-19. Foram restabelecidos vários serviços públicos que respondem às necessidades básicas dos cidadãos, como é o caso do Centro de saúde local, serviços de educação através dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia (SDEJT) e a sua rede de escolas, administração distrital, conservatória, polícia, e outros. Muitos funcionários públicos foram persuadidos e pressionados a regressar apesar de muitos terem manifestado o desconforto em fazê-lo3. Porém, a ameaça da perda de posto de trabalho por não comparência foi uma motivação para o regresso da maioria.4

Apesar disto, os serviços fundamentais que salvaguardam o acesso à justiça continuam em falta. Instituições como o SERNIC, a Procuradoria da República e o Tribunal Judicial do Distrito não se encontram operacionais em Palma, o que continua a colocar em causa o exercício das liberdades e garantias dos direitos fundamentais do cidadão, com destaque para a violação do Direito de Acesso à Justiça, e por isso continuam expostos ao risco de prisões ilegais por parte de Policia da República de Moçambique (PRM), e outros desmandos. Até ao momento da redacção deste texto, o processo de legalização da prisão de um cidadão no distrito de Palma tem sido feito através de arranjos, em que os autos de denúncias são submetidos à Procuradoria distrital de Mueda ou de Pemba, o que inevitavelmente extravasa os prazos que a lei processual penal impõe.5 Considerando os inúmeros casos de violação de direitos humanos que foram reportados durante os últimos 2 anos em Palma, é preocupante que os casos ainda estejam pendentes até hoje e sem resolução à vista.

A vida em Palma não voltará mais a ser a mesma, devido à marca indelével deixada pela violência que houve naquele lugar. Os entes queridos que não sobreviveram jamais serão esquecidos, a dor dos que ficam permanecerá latente em seus corações. A forma como as pessoas passaram a viver, num ambiente de constante medo e desconfiança causado pelos ataques dos insurgentes e pela forte presença militar naquele local, associado a todas as incertezas e injustiças trazidas pelos projectos de gás, contribuem para que um novo normal se viva. Normaliza-se a presença de militares armados a circular pela vila, normaliza-se que projectos de gás mereçam mais protecção que os cidadãos, normalizam-se os postos de controle militar entre as aldeias, normaliza-se a possibilidade de ser confundido com um insurgente e ser preso sem direito a defender-se, porque normaliza-se que o acesso à justiça tenha sido relegado para o fim da lista dos serviços públicos indispensáveis.

E é impossível dissociar este novo normal na Vila de Palma das particularidades dos projectos de gás. Após anunciar a Força Maior em Abril de 2021, o regresso da Total ao projecto de LNG ficou condicionado à retoma de paz e segurança naquele distrito, daí que os esforços do governo e da Total têm sido em provar que a situação está de facto controlada, apesar da tão propalada retoma da paz e estabilidade no norte de Cabo Delgado ser bastante questionável.6

Como podemos normalizar Palma, sem que as questões de violações de direitos humanos estejam resolvidas?

Como podemos normalizar Palma, com processos de compensações por perda de terras ainda por fazer, e considerando ainda que a recepção destas compensações tem exposto as pessoas ao risco de investigações por suspeita de ligações ao terrorismo?

Como podemos normalizar Palma, quando as viagens ainda só são seguras diante de escoltas militares?

Como podemos normalizar Palma, quando são as forças militares estrangeiras que transmitem uma sensação de segurança aos cidadãos Moçambicanos?

Como podemos normalizar Palma, se Ibraimo Mbaruco continua desaparecido?

Normalizar Palma é normalizar a militarização e a hegemonia do capital sobre a vida humana.

1https://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2021/04/inseguran%C3%A7a-fome-e-desespero-na-vila-de-palma-e-aldeia-de-quitunda.html

2https://justica-ambiental.org/2021/04/29/a-total-foge-das-suas-responsabilidades-com-o-seu-anuncio-de-forca-maior-sobre-os-projectos-de-gas-em-mocambique/

3https://www.voaportugues.com/a/cabo-delgado-funcion%C3%A1rios-p%C3%BAblicos-dizem-que-%C3%A9-inseguro-retornar-ao-trabalho-nos-distritos-atacados-por-insurgentes-/5762006.html

4https://www.dw.com › pt-002 › cabo-delgado-não-podemos-dizer-que-há-condições-para-regresso

https://www.cartamz.com/index.php/politica/item/13286-msf-dizem-que-cabo-delgado-esta-longe-de-estar-estabilizado

5Feijo, J. (2023). Regresso das Populacoes e Reconstrucao do Nordeste de Cabo Delgado – Da Fragilizacao do Estado a Emergencia de uma Totalandia. Destaque Rural, nr.211 – OMR

6https://www.cartamz.com/index.php/politica/item/14536-nyusi-diz-que-terroristas-foram-expulsos-de-todos-os-distritos-de-cabo-delgado-mas-acled-prova-o-contrario

Tagged , , , ,

Será que precisamos de continuar a construir mais barragens, tendo em conta os seus efeitos a longo prazo nas comunidades? Lições de Kariba.

Joshua Matanzima (Universidade de Queensland)

A 17 de maio de 1960, a barragem de Kariba foi oficialmente inaugurada pela Rainha Mãe, no âmbito da sua visita real à então Federação Centro-Africana (CAF), constituída pela Niassalândia, Rodésia do Sul e Rodésia do Norte (actualmente Malawi, Zimbabué e Zâmbia, respectivamente). Situada na parte noroeste do Zimbabué, a barragem começou a ser construída em 1955 e ficou concluída em 1958. Foi projectada pelo engenheiro francês André Coyne e construída pela Impresit, uma empresa de construção italiana. A barragem foi construída com o único objetivo de produzir electricidade, para fornecer energia às indústrias em crescimento na Rodésia do Sul e às minas de Copperbelt na Rodésia do Norte, durante o período pós-Segunda Guerra Mundial. No entanto, mais tarde tornou-se um centro para muitas outras actividades sócio-económicas, incluindo a conservação, a caça, a exploração moderna, o turismo, a recreação e a pesca. Foi financiado pelo maior empréstimo que o Banco Mundial havia concedido até então (Scudder 2005). A barragem tem 128 metros de altura e 579 metros de comprimento ( conforme ilustrado na Figura 1). A barragem forma o Lago Kariba, que se estende por 280 quilómetros (170mi) e contém 185 quilómetros cúbicos (150,000,000acre⋅ft) de água.

Muro da barragem de Kariba

O muro da barragem bloqueou o fluxo natural do rio Zambeze (no desfiladeiro de Kariba) que sustentava a vida de muitos grupos de pessoas. A sua construção resultou em impactos ambientais e sociais a longo prazo, inaceitáveis, que foram extensamente estudados pelos professores Elizabeth Colson e Thayer Scudder ao longo de 60 anos (Colson 1971; Scudder 2005). No entanto, os resultados dos seus estudos baseiam-se em investigações realizadas na Zâmbia, sendo aqui discutido um resumo dos efeitos a longo prazo nos povos Tonga, Shnagwe e Korekore, do lado do Zimbabué. Mais de 57 000 pessoas, incluindo os povos de Tonga, Shangwe e Kore-kore, foram deslocados de ambas as margens do Zambeze.

Antes da construção da barragem de Kariba, as habitações das populações situavam-se nas proximidades imediatas do rio, de ambos os lados. A vida sociocultural e económica girava em torno do rio. Como ilustrado na Figura 2: a pesca, a agricultura ribeirinha e a criação de gado, constituíam a base da economia. Além disso, o rio tinha um significado religioso para os povos Tonga, Shangwe e Korekore. Tinha piscinas, corredeiras e desfiladeiros sagrados (de Victoria Falls até à confluência de Kafue) que homenageavam os seus espíritos, incluindo Nyaminyami, o deus do rio, e os antepassados (Saidi e Matanzima 2021). As pessoas tinham uma ligação mais forte com as paisagens ribeirinhas. Os lugares sagrados ao longo do rio, incluindo malende, os santuários para trazer a chuva, marcados pela presença de baobás, eram abordados com admiração e respeito e eram lugares de enterro para os chefes. As populações de ambas as margens do rio realizavam em conjunto cerimónias e rituais religiosos. O rio não era uma barreira na comunicação, pelo contrário, facilitava-a.

Mulheres Tonga a pescar com cestos no Zambeze, antes da barragem de Kariba.

Quando a barragem foi construída, houve uma separação permanente das comunidades. A população foi deslocada para dois países diferentes. Além disso, dentro de cada país, houve movimentos aleatórios de pessoas entre chefias, o que acabou por separar as pessoas (Matanzima e Saidi 2020). Desde finais da década de 1950, a maioria destas pessoas nunca mais teve oportunidade de se reunir.

Os bens culturais (casas, lugares religiosos) foram destruídos por maquinaria pesada utilizada para desobstruir estradas e inundações. Apesar do lago ter inundado os seus bens culturais, durante o período colonial, os povos Tonga e Shangwe foram impedidos de aceder à paisagem aquática por razões religiosas e económicas. Na era pós-colonial, apesar de terem conseguido um certo acesso, as indústrias do lago eram dominadas por grandes grupos étnicos, incluindo os Shona e os Ndebele. Por esta razão, as comunidades não receberam apoio adequado para se reunirem com os seus espíritos na água. A sua identidade fluvial foi excluída. Durante muito tempo, a população identificava-se com o rio, pois vivia nas suas margens, mas de um dia para o outro essa identidade foi perdida. Como resultado, passaram a ser identificados através de muitos nomes depreciativos, incluindo pessoas não civilizadas, infantis, preguiçosos e com dois dedos nos pés. A ligação ao rio que sustentava as economias, a vida social e a cultura, terminou abruptamente.

A longo prazo, a população ficou sem recursos naturais para [re]construir meios de subsistência sustentáveis, o que resultou num empobrecimento sócio-económico a longo prazo. Houve também deslocações secundárias. Em Mola, por exemplo, na década de 1960, os crescentes interesses de conservação em torno da barragem fizeram com que a população de Tonga fosse empurrada para o interior, onde entrou em conflito com os seus anfitriões por causa dos recursos naturais. Durante a Guerra de Libertação do Zimbabué, na década de 1970, foram novamente deslocados. Estas formas de deslocações secundárias agravaram o seu empobrecimento.

É essencial ter esses dados longitudinais relativamente aos efeitos das barragens por várias razões, incluindo as seguintes a) Os dados de longo prazo sobre as primeiras barragens a serem construídas nesta região, incluindo Cabora Bassa e Kariba, são essenciais porque podemos ganhar conhecimento para implementar nas nossas decisões contemporâneas de construção de barragens; b) Os dados longitudinais também podem ser usados em campanhas contra a construção de barragens, especialmente quando enfatizamos os seus impactos intergeracionais nas vidas e meios de subsistência das comunidades afectadas; c) além disso, esses dados podem informar e reforçar o trabalho de grupos da sociedade civil e de ONG’s como a “International Rivers”, a “RiverWatch” e a “EuroNatur”, cujo trabalho consiste em alcançar a justiça social e ambiental através da sensibilização para os impactos da construção de barragens; d) estamos numa melhor posição de avaliar a relevância das barragens a longo prazo e tomar decisões sobre o seu desmantelamento. O desmantelamento de barragens deve ser informado com base em informação adequada sobre as suas vantagens e desvantagens; e e) também conseguimos compreender as diferentes mudanças na governação das barragens ao longo do tempo e como isso afecta as comunidades (incluindo as comunidades deslocadas). No caso da barragem de Kariba, por exemplo, ela foi governada tanto por governos coloniais como pós-coloniais. São implementadas diferentes políticas sem ter em conta as comunidades afectadas, o que agrava a sua situação. Para além de Kariba, a validade dos dados longitudinais também foi realçada em estudos feitos por Brooke Wilmsen (Wilmsen 2016; Wilmsen e van Hulten 2017), sobre os impactos da reinstalação da barragem das Três Gargantas na China.

Os efeitos contínuos e a longo prazo das grandes barragens sobre as populações indígenas, levantam a questão controversa: será que precisamos de continuar a construir mais barragens? Nos últimos anos, temos assistido ao desmantelamento de mega-barragens, sobretudo no Norte global, por se terem tornado desnecessárias a longo prazo. Esta mudança na relevância das barragens leva-nos a [re]pensar as nossas decisões de construir barragens.

Na pressa actual de fazer a transição da utilização de combustíveis fósseis para energias limpas, para cumprir o objectivo de zero emissões líquidas (net-zero), as barragens estão a ser cada vez mais consideradas pelos governos como uma opção para a produção de energia limpa. Isto pode implicar que os governos venham a precisar de mais barragens que nunca. O que pode significar um desmantelamento mínimo das barragens. No entanto, é essencial considerar outras fontes de energia limpa, tais como os sistemas solares nos telhados, que tenham impactos mínimos nas comunidades humanas e no ambiente. As transições energéticas devem ser conseguidas através de métodos “justos” que não prejudiquem as comunidades indígenas e o meio ambiente. Devemos considerar a possibilidade de parar com a construção de barragens, especialmente quando são desnecessárias, de modo a considerar outras opções. O carácter desnecessário das barragens pode ser calculado através da análise custo-benefício e dos seus impactos sociais e ambientais globais a longo prazo. A investigação demonstrou que, na maioria dos casos, os custos de manutenção de uma barragem excedem os seus benefícios (Ansar et al. 2014; Scudder 2017, 2019).

Fontes bibliográficas:

Ansar, A., Flyvbjerg, B., Budzier, A., & Lunn, D. (2014). Should We Build More Large Dams? The Actual Costs of Hydropower Megaproject Development. Energy Policy, March 2014, 1-14. Obtido de SSRN: https://ssrn.com/abstract=2406852

Matanzima, J., & Saidi, U. (2020). Landscape, belonging and identity in Northwest Zimbabwe: A semiotic analysis. African Identities, 18(1–2), 233–251. https://doi.org/10.1080/14725843.2020.1777839

Saidi, U., & Matanzima, J. (2021). Negotiating Territoriality in North-Western Zimbabwe: Locating The Multiple-Identities of BaTonga, Shangwe, and Karanga in History. African Journal of Inter/Multidisciplinary Studies, 3(1), 61–74. doi: 10.51415/ajims.v3i1.864

Scudder, T. (2005). The future of large dams: Dealing with social, environmental institutional and political costs. Earthscan.

Scudder, T. (2017). The good megadam: Does it exist, all things considered? In B. Flyvbjerg (Ed.), The Oxford handbook of megaproject management (pp. 428–450). Oxford University Press.

Scudder, T. (2019). Large Dams: Long-term impacts on riverine communities and free-flowing rivers. Springer Nature.

Wilmsen, B. (2016). After the Deluge: A longitudinal study of resettlement at the Three Gorge Dam. World Development, 84, 41-54.

Wilmsen, B., & van Hulten, A. (2017). Following resettled people over time: The value of longitudinal data collection for understanding the livelihood impacts of the Three Gorges Dam, China. Impact Assessment and Project Appraisal, 35(1), 94-105. DOI: 10.1080/14615517.2016.1271542

Tagged

Declaração de Maputo sobre Rios e Barragens

6 de Julho de 2023

PREÂMBULO

Nós, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, comunidades de base, advogados, académicos, especialistas e outros, de várias províncias de Moçambique e também da África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia, República Democrática do Congo, Uganda, Nigéria, Camarões, Sri Lanka, Filipinas, Brasil, Cuba, França, Irlanda, Suíça e Bósnia-Herzegovina, reunimo-nos na 4a Conferência Internacional sobre Rios e Barragens em Maputo, Moçambique, a 6 de julho de 2023.

Reconhecemos o historial de décadas de lutas contra as barragens, esta declaração inspira-se na declaração de Manibeli 1992, Curitiba 1997, Rasi Salai 2003 e Temaca, 2010, e seguimos rumo ao quarto Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens, a ter lugar na Amazónia Brasileira, em 2025.

Constatamos que vivemos num sistema capitalista, imperialista, neocolonial, patriarcal e racista que é o principal inimigo dos rios e das comunidades, que coloca o lucro acima da vida e se apodera dos territórios e bens comuns. Comprometemo-nos a construir uma alternativa a este sistema de morte, violência e destruição, e a continuar a mobilização a todos os níveis para um modelo energético dos povos, em defesa da vida, da paz, da saúde, da educação, da água, da energia, da alimentação e do trabalho digno. Defendemos a solidariedade internacionalista, a mudança de sistema e o poder dos povos.

Denunciamos as violações dos direitos humanos das comunidades afectadas por barragens em todo o mundo, incluindo as injustiças do passado que ainda não foram reparadas. Reiteramos que qualquer luta em defesa dos territórios e dos direitos humanos é legítima, justa e necessária. Denunciamos especificamente a intimidação e perseguição das comunidades locais pelos proponentes do projecto da barragem de Mphanda Nkuwa, em Moçambique, por se terem manifestado e resistido a este projeto e reafirmamos a nossa solidariedade para com todas as populações afectadas.

PREOCUPAÇÕES

Observamos com preocupação que mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo já foram deslocadas devido a projectos de barragens, enquanto outros milhões perderam os seus meios de subsistência. A África, a Ásia e a América Latina são as regiões mais afectadas pelas barragens, com muitas pessoas deslocadas. Em África, por exemplo, 57.000 pessoas no Zimbabué e na Zâmbia foram deslocadas pela barragem de Kariba no final dos anos 50; 100.000 pessoas no Egipto e no Sudão pela barragem de Assuão; 80.000 pessoas no Gana pela barragem de Akosombo e milhares na República Democrática do Congo por Inga I e II. Na Ásia, por exemplo, a barragem de Sardar Sarovar, no rio Narmada, na Índia, desalojou 200.000 pessoas; a barragem das Três Gargantas, na China, desalojou 1,2 milhões de pessoas; a barragem de Kaliwa, nas Filipinas, vai inundar 28.000 hectares de floresta no domínio ancestral dos povos indígenas, e muitas outras.

Preocupa-nos o facto de que os direitos humanos das comunidades afectadas pelas barragens, em particular dos povos indígenas, são sistematicamente violados. Estas comunidades são vítimas de assédio, intimidação, encarceramento e outros abusos. As indemnizações são geralmente injustas, inadequadas e tardias, se é que acontecem.

Constatamos que, à medida que a crise climática se agrava, a indústria hidroeléctrica está a tentar relançar as grandes barragens como uma fonte de energia amiga do clima, mas nada poderia estar mais longe da verdade. As albufeiras das barragens, sobretudo nas regiões tropicais, são uma fonte globalmente significativa de metano, um potente gás com efeito de estufa. Os rios que correm livremente, por outro lado, desempenham um papel crucial na captura de carbono. As barragens são particularmente vulneráveis às cheias e secas – cuja frequência e gravidade só aumentam com as mudanças climáticas – aumentando o risco de ruptura das barragens durante as cheias e de cortes de energia quando as albufeiras secam. Além disso, as grandes albufeiras das barragens inundam florestas e terrenos agrícolas e destroem a biodiversidade e a pesca, deixando secas as zonas húmidas e as florestas a jusante. Estes impactos agravam a capacidade de adaptação às mudanças climáticas dos ecossistemas e das populações indígenas e rurais que deles dependem.

Registamos com preocupação que, agora, a indústria hidroeléctrica está de novo a tentar requalificar as barragens como verdes, promovendo a energia hidroeléctrica como uma fonte de combustível fundamental para o hidrogénio. Esta é mais uma falsa solução que acarreta enormes riscos e não foi concebida para fornecer energia às populações locais, mas sim para exportação para mercados estrangeiros.

Denunciamos as instituições financeiras internacionais, os bancos e as empresas que se dedicam ao financiamento e à construção de barragens, ignorando os impactos negativos para os povos e o planeta.

Entendemos que não só as mega-barragens, mas também as pequenas barragens e os projectos a fio de água têm impactos ambientais e sociais negativos na sociedade e nos ecossistemas. A energia hidroeléctrica é apresentada como energia limpa, mas a sua construção e utilização provocam danos permanentes no ambiente e destroem os ecossistemas dependentes dos rios.

Sentimo-nos encorajados pelo relatório da Comissão Mundial de Barragens (CMB), divulgado pelo Presidente Nelson Mandela há 23 anos, em 2000, cujas principais conclusões demonstraram que os alegados benefícios das grandes barragens são regularmente prejudicados por custos excessivos e atrasos, enquanto a maioria das barragens, em especial no Sul global, tem um desempenho insuficiente, e que os custos sociais e ambientais das barragens suportados pelas comunidades afectadas, pelas comunidades a jusante, pelos contribuintes e pelo ambiente natural têm sido “inaceitáveis e frequentemente desnecessários”.

DEMANDAS

Apelamos veementemente aos governos, às empresas, aos financiadores, aos órgãos das Nações Unidas para:

  1. Suspender a construção de todos os projectos de barragens nos nossos rios até que as orientações da Comissão Mundial de Barragens (CMB) sejam plenamente respeitadas, e desmantelar todas as barragens antigas e ineficazes, corrigindo simultaneamente as injustiças cometidas no passado por essas barragens.
  2. Acabar com o financiamento internacional e os subsídios públicos para projectos de barragens, por parte do Banco Mundial, Belt Road/Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, Banco Africano de Desenvolvimento, e outros.
  3. Abordar as injustiças históricas perpetradas contra comunidades deslocadas durante as últimas gerações, pelas barragens de Narmada, Belo Monte, Inga I e II, Kariba, e contra outras vítimas de deslocações de barragens em todo o mundo.
  4. Proteger as terras, as florestas e outros direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, incluindo os direitos costumeiros.
  5. Concentrarmo-nos no acesso à energia para quase 800 milhões de pessoas em todo o mundo, 600 milhões das quais em África. Exigimos opções de energia renovável de posse comunitária e localmente apropriadas, em vez de grandes barragens prejudiciais.
  6. Acabar com a criminalização das comunidades afectadas por barragens e das suas lutas, e com a militarização em zonas afectadas por barragens.
  7. Garantir o consentimento livre, prévio e informado (CLPI) dos povos indígenas e das comunidades afectadas, incluindo o seu direito a dizer NÃO.
  8. Aderir às directrizes da Comissão Mundial de Barragens (CMB) para a participação e consulta pública na tomada de decisões relacionadas com os rios e a água em todas as fases do planeamento.
  9. Assegurar que as barragens existentes tenham caudais ecológicos aceitáveis e que a biodiversidade, as espécies naturais e os habitats sensíveis sejam protegidos e não transformados em mercadorias, como uma verdadeira solução para enfrentar a crise climática.
  10. A rápida finalização, adopção e implementação de um tratado vinculativo da ONU que seja forte e eficaz para acabar com a impunidade das empresas transnacionais, que seja relevante e apropriado para responder às lutas das comunidades camponesas, dos pescadores e das pessoas afectadas pelo extractivismo no Sul global.
  11. Acabar com a exportação dos recursos de África e do Sul global, incluindo o hidrogénio, para benefício de outros.

RIOS PARA A VIDA, NÃO PARA A MORTE!

ADOPTADO PELOS INDIVIDUOS, COLECTIVOS E ORGANIZAÇÕES PRESENTES NA 4a CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE RIOS E BARRAGENS, 06 DE JULHO DE 2023:

Organisações e colectivos

  1. Action pour les Droits, l’Environnement et la Vie ADEV (República Democrática do Congo)
  2. Alternactiva – Acção pela Emancipação Social (Moçambique)
  3. Basilwisi Trust (Zimbabwe)
  4. BioVision Africa (Uganda)
  5. Centre Congolais pour le Développement Durable CODED (República Democrática do Congo)
  6. Center for Environment (Bosnia e Herzegovina)
  7. Centre for Applied Legal Studies CALS (África do Sul)
  8. Centre pour la Justice Environnementale (Togo)
  9. Centro de Educación y Promoción de Desarrollo Sostenible CEPRODESO (Cuba)
  10. Centro Memorial Martin Luther King Jr. CMLK (Cuba)
  11. Coalition pour la Réforme et le Suivi de l’Action CORAP (República Democrática do Congo)
  12. FishNet Alliance (África)
  13. Friends of Lake Turkana (Kenya)
  14. Friends of the Earth Africa (África)
  15. GroundWork (África do Sul)
  16. Grupo de Jovens Activistas de Moatize GJAM (Moçambique)
  17. Health of Mother Earth Foundation HOMEF (Nigéria / África)
  18. Justiça Ambiental JA! (Moçambique)
  19. Legal Right and Natural Resources Center LRC (Filipinas)
  20. Missão Tabita (Moçambique)
  21. Movimento de Atingidos por Barragens MAB (Brasil)
  22. Movimiento de Afectados por Represas MAR (América Latina)
  23. Mulher, Género e Desenvolvimento MuGeDe (Moçambique)
  24. Observatório das Mulheres (Moçambique)
  25. Pro Natura / Friends of the Earth Switzerland (Suíça)
  26. Right to Say No Campaign (África do Sul)
  27. Solidarité des Femmes sur le Fleuve Congo SOFLECO (República Democrática do Congo)
  28. South African Waste Pickers Association SAWPA (África do Sul)
  29. South Durban Community Environmental Alliance SDCEA (África do Sul)
  30. Campanha da África Austral para Desmantelar o Poder Corporativo (África Austral)
  31. Vaal Environmental Justice Alliance VEJA (África do Sul)
  32. Women of Change (Lephalale, África do Sul)
  33. WoMin African Alliance (Rede Pan-africana)

Indivíduos

  1. Alexandre Morais (Moçambique)
  2. Alex Chipissani (Moçambique)
  3. Allan Basajjasubi (Jurista – África do Sul)
  4. António Morais (Moçambique)
  5. António Vicente Sede (Moçambique)
  6. Aparício de Nascimento (Moçambique)
  7. Ana Brígida Novela (Moçambique)
  8. Anabela Lemos (Moçambique) 
  9. Apollin Koagne Zouapet (Advogado de Direitos Humanos – Camarões)
  10. Bertrand Sansonnens (Suíça)
  11. Carlos Mhula (Moçambique)
  12. Celso dos Anjos Pereira Dias (Moçambique)
  13. Charles Artur (Moçambique)
  14. Ching Maganiso (Moçambique)
  15. Christopher Mweembe (Zimbabwe)
  16. Daniel Américo (Moçambique)
  17. Daniel Ribeiro (Moçambique)
  18. David Sthuntsha Mokoena (África do Sul)
  19. Desmond D’SA (África do Sul)
  20. Dipti Bhatnagar (Moçambique)
  21. Eliana N’Zualo (Moçambique)
  22. Erika Mendes (Moçambique)
  23. Farelo dos Reis (Moçambique)
  24. Fátima Lenade (Moçambique)
  25. Fazbem Artur (Moçambique)
  26. Félix Manuel (Moçambique)
  27. Janete Eusébio Cantiga (Moçambique)
  28. Jorge Josefa (Moçambique)
  29. Juan Francisco Santos Estévez (Cuba)
  30. Latifo Patreque (Moçambique)
  31. Lenine Francisco (Moçambique)
  32. Lídia Zacarias (Moçambique)
  33. Lourenço Cesário (Moçambique)
  34. Lucas Atanásio Catsossa (Moçambique)
  35. Lucy Pitse Duba (África do Sul)
  36. Mahomed Shahid Jusob (Moçambique)
  37. Mai Taqueban (Filipinas)
  38. Mantwa Mokoena (África do Sul)
  39. Manuel Passar Luciano (Moçambique)
  40. Moisés Cuambe (Advogado, Moçambique)
  41. Neli Vicente (Moçambique)
  42. Nino Cesário (Moçambique)
  43. Patrick Martin Bond (Centro para Mudança Social, Universidade de Johannesburg, África do Sul)
  44. Paulo Afonso (Moçambique)
  45. Rachida Quirino (Moçambique)
  46. Ruth Jossefe (Moçambique)
  47. Rodrigues Bicicleta (Moçambique)
  48. Salima António Canhoca (Moçambique)
  49. Samuel Gabriel Mondlane (Moçambique)
  50. Saquina Mucavele (Moçambique)
  51. Saúde Almeida (Moçambique)
  52. Saúde Tiago (Moçambique)
  53. Simson Mwale (Zâmbia)
  54. Soniamara Maranho (Brasil)
  55. Stiven Azevedo (Moçambique)
  56. Sven Peek (África do Sul)
  57. Terezinha da Silva (Activista social, Moçambique)
  58. Timóteo Bento (Moçambique)
Tagged

COMUNICADO DE IMPRENSA

PROCESSODE REVISÃO DA LEI DE TERRAS

Organizações da SociedadeCivil alertam para urgente necessidade de revisão da calendarização e metodologia para oprocesso de revisão da Lei de Terras e respectiva consulta pública

No âmbito do processo de revisão da Política Nacional de Terras, as organizações da sociedade civil demonstraram total abertura e interesse em participar e contribuir para um processo de discussão aberto, inclusivo, informado e transparente. No entanto, apesar da contestação das OSC sobre a limitações a efectiva participação das OSC, e em particular sobre a preocupação expressa sobre a qualidade e metodologia do diagnóstico que guiaram o processo de revisão da Política de 1995, o governo de Moçambique através da Comissão de Revisão da Política Nacional de Terras (CRPNT) avançou com o processo, que culminou com a aprovação da Política de Terras e sua Estratégia de Implementação (PTEI) em Novembro do ano passado através da Resolução n.º 45/2022, de 28 de Novembro.

Neste momento, segue o processo de revisão da Lei n.ᵒ 19/97 de 1 de Outubro, Lei de Terras, e nesse âmbito a Direcção Nacional de Terras e Desenvolvimento Territorial (DNDT) organizou I Sessão Extraordinária do Grupo de Reflexão do Fórum de Consulta sobre Terras (GRFCT), no passado dia 10 de Maio de 2023, onde partilhou as versões revistas da (1) Metodologia do processo de Revisão da Lei de Terras; (2) Metodologia do Processo de Consulta Pública do Anteprojecto da Lei de Terras; (3) Cronograma do Processo de Revisão da Lei de Terras. Subsequentemente, foi partilhado o draft 0 da proposta do Anteprojecto da Lei de Terras e apresentado na II Sessão Ordinária do GRFCT, no dia 15 de Junho de 2023.

Em ambas sessões diferentes OSCs questionaram a metodologia e a calendarização do processo de revisão da Lei. Os documentos indicam que o processo de revisão da Lei de Terras estaria a decorrer de Março de 2023 a Novembro de 2023, incluindo o processo de finalização do Draft 0, disponibilização do mesmo, consulta pública, processo de revisão do Draft 0 e Draft 1 e elaboração do Draft 2 e documentos finais. Esperando-se submeter o Ante-projecto ao Conselho de Ministros entre 06 e 10 de Novembro. Deste modo, questiona-se a capacidade de efectivamente realizar com devido zelo e qualidade todas as etapas envolvidas neste processo, sendo que a revisão do Draft 0, 1 e 2 será conduzida e finalizada dentro de um período de cinco meses intercalados de uma consulta pública a nível nacional. Dito isto, questiona-se como se irá garantir que a incorporação das contribuições seja acautelada e se haverá espaço para debate público especificamente sobre questões de discórdia ou divergência entre diferentes actores ou segmentos da sociedade.

Adicionalmente, e à similaridade do processo de consulta pública no âmbito da revisão da Política, nota-se a alocação de um período curto para gerir e administrar este processo de forma participativa e eficaz, tendo em conta a sua escala, abrangência e relevância. Foram alocados aproximadamente dois meses para o processo de consulta pública a nível nacional, e em paralelo decorrerão a incorporação das contribuições e também os debates temáticos e mesas redondas. Este tempo pode ser considerado insuficiente para consultas que envolvem o nível distrital e comunitário, e que pretendem efectivamente promover o debate público estruturado e alcançar conclusões consensuais. É neste contexto que a sociedade civil expressa profunda preocupação em relação a calendarização do processo como um todo e das diferentes etapas da metodologia de revisão da Lei de Terras.

Um processo de participação pública que se pretende amplo, aberto e inclusivo deve assegurar tempo adequado para a preparação social e maior inclusão das comunidades locais e dos demais sectores da sociedade, para a produção de documentos com qualidade, para permitir a sua compreensão e análise, deve ainda assegurar recursos financeiros e humanos para levar a cabo esta enorme e tão importante tarefa. Pelos documentos partilhados estas questões não parecem estar devidamente acauteladas.

Reiteramos que a partilha do Draft 0, sem os seus respectivos anexos e com excessivas remissões a outros documentos complementares, levantou preocupações e não permite uma análise e conclusões fidedignas.

Pelo acima exposto, o colectivo de OCS solicita:

1. A reformulação da calendarização e da metodologia para o processo de revisão da Lei de Terras e respectiva consulta pública, garantindo tempo suficiente para um debate e participação pública baseados na interacção e retroalimentação, de modo a assegurar a sua legitimidade e validade.

2. A disponibilização atempada e adequada ao público do respectivo calendário, incluindo actividades detalhadas do processo de consulta, datas de partilha do diagnóstico, data de partilha do primeiro Draft da Lei, e todos os passos subsequentes até a submissão da proposta final.

3. Discussão conjunta de uma estratégia de comunicação que permita a participação efectiva da Sociedade Civil e Comunidades no processo de revisão, na base do diálogo contínuo, consenso e retroalimentação.

4. Partilha de informação atempada e completa de modo a permitir que haja tempo suficiente para a respectiva socialização e análise.

Em Moçambique, a terra é um meio universal de criação de riqueza e de bem-estar social, o uso e aproveitamento desta é direito de todo o povo moçambicano, daí a importância de levar a cabo um processo que envolva todos os sectores da sociedade, assegurando uma Lei de Terras que proteja os interesses e aspirações do povo moçambicano.

Tagged , ,

EDF, TotalEnergies e Mphanda Nkuwa: quão estratégica é, realmente, esta parceria? E para quem?

Num momento em que se torna cada vez mais evidente e assustador o poder e a influência que a TotalEnergies tem no nosso país – a ponto de interferir nas decisões que deveríamos tomar de forma soberana, ligadas à segurança e defesa do Estado – pouco nos surpreendeu a notícia que o consórcio da EDF, TotalEnergies, Sumitomo Corporation e Kansai havia sido seleccionado como parceiro estratégico para o projecto da megabarragem de Mphanda Nkuwa.

Embora expectável, esta notícia deveria nos preocupar e indignar. Afinal, este consórcio que o Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa (GMNK) nos apresenta como robusto e experiente, é composto por uma série de empresas transnacionais cuja conduta em termos do respeito aos Direitos Humanos e preservação do meio ambiente é altamente reprovável, e isto deveria servir de alerta vermelho.

Quem é quem no consórcio Franco-Japonês

A maior companhia de energia da França, a EDF, cujo sócio maioritário é o Estado Francês, além de deter uma série de projectos de energia nuclear, esteve à frente de um projecto de construção de parques eólicos na região de Oaxaca, no México. A EDF e seus parceiros locais violaram o estabelecido pela lei Mexicana, que exige que qualquer decisão relativa ao uso da terra naquela região ocupada por povos indígenas deve ser tomada por meio de uma assembleia comunitária. Muito pelo contrário: contratos avultados foram celebrados e concluídos entre a empresa Eólica de Oaxaca (subsidiária da EDF) com indivíduos da comunidade, que agiram como se fossem proprietários privados da terra. Contratos de fornecimento de energia e um memorando de entendimento com o governo do Estado de Oaxaca para a construção do parque eólico de Gunaa Sicarú foram celebrados sem qualquer consulta prévia e adequada com os membros da comunidade local de Unión Hidalgo. Quando a comunidade começou a contestar a legalidade do projecto do parque eólico utilizando procedimentos legais domésticos, argumentando com base no seu direito ao consentimento livre, prévio e informado, começaram a sofrer crescentes ataques e foram alvo de violência e ameaças devido à sua oposição ao projecto da EDF. Após 5 longos anos de luta em defesa dos seus direitos à terra, ao território e aos recursos naturais, por parte da comunidade Zapotec de Unión Hidalgo, em conjunto com a organização Mexicana ProDESC, a Comisión Federal de Electricidad do México cancelou definitivamente os contratos com a EDF.

Sobre a Total, agora renomeada TotalEnergies, infelizmente os casos em que esta transnacional Francesa está envolvida em violações de Direitos Humanos e na destruição do ambiente abundam. Os inúmeros casos legais existentes actualmente contra a companhia elucidam este cenário. Os casos vão desde permitir que a sua central de gás seja usada como uma prisão no Iémen, onde decorrem graves violações de Direitos Humanos e há acusações de tortura; até impactar mais de 100.000 pessoas com o seu projecto EACOP no Uganda, com depoimentos de inúmeros casos de intimidações e repressão associados ao projecto, perda de meios de subsistência e incumprimento das suas obrigações de compensação às famílias Ugandesas que perderam as suas terras. Os impactos da TotalEnergies em Cabo Delgado já são melhor conhecidos no nosso país, e a Justiça Ambiental e outros pesquisadores e organizações têm vindo a publicar inúmeros relatórios sobre o assunto, seja a respeito da sua criminosa contribuição para a crise climática, as violações dos Direitos Humanos das comunidades locais, a destruição dos ecossistemas e meio ambiente e as suas ligações com a violenta insurgência. Quando estas flagrantes violações são denunciadas, a TotalEnergies foge às suas responsabilidades, ora afirmando que os problemas relacionados com o processo de reassentamento são de responsabilidade da empresa anterior Anadarko, ora utilizando-se de especialistas internacionais para remeter a responsabilidade pelo conflito em Cabo Delgado inteiramente ao governo de Moçambique.

As empresas Japonesas – Sumitomo Corporation e Kansai – também tem uma imagem bastante manchada, principalmente em questões ambientais e laborais. A Sumitomo Corporation, em particular, é acusada de “repetidas violações de Direitos Humanos” e de violar as suas próprias políticas internas no seu escritório em Miami. O sindicato de trabalhadores acusa a empresa de ameaças, retaliações e outras formas de intimidação a vários dos seus membros a respeito dos seus esforços de organização sindical.

Algo que todas estas empresas têm em comum? O seu comportamento destrutivo e inconsequente perante o planeta, o clima e as pessoas directamente afectadas pelas suas actividades, e o seu compromisso com o lucro a qualquer custo.

O sinuoso caminho que já conhecemos

A proposta barragem de Mphanda Nkuwa, no Rio Zambeze, é talvez o projecto de mega-barragem mais controverso do continente Africano, e certamente aquele que enfrenta resistência local, nacional e internacional há mais tempo. Já são mais de 22 anos em que organizações da sociedade civil, especialistas, cientistas e académicos, têm alertado o governo a respeito dos riscos deste projecto e seus prováveis impactos, e inúmeros estudos denunciam os impactos já provocados antes mesmo da primeira pedra ter sido lançada. Com alguma maquilhagem nos anos recentes, o projecto continua a permanecer em silêncio a respeito de questões fundamentais que já foram colocadas pela Justiça Ambiental e vários outros actores, como por exemplo:

– Por que razão se tem excluído as populações locais do processo de tomada de decisão a respeito deste projecto, e estas só começam a ser visitadas 4 anos depois da criação do GMNK?

– Onde e em que condições se pretende reassentar as populações locais, tendo em conta os graves níveis de conflito de terra já existentes no Distrito de Marara?

– Por que razão não são partilhados os Termos de Referência dos estudos que estão a ser desenvolvidos, e por que razão o GMNK evade-se do devido escrutínio público, ao mesmo tempo em que afirma seguir as melhores práticas e procedimentos internacionais?

– Que outras alternativas energéticas de menor impacto foram equacionadas, e por que razão não é feito um debate público a este respeito?

– Por que razão os membros das comunidades locais, líderes tradicionais, e organizações da sociedade civil que levantam questões a respeito deste projecto têm sido intimidados, reprimidos e até chamados de terroristas?

O que esperamos então de um projecto já com claras indicações de ser ambientalmente destrutivo, socialmente injusto e exacerbador de tensões sociais, quando este é posto nas mãos de empresas transnacionais de poder económico superior ao do nosso Estado, e que insistentemente fogem da responsabilidade sempre que as suas actividades contribuem para a violação de Direitos Humanos e a destruição do meio ambiente?

E porque não nos podemos dar ao luxo de mais megaprojectos falhados no nosso país, a Justiça Ambiental permanece comprometida em travar este projecto até que estas e outras questões sejam devidamente respondidas, em contribuir para a elaboração de estudos e análises que iluminem o lado obscuro deste projecto, e em trabalhar com comunidades locais e parceiros nacionais e internacionais para que seja salvaguardado o direito dos povos à auto-determinação e ao desenvolvimento sustentável e inclusivo. Até que estejam devida e adequadamente comprovados os benefícios deste megaprojecto para o povo e para Moçambique, reiteramos: Mphanda Nkuwa NÃO.

Este artigo foi originalmente publicada no Jornal Savana de 09 de Junho de 2023.

Tagged , , ,

Inauguração Casa de Sementes da Associacao de Naturais, Residentes e Amigos da Namaacha

Teve lugar no passado dia 15 de Junho a cerimónia de inauguração da Casa de Sementes da Associação ANRAN, um projecto em parceria com a Justiça Ambiental. A cerimónia contou com a participação de vários membros da associação, da direitora e técnicos da Justiça Ambiental e representantes das estruturas do governo local. O Sr. Rafael Langa, presidente da ANRAN e a Sra. Anabela Lemos Directora da JA! procederam ao corte da fita e inauguração num ambiente de festa, lembrando aos presentes que a inauguração da casa de sementes é apenas o primeiro passo, que há ainda muito trabalho pela frente.

Logo de seguida, Anabela Lemos, plantou uma muda de litchi produzida pela própria associação.

A inauguração da Casa de Sementes representa o início de um longo processo de resgate dos sistemas tradicionais de gestão de sementes nativas, que se pretende seja activamente promovido pelos próprios camponeses da Namaacha.

Os sistemas tradicionais de gestão de sementes contribuem para o alcance da soberania alimentar, reduzem substancialmente os custos de produção, asseguram a diversidade biológica e garantem que as sementes que vão sendo escolhidas e reproduzidas são as melhor adaptadas às condições locais. Os sistemas tradicionais de gestão de sementes constituem uma das formas de preservar a cultura alimentar de um povo, e perante a actual crise climática global é uma das alternativas mais viáveis de produção alimentar diversa e com qualidade. No entanto, em Moçambique muito deste rico conhecimento tem sido abandonado ao longo dos anos, seguindo uma falsa narrativa de que as sementes produzidas e tratadas de forma industrial é que produzem mais e melhor, uma narrativa largamente promovida pelas grandes corporações que controlam o mercado global de sementes, e facilitada pelos governos ofuscados pela ideia do lucro. As famílias camponesas tem sido aliciadas a aderir a estas novas variedades e tecnologias, com constantes “ofertas” de modo a criar assim a dependência pelas sementes compradas, que pouco depois requer ainda a adição de fertilizantes e herbicidas, que é muito convenientemente produzido e distribuido pelas mesmas corporações, e assim aos poucos, ano após ano, o camponês perde a sua independência e esquece que já houve o tempo em que as sementes não eram vendidas em pacotes selados e carregadas de quimicos, eram trocadas, cedidas e passadas de geração em geração.

A luta continua!

Camponeses de Namale acusam Proma Comercial de ameaça e intimidação

Camponeses/as da comunidade de Namale, distrito de Ribaue, na província de Nampula,
 acusam a empresa Proma comercial de usurpação de ameaças e intimidação aos membros
da comunidade que reclamam sobre as suas terras injusta e ilegalmente usurpadas aos
mesmos.
O conflito entre os membros da comunidade e a empresa arrasta-se desde Outubro de 2021,
quando o líder comunitário convocou uma reunião na comunidade, onde a comunidade foi
informada que a empresa Proma comercial adquiriu parcelas de terra naquela comunidade
junto ao governo do distrito. Os membros da comunidade contam que a estratégia usada
pelo líder comunitário foi de convidar a participar no encontro pessoas alheias à
comunidade para aprovar a entrada da empresa e assinar os documentos.
No início, a area adquirida afectava directamente 40 famílias, hoje o número de famílias
afectadas subiu para 89, e algumas destas familias apresentaram inclusive titulos de DUAT
das suas terras, e dizem que estes foram rejeitados pelo governo do distrito e pela empresa,
alegando tinham expirado. Importa salientar que os membros da comunidade tem o direito
de uso e aproveitamento de terra de acordo com a Lei costumeira, e por lei não tem que ter
o titulo de DUAT.
O registo de culturas, árvores e bens de cada familia afectada só teve início depois da
empresa destruir várias machambas, que levou à indignaçao e contestação dos afectados,
que por sua vez recusaram-se a receber os valores de compensaçao definidos
unilateralmente pela empresa. A recusa não foi bem recebida, os que recusaram foram
ameaçados, que se não recebessem os valores perdiam tudo, a terra e culturas que já
perderam e o dinheiro. Estas situações ocorreram na presença e sob o avale de
representantes do governo local.
Mais recentemente, a Proma comercial colocou arame farpado em redor da área em disputa
para impedir os camponeses de passar pela mesma. A empresa trouxe para a àrea gado
bovino que tem invadido e destruido machambas e culturas dos camponeses, e quando os
mesmos reclamam junto à empresa, estes ameaçam-nos de espancamento e até mesmo
prisão.

A Justiça Ambiental está desde 2022 a seguir o caso, em apoio aos afectados e intercedendo
a favor destes junto do governo do distrito para a resolução rápida e justa deste conflito. O governo do distrito esta a par do assunto, e segundo os mesmos estão a envidar esforços em
busca de àreas livres para distribuir aos camponeses que perderam as suas terras neste
conflito. No entanto, contrariamente ao discurso de sempre que leva crer que Moçambique
tem vastas áreas de terra livre, desde entao ainda não foram encontradas areas livres para
estas 89 familias e não há qualquer indicação de quando terão novas machambas… este
caso é similar a muitos outros por todo o país, e levantam sempre inumeras questões. Por

exemplo, o que leva o governo a ceder a uma empresa uma àrea ocupada pela comunidade?
Mais grave ainda, o que o leva o governo a ceder uma àrea ocupada pela comunidade
sabendo que não tem àreas livres para compensar os mesmos? E porque não atribuir uma
àrea livre à empresa em vez de atribuir àreas já ocupadas? Que solução prevê o governo
para este conflito? Se os afectados tivessem ficado calados quando foram ameaçados, o
conflito já estaria resolvido, a empresa estaria a expandir e os afectados sairiam sem nada
em busca de novas áreas, seria essa a solução do nosso governo?
Temos reportado várias situações e casos de conflito de terra, que como este arrastam-se ao
longo dos anos. Arrastam-se enquanto inúmeras famílias camponesas esperam no desespero
uma solução o mais urgente possível, pois é desta terra que dependem directamente estas
famílias.

Tagged , , ,

Basta de impunidade para os crimes, a violência e a negligência da Mozambique Holdings!

É preocupante quando, na mesma semana, chegam-nos dois relatos distintos de camponesas afectadas pela Mozambique Holdings, que se cansaram de ser desrespeitadas e humilhadas e tiveram de recorrer à violência para se fazerem respeitar! Violência não é a solução, nem tão pouco promovemos ou defendemos actos de violência! No entanto, já ouvimos demasiados relatos de situações humilhantes e até actos criminosos, já por nós anteriormente relatados e denunciados… por tudo o que já vimos e ouvimos percebemos o que levou esta camponesa a dizer basta! Segundo membros da comunidade, a camponesa a caminho da sua machamba usou um corta mato, que atravessa a plantação, e no caminho foi vista por funcionários da Mozambique Holdings que passavam de carro. O chefe decidiu então colocar-se à saída do corta mato e ordenar que a camponesa voltasse atrás e usasse o outro caminho, bem mais longo! A camponesa explicou que a sua machamba estava próxima dali, que não tinha catana e não estava a estragar as plantas da empresa, mas ainda assim o chefe estava reluctante em deixá-la passar e insistia que ela não iria passar ali, teria de voltar atrás. A camponesa recusou-se a voltar atrás, e depois de uma breve discussao e ao que consta esta exaltou-se e bateu-lhe e seguiu o seu caminho, para sua machamba.Não houve até ao momento qualquer queixa sobre este incidente e a vida continua!

Este incidente é claramente resultado de várias situações que teem desgastado vários membros destas comunidades, o estabelecimento da plantação trouxe inúmeros impactos negativos para a vida destas comunidades, uma vida já bastante dificil. Perderam machambas, perderam acesso a caminhos que sempre utilizaram, o abate de árvores em redor das comunidades para dar espaço à plantação levou a um agravamento dos impactos das tempestades e chuvas já tipicas da zona mas que agora se mostram mais fortes e destrutivas pois já não tem a barreira da vegetação natural que foi desbravada. A cada ano mais e mais casas são destruidas pela força do vento e das chuvas, o desmatamento aumentou pois foi necessário abrir novas machambas, o capim para cobertura das casas encontra-se cada vez mais longe e portanto muito mais caro… e quais são os beneficios? Convidamos qualquer curioso a deslocar-se ao local e procurar os beneficios que a Mozambique Holdings trouxe a estas comunidades, mas venham com tempo pois vão procurar bastante e não vão encontrar nada mais do que alguns poucos membros das comunidades que conseguiram um emprego miseravelmente mal pago… aproveitem e conversem um pouco com estes também, e vão rapidamente perceber que só se mantem a trabalhar por não ter qualquer outra opção de emprego. Isto não é desenvolvimento!

Já podemos prever que virão pessoas criticar a atitude desta e outras camponesas, falando da necessidade de resolver os problemas através do diálogo e das instituições relevantes. Mas é esta a violência que mais nos aflige, mesmo? Por que ficamos calados quando a violência é estrutural, e afecta a capacidade de subsistência e sobrevivência de famílias que são excluídas dos processos de tomada de decisão e para as quais o sistema de justiça não funciona? Como podemos permitir que o governo a nível local e central, com tantas evidências e denúncias da violência perpetrada por funcionários da Mozambique Holdings (inclusive física, conforme reportamos aqui), não tome medidas urgentes para punir e expulsar estas empresas?

Por conhecermos esta realidade, entendemos e solidarizamo-nos com a camponesa, na esperança que incidentes de violência não se repitam e que seja possível resolver os inúmeros conflitos na base do diálogo e do respeito pelos direitos destas comunidades e no cumprimento da lei!

A luta continua!

Tagged , , ,