Category Archives: Justica

O estado do nosso Estado

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Quando éramos jovens, queríamos crescer para poder ajudar o nosso País como professores,médicos, bombeiros, polícias, advogados… todos queríamos ser HERÓIS!

Hoje, felizmente podemos dizer que o nosso País é independente, democrático… mas estamos mais tristes e mais pobres porque a liberdade também corrompeu o nosso tecido social.Os jovens já não querem ser trabalhadores, nem sequer ser honestos… Não!!Tristemente temos que ser realistas e olhar ao nosso redor com olhos de ver.

A maioria dos que vão para Professores, ou é por obrigação ou é para procurar uma maneira de ganhar “mola”, seja dando “aulas de apoio/recuperação”/explicações ou “ajudando a passar” em troca de um “refresco”… mas, não acaba aqui…

Há algum tempo atrás, um Sr. Professor (as letras maiúsculas são devidas ao respeito a alguns bons profissionais que ainda existem), mas cujo nome vamos deixar de lado, em uma Escola Primária Completa da Província de Inhambane, em pleno curso escolar, decidiu fazer mais, muito mais!

Queria ser mais esperto e mais valente. Queria voltar para casa, depois de uns dias sem ir ao trabalho (talvez com “baixa médica”), com “mola ”, muita mola!                                    Na verdade o “professor” e um amigo embarcaram numa verdadeira aventura ou talvez muito mais que isso, pois transformou-se numa autêntica desventura.

Depois de ter estado em Corumana em Dezembro de 2018 e ter conhecido uns quantos “chefes”que lhe prometeram bom dinheiro, eles simplesmente só tinham que cruzar até a África do Sul, clandestinamente, e abater um ou mais rinocerontes, extrair os cornos com um machado, regressar e entregar o produto ao “chefe”.

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Para isso se concretizar, receberam ajuda para planificar, organizar mochilas com víveres e água e encontrar um terceiro companheiro que seria o guia. Receberam também para fazer o serviço uma arma de caça de grande calibre.

No início da noite puseram-se a caminho, cruzando a fronteira internacional com a ajuda involuntária da Lua. Estiveram vários dias no interior do Parque Nacional do Kruger, procurando os famosos rinocerontes mas sem sucesso. Decidiram, por falta de víveres e por cansaço, voltar. Infelizmente ou felizmente de mãos vazias.

Quando já se encontravam em território moçambicano foram interpelados e detidos. O “professor”e o seu amigo (o “disparador”), tendo escapado o guia.                     Moçambique, que mais se parece a um paraíso, tornou-se num País, onde muitos não encontram trabalho dedicando-se à agricultura de subsistência…ou aliás da sobrevivência!

Onde antes respeitavam as Leis, hoje os heróis são os que tem carro, televisão, compram cervejapara os amigos… os que matam um rinoceronte ou um elefante, que pertence a todos nós moçambicanos ou sul-africanos, por dinheiro sujo.

No nosso “novo” Estado… os jovens já não querem ser profissionais honestos, isso não dá “mola”. Agora querem ser “espertos” e ganhar dinheiro “fácil” dedicando-se às “boladas”.

O que não sabem é que cada vez há mais viúvas, órfãos e… “neo”escravidão (escravos, sim!).

São muitos os que entram em áreas de conservação, “protegidos” por um lenço branco tratado pelocurandeiro de serviço, que lhes cobra um bom dinheiro.                                Mas vários não voltam. Alguns acabam pisados por algum elefante mal-humorado, comido por algum leão esfomeado, detidos, feridos ou abatidos pelas forças de proteção ou simplesmente assassinados pelos seus próprios colegas de ofício que querem ganhar mais. Isto sem mencionar os que, por alguma razão, perderam a arma do “chefe”. Esses chegam a perder as suas terras e a ter que “trabalhar” de graça para o tal chefe, até pagar a dívida, isto significa entrar e caçar sem receber nada. Aqui também podemos incluir os que são libertados baixo caução (em Moçambique todos os crimes são caucionáveis, dizem) de 50.000,00Mtn, na maioria pago pelos chefes que depois vão cobrar com juros, fazendo-os caçar de graça.

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O “professor” e o seu amigo “disparador” estão hoje livres. Alguém pagou a caução que lhes foi imposta, e aceite pelo Ministério Público. Alguém pagou o advogado que os defendeu. Agora, talvez o mais importante, é saber se esse advogado é de ofício, isso significa que cada um(a) de nós, trabalhador(a) honesto(a), contribuinte para as arcas do Estado de Moçambique através da Agência Tributária e do Instituto Nacional de Segurança Social, ajudou para a sua defesa.

A contradição vem do facto de ajudarmos na defesa destes “professores” e amigos e ao mesmo tempo ajudamos, direta ou indiretamente, com os nossos impostos, para pagar os salários dos agentes que protegem esses animais, que pertencem a todos nós.   Agentes esses que protegem os animais e as populações vizinhas das áreas de conservação que atraem turistas, que pagam taxas e impostos e deixam dinheiro em Moçambique.

Na realidade, nós Moçambicanos e Moçambicanas, nós todos e cada um(a) somos O ESTADO!

Se o nosso Estado está “bolado” como parece, e nós somos o Estado, isso faz de nós, todos e cadaum de nós, uns pobres e miseráveis “BOLADOS”.

Por alguém que se recusa a ser um “Bolado” e continua a acreditar em heróis de verdade.

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Por que deve África encabeçar a luta contra o poder corporativo?

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Após um brutal colonialismo que perdurou por dezenas de séculos, temos visto, nas últimas décadas, África ser palco de uma intensa usurpação de terras e recursos, levada a cabo por meio de uma aliança letal entre as grandes corporações transnacionais e as elites políticas do continente.

Devido ao seu poder económico – ancorado no poder político dos governos, elites e instituições financeiras do Norte global – as corporações transnacionais têm sido capazes de formatar os mercados, os governos, as comunicações e a legislação de acordo com os seus interesses. Estas corporações são já mais poderosas que muitos Estados, aliás, das 100 maiores economias do planeta, 69 são empresas e apenas 31 são Estados!

Discutir o poder e impunidade das grandes corporações é particularmente importante para o nosso contexto Africano por uma série de factores:

Primeiro, porque a captura corporativa (ou deveremos dizer recolonização?) dos nossos governos por grandes corporações transnacionais do Norte global é, actualmente, uma das principais ameaças à nossa soberania. Possibilitada, muitas vezes, pelas políticas de instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (com os seus programas de ajuste estrutural, medidas de austeridade, e demais pacotes neoliberais), esta promiscuidade entre governantes Africanos e as transnacionais resulta em custos elevadíssimos para o meio ambiente, para a maioria da população, e para as nossas jovens e frágeis democracias. Persiste em África uma dinâmica neocolonialista, pois observamos os mesmos mecanismos de dependência de capital estrangeiro, exportação de matérias-primas e importação de produtos manufacturados entre os países Africanos e os países industrializados, e agora também com as novas potências emergentes. Entender as formas e meios pelos quais as corporações transnacionais interferem e comprometem a agenda política dos países Africanos é portanto fundamental para compreender o fenómeno mais amplo de captura corporativa dos nossos espaços de tomada de decisões.

Em segundo lugar, o contexto histórico, social, cultural e económico de África faz com que os impactos do poder corporativo aqui sejam particularmente agudos. Num continente onde a vasta maioria da população é rural (cerca de 70%), e onde os agricultores de pequena escala chegam a produzir perto de 80% de toda a comida produzida no continente, a usurpação de terras e recursos por parte de corporações transnacionais é uma ameaça à nossa soberania alimentar, aos saberes e costumes tradicionais e milenares, e um grave atentado à dignidade humana de milhões de pessoas que já se encontram em situação de vulnerabilidade. As populações tradicionais rurais de África são mutuamente dependentes e protectoras da natureza. Inúmeros estudos mostram que as práticas e conhecimentos tradicionais são os mais eficientes para proteger e restaurar o ambiente, enquanto que, em contrapartida, a agricultura industrializada e o extractivismo estão a ter um impacto avassalador nos nossos rios, florestas e ecossistemas. No sector agrícola, doadores estrangeiros exercem enormes pressões para tentar converter o modelo agrícola familiar predominante em África em oportunidades de lucro para o sector global de agro-negócio.

Por outro lado, e quando olhamos para o contexto do continente, é fundamental lançar um olhar atento às intrínsecas dinâmicas de opressão e exploração de determinados grupos sociais por outros. Cabe aqui destacar em particular o patriarcado e a opressão de género, bem enraizados na dinâmica social da maioria dos países Africanos, e que constituem um impedimento constante ao alcance de uma sociedade mais justa e igualitária. É no patriarcado que o capitalismo neoliberal encontra terreno fértil para proliferar, uma vez que se alimenta e depende destes desequilíbrios de poder dentro de uma sociedade. A divisão sexual do trabalho é uma conveniente ferramenta para a economia extractivista, colocando ao seu dispor uma variedade de serviços de cuidados (com crianças, idosos, doentes) que são desempenhados gratuitamente pelas mulheres, particularmente as de classe social mais baixa.

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Em terceiro lugar, a crise climática que vivemos recorda-nos que para resolver os maiores desafios do nosso tempo precisamos de lidar com as causas estruturais e sistémicas que estão na origem destas crises. Foram os países industrializados do Norte que emitiram a maior quantidade de CO2 para a atmosfera – o grande catalisador das mudanças climáticas – na sua corrida para o desenvolvimento. No entanto, a grande injustiça inerente a esta crise reside no facto de que são os povos do Sul global (portanto os que menos contribuíram para esta crise) os primeiros a sofrer os seus impactos, e aqueles que serão mais atingidos.

Em África, a crise climática não é um problema do futuro – é algo que está a acontecer neste momento, de forma brutal, opressora e altamente desigual. É fundamental, portanto, que a sociedade civil Africana exija que os seus governos estejam alinhados com as necessidades reais do seu povo, e não com a ganância ilimitada das corporações que lucram com a exploração e queima de combustíveis fósseis. Esta ganância é fundamentalmente incompatível com a busca por soluções reais, justas e inclusivas para esta crise.

E em quarto lugar, precisamos urgentemente de desconstruir a narrativa de que África é um continente pobre e precisa de ajuda – narrativa que em muito beneficia a manutenção de um status quo de dependência Norte-Sul. Esta perigosa premissa, há muito repetida e naturalizada tanto dentro como fora do continente, abre caminho para todo o tipo de “soluções de mercado”, uma vez que as corporações são vistas como as grandes promotoras do progresso e do desenvolvimento. África não é pobre – é um continente rico, e a sua riqueza tem sido historicamente assaltada pelas grandes potências imperialistas e colonialistas, século após século. Estudos mais recentes indicam que os fluxos financeiros ilícitos que saem do continente totalizam 50 biliões de dólares norte-americanos a cada ano, valor que tem crescido desde o início do século. Isto é mais do que o total de ajuda externa que o continente recebe no mesmo período!

Esta fuga de capitais pode assumir diversas formas, desde tráfico de produtos a tráfico de pessoas, evasão fiscal, transferência de preços, entre outros. Isto significa que uma absurda quantidade de riqueza gerada em África está a ser desviada para fora do continente sem deixar rastro e, portanto, sem que seja revertida na forma de impostos para a melhoria das infraestruturas sociais e das condições de vida da população.

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De forma geral, a expansão do capitalismo, principalmente na sua vertente neoliberal, trouxe um exacerbar de desigualdades sociais e da exploração de determinadas classes sociais por outras. Apregoando que a globalização e o livre comércio seriam a solução para todos os problemas, o que observamos é justamente o contrário: a arquitectura do livre comércio é intrinsecamente contraditória à legislação de direitos humanos, uma vez que busca a erosão e enfraquecimento do papel do Estado, que por definição é o responsável primário pela promoção e protecção dos direitos humanos e dos povos.

No entanto, importantes movimentos têm surgido como uma contraofensiva à hegemonia do poder corporativo no cenário global, de forma mais ou menos articulada. Diversas organizações e movimentos sociais de todo o mundo têm estado a denunciar e expor os impactos da invasão das corporações nos seus territórios, levando as corporações criminosas ao tribunal, resistindo a acordos de livre comércio, criando cidades e sociedades mais justas e igualitárias, defendendo o seu direito a dizer NÃO a projectos destrutivos, e mostrando que as soluções para as crises que vivemos não devem e nem podem vir embrenhadas na mesma lógica do mercado – devem sim vir de construções colectivas pautadas pelo respeito aos direitos humanos e à natureza.

Uma interessante resposta a esta afronta do poder do capital é a Campanha Global para Desmantelar o Poder Corporativo. A Campanha Global – uma rede de organizações, movimentos e pessoas afectadas pelas transnacionais – tem se mobilizado massivamente para participar no processo de elaboração de um tratado internacional para regular as actividades das empresas transnacionais e responsabilizá-las por violações de direitos humanos e destruição ambiental. Este processo tem estado a decorrer a nível das Nações Unidas (ONU) e sobre ele já escrevemos em vários outros momentos1.

Neste momento, o que cabe reparar é que, na última sessão de negociação do texto deste instrumento vinculativo, em Outubro de 2019, a região Africana afirmou-se de forma ainda mais sólida como uma força propulsora deste processo. Além de se ter manifestado, como união regional, em apoio ao tratado (a declaração da região foi lida por Angola, que preside o grupo Africano este ano), inúmeros Estados Africanos contribuíram, de forma individual, com propostas concretas e substanciais para melhorar o conteúdo do tratado e fortalecer o instrumento.

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Por todos os motivos explanados acima e muitos mais, o continente Africano deveria ter todo o interesse em fazer avançar um instrumento normativo que ponha um fim à impunidade das corporações transnacionais, como este tratado. Uma coisa é certa, a mensagem que os países Africanos têm vindo a reverberar, ano após ano, na ONU em Genebra, é clara: este instrumento internacional vinculativo deve abordar as enormes assimetrias de poder entre as corporações transnacionais e os povos afectados pelas suas actividades. Para que a materialização deste processo vá de encontro às necessidades dos países do Sul – os mais afectados pela impunidade das corporações – é fundamental que estes agarrem as rédeas deste processo intergovernamental de forma a estabelecerem a legislação e mecanismos necessários para reverter o actual cenário, e que o façam em estreita colaboração com a sociedade civil e as populações afectadas por crimes corporativos. Nesta última sessão, talvez mais até que nas anteriores, vários países Africanos mostraram-se aptos e dispostos a encarar o desafio.

Será que os países ditos desenvolvidos estão preparados para dar a “ajuda externa” que África realmente precisa, e punir as suas corporações pelas violações de direitos humanos que cometem mundo afora?

O mínimo que se pode pedir a um “novo Governo”?

Realizaram-se, no passado dia 15 de Outubro, as Sextas Eleições Presidenciais e Legislativas de Moçambique. Pela primeira vez, ao invés de nomeados pelo Presidente da República, os Governadores das Províncias serão eleitos. Os cabeças de lista dos partidos que arrecadaram o maior número de votos a nível provincial serão empossados Governadores. Este novo processo, é fruto da pressão feita pela Renamo no âmbito das negociações com o Governo que culminaram com a assinatura do acordo para o fim das hostilidades entre as duas partes.

Mas importa referir que, devido à onda de violência partidária e intolerância política que o caracterizou, o período de campanha eleitoral destas eleições já é considerado pela maioria dos moçambicanos, bem como pelos observadores internacionais que acompanharam o processo, o pior da história de Moçambique. O auge dessa onda foi atingido no passado dia 7 de Outubro, na cidade de Xai-Xai, Província de Gaza, aquando do assassinato do notável activista de justiça social e ambiental, Anastácio Matavel – Director Executivo do Fórum das ONGs de Gaza (FONGA) e ponto focal da plataforma de observação eleitoral conjunta “Sala da Paz”. Matavel foi assassinado quando saía de uma formação sobre observação eleitoral, na qual terá feito o discurso de abertura. Este crime macabro ocorreu exactamente 8 dias antes das eleições. Sinal mais claro de que ainda não seria desta vez que teríamos eleições “Livres, Justas e Transparentes” em Moçambique não poderia ter havido.

Curiosa mas não surpreendente, de acordo com a Polícia da República de Moçambique, Matavel terá sido assassinado por agentes do Grupo de Operações Especiais (GOE) – o braço da Unidade de Intervenção Rápida que muitos creem albergar os famosos esquadrões da morte que, a mando do regime, têm vindo a violentar e ceifar a vida daqueles que pensam diferente e publicamente criticam a actuação do governo do dia.

Exigimos que estes e outros crimes sejam esclarecidos o mais brevemente possível, bem como que os reais contornos da contração das famosas dívidas ocultas que assombram o futuro do país sejam apurados, tornados públicos e que todos os culpados sejam responsabilizados.

Apesar do resultado destas Eleições Gerais ainda aguardar pela validação do Conselho Constitucional, os resultados preliminares avançados pela CNE e repercutidos pelos órgãos de comunicação social e pelas redes sociais – que indicam que a vitória será atribuída ao Partido Frelimo e seu presidente, Filipe Jacinto Nyusi – estão a ser objecto de muita contestação por parte dos partidos da oposição, da sociedade civil, mas também de observadores independentes. No entanto, tudo indica que, apesar da forte contestação e das alegações de fraude, o actual Presidente da República de Moçambique será reeleito para um segundo mandato.

Se Filipe Nyusi e a Frelimo forem declarados vencedores, sabe-se que será formado um novo Governo que, naturalmente, deverá ser composto por novos membros, mas também por velhos conhecidos. Possivelmente, alguns membros do actual governo serão mantidos nos cargos que ocupam ou serão estrategicamente movimentados para outras posições dentro do aparelho de Estado – dependendo, como tem sido hábito, da vontade e dos interesses do presidente e de outros tomadores de decisões dentro de seu partido.

Assim sendo, e tendo em conta os últimos anos, – nomeadamente os últimos cinco do primeiro mandato de Filipe Nyusi e seu Governo – é fundamental que o governo que agora vai assumir funções assuma um compromisso sério e real para com o povo moçambicano, pois as dificuldades e preocupações que nos afligem hoje são as mesmas de sempre. Não houveram quaisquer avanços e/ou melhorias significativas na condição de vida da maioria da população moçambicana. O que houve, na verdade, foi um aumento generalizado do custo de vida e uma deterioração do acesso a serviços sociais básicos com um mínimo de qualidade.

De um modo geral, a economia nacional não está estável nem inspira confiança. Os preços dos bens e serviços são cada vez mais elevados e a sua qualidade é cada vez mais baixa.

A justiça está um caos e só funciona para alguns. A criminalidade tem estado a aumentar e a polícia é mais vezes parte do problema que da solução, pois é demasiadamente frequente que agentes da autoridade sejam os autores de crimes. Multiplicam-se os assassinatos, ameaças e perseguições políticas contra aqueles que publicamente criticam ou se opõem a acções do governo.

A corrupção só pode aumentar. A todos os níveis. Sobretudo ao mais alto nível, pois apesar de nos últimos anos alguns funcionários públicos terem sido condenados por crimes de corrupção, o crime de “colarinho branco” continua praticamente impune em Moçambique. Para isto, muito contribui o total incumprimento – particularmente por parte das instituições do Estado – da lei de acesso à informação, pois permite que se continue a ocultar a corrupção, fomentando ainda a proliferação de casos de exploração ilegal de recursos madeireiros e pesqueiros, de usurpação de terras e de violação de direitos humanos e das comunidades.IMG_4851

Esperamos mais do novo Governo. E tal qual fizemos após a tomada de posse do Presidente Nyusi há 5 anos, exigimos que o novo Governo garanta à sociedade o acesso à informação sobre os processos de reassentamento e de desenvolvimento das comunidades locais afectadas por grandes projectos e que torne pública toda a informação disponível sobre os processos de atribuição de licenças ambientais, de aprovação dos estudos de impacto ambiental e de degradação ambiental, etc. – tanto no caso de megaprojectos já estabelecidos como a Vale, a Jindal, a Rio Tinto/ ICVL, a Mozal ou a Anadarko, como no caso dos que ainda estão em carteira, como por exemplo o ProSavana1 ou a Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa2.

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Para que haja progresso, é importante que todos os grandes programas ou projectos ditos de “desenvolvimento” social ou económico que o Governo pretenda implementar, sejam aberta e amplamente discutidos antes de serem finalizados e aprovados.

A problemática das mudanças climáticas deve também ser amplamente discutida, pois apesar de não sermos os principais responsáveis pelo problema, somos um dos países mais susceptíveis a ser afectados e, como tal, convém que tomemos as devidas precauções. A recente ocorrência dos devastadores ciclones Idai e Kenneth, ocorridos em Março e Abril do corrente ano no centro e norte do país, vieram expor quão danosas foram as decisões mal tomadas do passado e demonstrar quão nefastos poderão ser para países como Moçambique os impactos das mudanças climáticas. Posto isto, entendemos que promover a exploração de combustíveis fósseis como o carvão, o gás e o petróleo, ou construir megabarragens, não contribui para solucionar, mas sim para agravar o problema, uma vez que elas constituem sua principal causa.

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De um modo geral, apelamos que não sejam repetidos os mesmos graves erros do passado como a falta de transparência, de participação e inclusão efectiva da sociedade civil, de prestação de contas e de acesso a informação relevante e de interesse público não vedada por lei ao domínio público, que caracterizaram os anteriores pelouros governamentais do Ministério da Agricultura e do Ministério da Coordenação da Acção Ambiental (agora concentrados no novo Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural), bem como do Ministério da Administração Estatal.

Muitas das preocupações que tínhamos e que manifestámos aquando da tomada de posse do Governo cessante – como o alerta dado sobre a falta de transparência e de abertura à participação pública nas decisões de desenvolvimento – estavam relacionadas com a “migração” de dossiers que estavam sob tutela do Ministério da Agricultura, para o novo ministério. Mas, na realidade, nada de novo aconteceu para além da mudança de nome destas instituições. Manteve-se a mesma abordagem e, consequentemente, mantiveram-se também os problemas identificados pela Justiça Ambiental há anos, como a usurpação de terras, os problemas da mineração ou os abusos de direitos humanos das comunidades.

Posto isto, uma vez que teremos um novo Governo, voltamos a recomendar também mudanças e uma maior participação da sociedade civil e de outros actores, no processo de tomada de decisões sobre o curso de desenvolvimento nacional e que todos os outros problemas existentes sejam devidamente analisados e resolvidos. É preciso evitar o crescimento dos problemas que já existem em Moçambique, que são vários e graves. O tempo passa mas as preocupações continuam a ser basicamente as mesmas. A questão da poluição nos parques industriais nacionais, sobretudo o da Matola; a má gestão das lixeiras; os problemas e conflitos da mineradora Vale com as comunidades directamente afectadas, nomeadamente a questão do seu reassentamento; ou os abusos da mineradora indiana Jindal, que apesar de pouco falada, é um dos piores casos nacionais, tendo em conta que a empresa explora uma mina de carvão a céu aberto numa zona ainda hoje habitada pela população nativa que ainda não foi reassentada.

Todas estas questões e preocupações, que expusemos numa carta aberta após a tomada de posse do Presidente Nyusi em 2015, continuam pendentes e sem resposta. E é exactamente por precisarem de ser resolvidas, que vimos a necessidade de recordar, como forma de garantir que neste mandato sejam de facto atendidas e na esperança de que este novo Governo os resolva. Que possamos ter um desenvolvimento realmente centrado nas pessoas e que a vida das pessoas possa realmente melhorar – conforme asseverou o Presidente Nyusi aquando da sua investidura para o primeiro mandato em 2015. Para tal, é necessário que sejamos justos nas decisões que tomamos e que as decisões sejam participativas, de modo que aqueles que vão ser afectados por essas decisões possam decidir ou pelo menos participar nos processos de tomada de decisão.

1 O ProSavana é um controverso programa agrícola liderado pelo Governo moçambicano em parceria com o Brasil e o Japão, que visa ocupar 14 milhões de hectares no centro e norte do país, deslocando milhares de pessoas de comunidades locais. Muito contestado, tanto por organizações da sociedade civil como pelos camponeses que serão directamente afectados, o ProSavana (que era tutelado pelo Ministério da Agricultura e agora está sob alçada do MITADER) é o clássico exemplo de um projecto aprovado “em prol do povo e do desenvolvimento”, sem qualquer consideração pelos afectados, que nem nos processos decisórios foram adequadamente envolvidos.

2 A barragem de Mphanda Nkuwa é outro projecto polémico que padece dos mesmos erros de abordagem e da mesma noção caduca de “desenvolvimento”. Edificá-la seria imprudente a vários níveis e constituiria um gigantesco passo atrás na luta às mudanças climáticas que se preveem devastadoras para a região.

Não podemos deixar estar…

A JA! tem vindo a denunciar, junto às autoridades competentes, a prática ou a suspeita de prática de determinados actos que consubstanciam crimes que atentam contra o meio ambiente.

Embora também trabalhemos em áreas relacionadas com direitos humanos, direitos das comunidades e graves violações destes direitos, até à presente data, as denúncias por nós realizadas têm sido relativas a situações sobre o meio ambiente que têm vindo a acontecer no nosso país e que carecem de ter o devido tratamento à luz da legislação em vigor, uma vez que violam (ou há fortes indícios de que estejam a ser violados) alguns princípios constitucionais bem como a legislação em vigor sobre a matéria a que respeitam.

Em Junho de 2018, remetemos à Procuradora Chefe da Cidade de Maputo e ao Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural (MITADER) uma denúncia de suspeita de corte e comercialização de madeiras preciosas. Após alguma insistência, o Ministério pronunciou-se. Informou-nos, por carta data de 24 de Setembro de 2018, que foram efectuadas investigações, e concluiram que não haviam sido detectadas quaisquer irregularidades, comprometendo-se ainda a realizar uma monitoria e fiscalização do transporte e comercialização de madeiras com o propósito de salvaguardar o cumprimento da legislação sobre esta matéria. A Procuradoria, por sua vez, também respondeu cerca de 10 (dez) meses depois, informando-nos que a denúncia apresentada fora remetida à Procuradoria Provincial de Inhambane, por ser de sua jurisdição.

Uma outra denúncia apresentada à Procuradora Chefe da Cidade de Maputo e ao MITADER, foi sobre o despejo directo no mar de resíduos (sobre os quais recaem fortes suspeitas de serem tóxicos) por parte da empresa Mozal. Por outras palavras, reportámos às autoridades – com o conhecimento da Mozal – forte suspeita de estar a ser praticado o crime de poluição ambiental. Sobre esta denúncia, nem a Procuradoria, nem o MITADER se pronunciaram até à presente data. Contudo, a Mozal respondeu. Reconheceu que tinham sido violadas algumas regras básicas de limpeza do equipamento, alegando terem sido entretanto tomadas todas as medidas necessárias para remediar o incidente e garantindo não se ter tratado de um despejo de resíduos no mar. Então, ao abrigo da Lei do Direito à informação, a JA! solicitou à Mozal os relatórios detalhados de monitoria ambiental, mas estes nunca nos foram disponibilizados.

Um outro crime ambiental que continua a ser praticado há vários anos sem que se vislumbre solução, é a poluição gerada pela lixeira de Mahlampswene. Também em Junho de 2018, a JA! fez uma denúncia ao MITADER, requerendo a sua intervenção enquanto autoridade a quem compete solucionar o problema. Também após alguma insistência – cerca de 4 (quatro) meses depois – foi-nos oficialmente dito pela autoridade reguladora que um Relatório de Auditoria Ambiental sobre este assunto havia sido elaborado. Ao tomar conhecimento da existência deste relatório – ao abrigo do direito fundamental à informação, consagrado na Constituição da República de Moçambique, bem como da Lei e do Regulamento do Direito à Informação – a JA! solicitou-o de imediato em Outubro de 2018 ao referido Ministério. Perante a falta de resposta, 4 (quatro) meses volvidos, em Fevereiro de 2019 voltámos a solicitar ao MITADER o referido relatório. E novamente em Julho de 2019… Finalmente, em Agosto de 2019, o MITADER respondeu aos nossos pedidos, informando que o relatório “está em fase processual” e que será facultado assim que estiver concluído. Contudo, até à presente data, a JA! ainda não conseguiu ter acesso ao relatório.

A mais recente denúncia feita pela JA! foi em Maio de 2019. Tomámos conhecimento, através de um membro da comunidade de Palma, que está a ser construído um estaleiro na nascente do riacho Ncalanga, localizado no Distrito de Palma. A dona da obra é uma empresa Chinesa que opera na área da construção civil. No âmbito da edificação deste estaleiro, está a ser construída no local uma superfície em betão sobre toda a área da nascente do riacho Ncalanga. Consta que esta superfície em betão servirá de plataforma para a instalação de uma indústria que irá operar por cima desta nascente. Vários são os impactos e danos ambientais graves decorrentes deste tipo de construções junto a rios e/ou riachos. De modo a alertar as autoridades para esta situação, a denúncia foi dirigida à Direcção Provincial do Ambiente da Cidade de Pemba, com o conhecimento das seguintes entidades: MITADER – Gabinete do Ministro, AQUA – Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental, DNA (Direcção Nacional de Águas) – Cidade de Pemba, DNS (Direcção Nacional de Saúde) – Cidade de Pemba, DSA (Departamento de Saúde Ambiental) – Cidade de Maputo e CHAEM – Centro de Higiene Ambiental e Exames Médicos – Cidade de Maputo. Até à presente data, nenhuma das entidades supracitadas nos respondeu.

Todos os dias somos confrontados com situações de desrespeito pela natureza e pelos seres humanos. Somos colocados à prova, e sabemos que existem leis e meios para que se possa lutar e fazer valer esses direitos que estão constantemente a ser marginalizados. As Leis existem no nosso País e são para se cumprir, não podem ficar apenas no papel! Os direitos são para ser reivindicados e não apenas ficarem “adormecidos”. A inércia e o conformismo têm de ser contrariados, vencidos e derrotados.